domingo, 23 de agosto de 2015

Elvis Presley - Elvis Sings Flaming Star - Parte 2

Flaming Star (Wayne / Edwards) - Essa composição vem bem de acordo com o que Elvis vinha produzindo em sua fase Hollywoodiana. Não chegaria a dizer que se trata de uma grande faixa, mas é inegavelmente bem produzida. Na verdade é uma música composta com um objetivo bem específico: funcionar como tema principal do filme de mesmo nome. Curiosamente as duas versões definitivas de "Flaming Star" (a que saiu em vinil na época e a outra utilizada especialmente para o filme) foram gravadas após as demais canções da trilha sonora estarem prontas há um bom tempo. Dois meses após gravar praticamente todas as canções que fariam parte do filme, Elvis teve que retornar ao estúdio para registrar essas duas, tudo porque os produtores resolveram mudar o título da produção que deixou de se chamar "Black Star" para ser denominada de "Flaming Star" por ser mais comercialmente atraente. Além disso em tempos de tensão racial (Os Estados Unidos passavam pelo problema dos direitos civis com as populações negras) era mais prudente evitar qualquer tipo de desconforto com a palavra "Black" (até porque o personagem de Elvis era um mestiço entre brancos e nativos americanos). No final a mudança foi sensata. No Brasil o filme também recebeu um título forte, que soava muito bem nas marquises de cinema: "Estrela de Fogo".

Wonderful World (Fletcher / Flatt) - Essa música também foi extraída de uma trilha sonora, no caso do filme "Live A Little, Love A Little" (Viva um Pouquinho, Ame um Pouquinho, no Brasil). Ela aparecia logo na primeira cena, durante os letreiros de apresentação, com Elvis dirigindo perigosamente seu bugre amarelo. Hoje a canção soará bem datada por causa de seu arranjo bem cafona, parecendo que Elvis está sendo acompanhado por uma bandinha de circo ou parque de diversões do interior. Curiosamente a música foi deixada de lado pela RCA Victor por anos e anos. Pelo visto os produtores da gravadora não ficaram muito empolgados pelo resultado final e não investiram muito nela, não procuraram trabalhar comercialmente melhor com seu potencial. A tentativa de soar nostálgico, saudosista e ao mesmo tempo meio moderninho (como o próprio filme queria) não deu lá muito certo, temos que admitir.

Night Life (Giant / Baum / Kaye) - Mais uma que estava perdida dentro da discografia de Elvis. É a tal coisa, a RCA vasculhou velhos arquivos, tirou poeira das fitas esquecidas e literalmente salvou do esquecimento completo algumas faixas que tinham sido esnobadas, mas que juntas até que poderiam servir para vender algumas cópias avulsas, usando o nome mágico do ponto de vista comercial de Elvis. "Night Life" é muito curta, que termina quase em um susto. Em sua defesa temos que admitir que tem um bom arranjo e uma boa pegada. A guitarra estridente ao fundo agrada. Elvis não se esforça muito, é verdade, mas no fundo essa é uma questão menor. A música originalmente foi gravada para fazer parte da trilha sonora de "Viva Las Vegas" (Amor a toda velocidade, no Brasil), porém acabou arquivada sem muita explicação por parte do produtor. Acredito que nem o próprio Elvis se lembrava dela quando finalmente a faixa ganhou o mercado nesse LP. Se fosse defini-la de forma sucinta diria que é um bom roquinho para alegrar o ambiente.

All I Needed Was The Rain (Weisman / Wayne) - Esse blues fez parte do pacote de músicas que acompanharam o filme "Stay Away, Joe" (Joe é Muito Vivo, no Brasil). Esse foi um filme bem gaiato, completamente singular dentro da filmografia do cantor. Só quem assistiu a essa película saberá do que estou dizendo. O roteiro é uma bagunça completa, quase uma brincadeira nonsense. Elvis, extremamente bronzeado, parece interpretar um sujeito que está mais em busca da próxima zueira do que qualquer outra coisa. O enredo é praticamente inexistente e há várias cenas ao estilo pastelão. O interessante é que Elvis viu seu cômico personagem como uma oportunidade de fazer algo diferente em Hollwyood. Imaginem só como andava feia a coisa para ele por essa época. No filme Elvis a canta quando está na pior, ao relento, curtindo uma fossa. Trocando em miúdos, a música é boa, mas a cena, tal como todo o filme, não passa de uma bobagem sem tamanho.

Pablo Aluísio e Erick Steve.


domingo, 16 de agosto de 2015

Elvis Week 2015


Elvis Week - Como acontece todos os anos tivemos o encerramento da Elvis Week (a semana em que se relembra a data da morte de Elvis Presley) com a já consagrada vigília à luz de velas em Graceland. Para quem não conhece e nunca ouviu falar é uma singela homenagem em memória ao cantor onde os fãs usam velas e depois passam ao lado de seu túmulo no jardim da meditação em sua famosa mansão. Nesse ano foi muito comentada a participação mais efetiva da filha de Elvis, Lisa Marie, que se fez acompanhar das netinhas gêmeas do eterno Rei do Rock. Também é digno de nota o fato de que o movimento de turistas e admiradores do legado de Elvis foi bem mais intenso do que se esperava. Geralmente em datas mais redondas o número de visitantes a Memphis é bem maior, mas nesse trigésimo oitavo ano sem Elvis as expectativas foram superadas em termos de número de pessoas, mostrando que a força da música de Elvis permanece firme, mesmo após tantos anos. Viva Elvis!




Assista ao vídeo:


FTD Southern Nights - Parte 4

Depois de explorar bem os shows realizados em Atlanta, Macon e principalmente Huntsville (que formam o esqueleto básico desse CD), Ernst Jorgensen resolveu completar o CD pincelando pequenos momentos de outras apresentações. De seu show em Mobile, por exemplo, Ernst resgatou uma versão de Bridge Over Troubled Water. Embora muito distante das versões da segunda temporada de 1970, consideradas as melhores de toda sua carreira, essa faixa é certamente razoavelmente bem executada e traz um Elvis inspirado em certos momentos. A velocidade da canção está bem fora de seu ritmo normal e apresenta oscilações rítmicas que soam, às vezes, desconfortáveis. Além disso ela não é tão bem gravada como tantas outras que conhecemos. Por outro lado Elvis parece estar envolvido, apesar de se segurar em alguns momentos para não forçar a voz. Apesar de todos esses pequenos problemas a versão ainda consegue se manter em um nível um pouco acima da média.

Do concerto realizado em Memphis no dia 10 de junho de 1975, Ernst resgata uma boa versão de Fairytale. Qualquer canção que fugisse do velho repertório cansado de Elvis por essa época era muito bem-vinda. Essa canção foi incluída para promover o último disco de Elvis, "Elvis Today" ("Elvis today, yesterday... however... tomorrow..." como brinca o cantor antes de começar a faixa). Aqui também notamos a guinada de direção que Elvis, de certo modo, promoveu em sua carreira de estúdio. Saem os rocks (tão presentes nos anos 50), as músicas pops (tão presentes nas trilhas sonoras) e entra as baladas e o country! Obviamente que em uma turnê no sul dos EUA Elvis tinha que caprichar nesse ritmo tipicamente regional, fato confirmado com Jambalaya gravada na pequena Lake Charles no dia 2 de maio! Aliás a inclusão de Jambalaya era muito oportuna, visto que ele estava na Louisiana, Estado vital na história de Hank Williams, cantor e mito do gênero gountry, morto precocemente. Pena que a versão dure pouco mais de trinta segundos!

A última versão pincelada de outros shows para completar o CD é Help Me Make it Throught The Night. Ela vem apenas para confirmar o que escrevi antes, da preferência visível demonstrada por Elvis pelas baladas countrys. A música tinha sido lançada três anos antes no disco "Elvis Now" e nunca conseguiu se firmar com maior freqüência dentro do repertório de Elvis. A versão em estúdio deixa um pouco a desejar e essa versão ao vivo também. Apesar de ser bem raro para o fã médio ter essa música gravada nos palcos, percebemos nitidamente que ela é apenas razoável, sem grandes destaques. Elvis, apesar de rir um pouco no começo da execução, procura ser profissional no resto da faixa e a canta de forma correta. O fato é que podemos perceber que essa canção não funcionava muito bem ao vivo, pois era de levada mais intimista e calma, pouco apropriada para grandes concertos. De uma forma ou outra ela seria descartada pouco depois.

Conclusão final: Aconselho esse título especialmente para os fãs dos anos 70. Depois do Aloha From Hawaii Elvis entrou em uma etapa de sua carreira artística caracterizada por uma rotina, muitas vezes cansativa e tediosa, de shows ao vivo. Nenhuma dessas temporadas em Las Vegas ou turnês pelos EUA representavam mais qualquer tipo de desafio para Elvis Presley, porém mesmo estando de certo modo preso dentro dessa situação de muitos shows e pouca renovação musical, ele ainda se empenhava em fazer boas apresentações e concertos, como esses que ouvimos aqui. Obviamente todos esses registros foram selecionados a dedo por Ernst Jorgensen, certamente eles nos trazem apenas o que de melhor Elvis apresentou para seu público, mas isso já é suficiente para termos uma idéia de sua vida artística no período. Para quem quiser se aprofundar nessas apresentações o melhor caminho a seguir mesmo é o dos lançamentos não oficiais, os conhecidos Bootlegs, tanto soundboards (gravados diretamente da mesa de som usada nos concertos) como audiences (gravados pelos próprios fãs que assistiram ao show, diretamente da platéia), porém como já escrevi aqui antes, essa é uma outra história... Até a próxima, prezado leitor.

Pablo Aluísio.

domingo, 9 de agosto de 2015

FTD Southern Nights - Parte 3

A agradável Hawaiian Wedding Song surge logo a seguir e aqui Elvis apresenta uma bela versão, correta e sem máculas. Ele se desculpa com a plateia, que pede Blue Hawaii, e sai pela tangente apresentando essa canção do mesmo filme e com uma letra bem mais fácil para ele se recordar. Infelizmente ela é seguida de mais uma versão medíocre de Blue Suede Shoes dos anos 70. Novamente temos uma versão que dura pouco mais de um minuto, com Elvis não a levando a sério em nenhum momento e que, como já escrevi antes, só servia mesmo para acordar a platéia e chamar a atenção de todos que aquele que estava ali no palco era o mesmo Rei do Rock que virou a cultura mundial de ponta cabeça durante os anos 50. A canção é isso, um mero (e bem burocrático) memorando! O melhor momento desse primeiro show em Huntsville vem com For The Good Times. Essa versão, além de ser bem rara, ainda traz um belo momento de Elvis, com vocalização sóbria e equilibrada e com um entrosamento quase perfeito com seu grupo. Sua semelhança e fidelidade de execução realmente é espantosa, pois está bem próxima da versão oficial. Elvis está sutil, concentrado e empenhando em fazer uma bela versão. O resultado não poderia ser outro: o melhor registro do CD até esse momento. Embora esse show da tarde seja bem na média, com poucos momentos realmente interessantes e que saiam do comum, ele ainda é considerado o melhor feito por Elvis naqueles três dias estacionado em Huntsville.

Depois do primeiro contato com o público Elvis foi perdendo gradualmente o interesse nos shows seguintes, tanto que apenas duas canções do show noturno foram aproveitadas nesse CD. A primeira é I Can't Stop Loving You. Embora alguns tenham tratado essa versão com adjetivos exagerados como "maravilhosa" e "poderosa", temos que cair na real e chegar a conclusão que ela está bem na média de todas as outras versões que Elvis produziu dessa música. Aliás ela já estava totalmente saturada por essa época, tanto que Elvis a descartaria rapidamente a partir desse momento, talvez por não aguentar mais cantá-la em outras e repetidas vezes! Razoável, bem executada, tecnicamente boa, porém banal e rotineira. Isso definitivamente não é o que acontece com I'm Leavin'. Que música maravilhosa, fantástica e bela! Essa canção é tão bonita que ainda me lembro da primeira vez que a ouvi, lá nos distantes anos 80! Definitivamente um das mais belas harmonias já cantadas por Elvis Presley. O registro dessa versão ao vivo é precioso por inúmeros motivos. O primeiro deles é o fato de Elvis quase nunca a apresentar em seus shows! Uma canção tão fantástica deveria ter sido mais explorada por Elvis em seus concertos ao vivo, mas nunca ganhou um papel de maior destaque ou se firmou em seu repertório de forma definitiva. Só podemos lamentar esse fato. Outro fator que torna essa versão especial é sua qualidade técnica. Podemos ouvir com certa nitidez todos os instrumentos, a orquestra, a banda TCB (com destaque especial para a bateria) e o vocal de apoio. Não é uma maravilha, até porque se trata de um soundboard, porém estamos bem próximos de uma qualidade técnica de alto nível sonoro. Por fim, o último fator que a torna especial é a própria interpretação de Elvis durante sua apresentação. Bem distante de sua postura de desinteresse e tédio que o acometia quando cantava seus antigos rocks, aqui Elvis se entrega totalmente ao lirismo ímpar da música. O resultado final é brilhante e a faixa é a melhor, sem nenhuma sombra de dúvidas, de todo o CD.

Embora o restante do material de Huntsville não traga mais nada de novo e nem remotamente tão interessante como "I'm Leavin'", podemos ainda destacar algumas versões interessantes. Release Me gravada na tarde do dia 1º de junho é uma delas. Embora não fosse nenhuma novidade, ainda era uma estranha no ninho no repertório de Elvis nesse ano de 1975. Aqui Elvis desacelera a velocidade normal da canção, o que a prejudica, pois seu ritmo correto, que foi utilizado na versão master do disco "On Stage", é muito mais satisfatório. A sensação que Elvis passa aqui é de estar com pouca vontade de levar em frente e terminar a música. Vale como registro. A outra canção retirada desse mesmo show da tarde é o clássico Heartbreak Hotel. Aqui Elvis repete o velho erro que quase sempre o acometia quando apresentava seus velhos sucessos dos anos 50. Ele se mostra pouco interessado, pouco envolvido, quase como se estivesse segurando o riso e na parte da execução se limita a murmurar preguiçosamente a letra. Elvis deveria ter mudado um pouco esse tipo de postura, não só em respeito ao seu público, como também ao seu passado, pois se não fossem todos esses clássicos ele certamente não estaria ali fazendo mais um show com lotação esgotada. De qualquer maneira o ponto positivo desse penúltimo show de Elvis em Huntsville é que ele apresenta uma boa sonoridade. Tecnicamente perfeita não é, nenhum CD ao vivo do selo FTD é perfeito no aspecto puramente de qualidade sonora, mas podemos perceber que pelo menos esse concerto em particular foi suficientemente bem registrado.

Por fim chegamos nas três últimas canções retiradas das apresentações realizadas por Elvis nessa cidade, a saber: Polk Salad Annie, I'll Remember You e Little Darlin'. Antes de iniciar Polk Salad Annie Elvis começa a canção Burning Love, porém a interrompe logo nos primeiros versos. A situação fica um pouco embaraçosa, principalmente depois que ele tenta se lembrar da letra e não consegue. Então sua vocalista começa a lhe passar a letra do primeiro verso, Elvis se enche um pouco daquela coisa toda e parte logo para Polk Salad Annie. Aqui podemos perceber que Elvis, depois de cinco shows seguidos, já estava um pouco de saco cheio. Ele nem insiste em tentar terminar (ou melhor dizendo começar) Burning Love, ele simplesmente a descarta! Aliás verdade seja dita, Burning Love nunca foi parte de sua lista de músicas preferidas, tanto que ele foi praticamente levado a gravá-la em estúdio e depois que ela se tornou um grande hit ele se viu na obrigação de apresentá-la nos concertos, mas quase sempre sem muito envolvimento e emoção. A versão de Polk Salad Annie desse último concerto em Huntsville é muito boa e interessante. Percebe-se claramente que Elvis se empenha em cantar direito, até mesmo para acabar com a má impressão deixada pelo fiasco de "Burning Love". Como as versões dessa época Elvis não apresentam a introdução falada e parte logo para a segunda parte da canção. Enfim, mais uma versão de "Polk Salad Annie" para a sua coleção das milhares de outras. O destaque maior fica mesmo com a participação da banda TCB e principalmente pelos solos do baixista Jerry Scheff (que chegou a tocar com os Doors em seu último disco, "L.A. Woman"). I'll Remember You, conhecida canção de seu show Aloha From Hawaii (como ele mesmo deixa claro no começo da execução) aparece de pára-quedas no show. Essa música nem sempre foi muito utilizada por Elvis, porém as versões Off Aloha que conhecemos sempre mantiveram um nível satisfatório, tanto nos aspectos puramente técnicos como também de interpretação por parte de Elvis, sem dúvida era uma melodia que muito lhe agradava, tanto que sempre procurava apresentar belas versões para seu público.

A última canção retirada dos shows em Huntsville é Little Darlin'. Essa canção era nova no repertório de Elvis e foi incluída por ser um símbolo dos anos dourados. Aqui Elvis certamente se posicionava como um artista nostálgico e o alvo era certo quando apresentava músicas como essa: seus antigos fãs dos anos 50. O mais interessante de quase todas as versões dessa canção é que Elvis quase nunca a levava muito à sério, sempre rindo ou tentando conter o riso, além disso ele sempre aproveitava a deixa para tirar uma onda em cima do arranjo "bons tempos" da famosa baladinha. Depois disso Ernst resolveu acrescentar as despedidas finais de Elvis para o público em Huntsville. O cantor agradece e é muito celebrado pelo público. Infelizmente um dos grandes pecados desse CD é justamente a desorganização em que as faixas foram colocadas, misturando canções gravadas em shows e apresentações diferentes! Deveria ter sido respeitado a ordem cronológica dos concertos, porém Ernst escolheu o caminho mais fácil de juntar tudo num só balaio para causar a falsa impressão de se estar ouvindo um show completo e não uma coletânea de momentos diversos de turnês específicas. De qualquer forma essa canção encerra a parte Huntsville do CD. São ao total doze canções retiradas desses quatro shows (lembrando que o CD não traz nenhuma faixa da estreia de Elvis nessa cidade). Para quem quiser conhecer um pouco melhor esses concertos aconselho adquirir o Bootleg Huntsville'75 USA.

Pablo Aluísio.

domingo, 2 de agosto de 2015

FTD Southern Nights - Parte 2

Vamos nos concentrar agora no CD Southern Nights, ótimo lançamento do selo FTD. O CD começa com quatro versões retiradas das apresentações que Elvis realizou em Atlanta entre o final de abril e começo de maio de 1975. Do show do dia 30 de abril Ernst resolveu aproveitar That's All Right, It's Now Or Never e Help Me. Já do concerto realizado no dia 2 de maio foi acrescentada a canção Steamroller Blues. Se Nashville pode ser considerada a capital cultural do sul dos EUA, Atlanta, na Georgia, é a verdadeira potência econômica da região. Sua importância é tamanha para a economia daqueles Estados que ela é considerada a verdadeira força motriz do Sul. Não poderia ser diferente, pois essa cidade abriga a sede de algumas das maiores multinacionais do mundo, como por exemplo, a própria Coca-Cola. Tal pólo comercial e financeiro nunca poderia ser ignorado pelo Coronel Tom Parker, até porque ele sempre considerava os shows de Elvis nessa cidade os mais importantes nessas turnês pelo Sul. A repercussão dos concertos em Atlanta seria sentida em todos os demais shows. Um concerto ruim em Atlanta significava um certo risco para o resto da turnê, pois um erro de Elvis nos palcos dessa cidade seria comentado e conhecido em todos os lugares e cidades sulistas. Por outro lado boas apresentações por parte de Elvis aqui sempre iriam gerar a repercussão oposta, ou seja, muita publicidade positiva nas cidades que ele visitaria depois. Se havia uma cidade vital nessas turnês de Elvis por todos esses Estados do sul, essa cidade se chamava Atlanta. O que Elvis faria ou deixaria de fazer em seus concertos em Atlanta iriam repercutir em todos os rincões do velho Sul norte-americano. Infelizmente, apesar de toda essa importância, Ernst Jorgensen não procurou destacar muito esses concertos. Ao invés de trazer mais faixas gravadas em Atlanta ele preferiu prestigiar as apresentações de Elvis em Huntsville nesse CD. De qualquer forma, mesmo com poucas versões presentes podemos ao menos ter uma idéia mais precisa de como Elvis estava nesses shows.

Os primeiros acordes de That's All Right são ouvidos e logo podemos perceber que, se levarmos essa versão como paradigma da apresentação, podemos facilmente chegar à conclusão de que Elvis estava bem nesses shows, principalmente porque esse CD nos traz sua voz com bastante nitidez e clareza. O arranjo é tradicional e sem surpresas. Já It's Now Or Never traz algumas novidades. A primeira coisa que notamos com facilidade é a mudança de sua velocidade normal e de sua linha melódica, fazendo com que ela fique bem mais lenta e terna. Um de seus maiores hits, "It's Now Or Never" seria cada vez mais presente em seu repertório nos anos finais, inclusive contando com os solos do vocalista Sherril Nielsen. E por falar nele, Help Me do disco "Promised Land", vem logo a seguir. Aqui temos um dueto entre Elvis e Nielsen. A combinação é interessante, pois sendo um barítono, Elvis se encaixa perfeitamente num "duelo" de vozes com seu colega de palco. Porém, se ficarmos atentos, vamos chegar facilmente à conclusão de que os melhores momentos da canção são justamente aqueles em que Elvis aparece sozinho ao microfone. Sua voz se sobressai com maior destaque e podemos nitidamente perceber que sua sensibilidade está realmente à flor da pele! De qualquer maneira não podemos deixar de reconhecer que essa é, sem dúvida, uma versão de alto nível. Infelizmente a parte "Atlanta" do CD conta com pouquíssimos registros nesse CD. Steamroller Blues, canção gravada dois dias depois, vem para encerrar a participação de Elvis na cidade da Georgia. Essa faixa é extremamente bem executada, com Elvis e banda totalmente entrosados. Segue muito de perto da versão do disco "Aloha From Hawaii", exceto com alguns solos mais destacados de piano e baixo. Mesmo assim não é algo que fuja muito do que já estamos acostumados a ouvir nas outras versões desse blues. Depois de encerrar as quatro músicas gravadas em Atlanta o CD apresenta, de forma dispersa, vários momentos diversos de apresentações diferentes.

Infelizmente Ernst as embaralhou completamente e para seguir uma certa lógica vou ignorar a ordem das canções do CD para organizá-las de acordo com o local e a data em que foram gravadas. Pura questão de organização. Vamos agora analisar as canções que foram gravadas em Macon no mesmo Estado da Georgia. Tenho certeza que você agora se lembrou do famoso verso de introdução de "I washed my hands in muddy water" que diz: "I was born in Macon, Georgia / They kept my daddy over in Macon jail...". Lembrou? Pois bem, continuemos, vamos seguir em frente com a análise. A versão Promised Land desse CD vem para confirmar um fato que se repete em vários outros shows de Elvis Presley nos anos 70. Embora essa canção de Chuck Berry tenha se traduzido em um dos maiores momentos da carreira de Elvis em estúdio naquela década, com uma versão fantástica e impecável, notamos que, com raríssimas exceções, as versões ao vivo desse rock sofrem de praticamente o mesmo mal: a falta de pique, garra e envolvimento por parte de Elvis ao cantá-la! Aqui o cantor se arrasta, não consegue entrar em sincronia com a banda e coloca seu vocal no controle remoto. Uma pena. A forma como foi gravada também não ajuda em nada, pois os teclados estão em primeiro plano, sendo que eles apenas são partes periféricas da canção e não deveriam ser expostos de forma tão destacada, superando e abafando até mesmo o resto da banda. Esse erro técnico no momento da gravação é facilmente explicado pois esse é um registro semiprofissional, sem os cuidados necessários e balanceamento correto entre os vocais e demais instrumentos. Em decorrência disso notamos outro grande problema ao ouvir a versão: a orquestra simplesmente desapareceu na mixagem final! Para quem não gosta dos arranjos de metais isso pode até soar como um aspecto positivo, mas a descaracteriza como ela foi realmente pensada pelos arranjadores que estavam envolvidos na carreira de Elvis na época. Como nota favorável temos apenas a presença bem marcante dos solos de guitarra, que ao contrário dos metais, não desaparecem e cumprem excelente papel. Infelizmente James Burton também não está muito empolgado e sua participação soa burocrática. Não o culpo, se Elvis não se envolve em nenhum trecho da canção, por que ele se empenharia? Essa versão foi gravada no show realizado em Macon, Georgia, no dia 24 de abril.

A outra canção presente nesse CD do mesmo show, Big Boss Man, parece confirmar que Elvis estava realmente pouco empolgado, embora nessa segunda canção ele esteja bem mais ligado na canção. O problema de faixas como Big Boss Man e Promised Land era que Elvis simplesmente não levava mais a sério esse tipo de música. Geralmente elas eram usadas apenas para evitar que o show caísse na monotonia. Uma forma de despertar e balançar o público para evitar que a apresentação ficasse muito parada. Acredito que se Elvis apenas fosse cantar o que lhe agradava nessa fase de sua vida ele certamente iria interpretar uma balada atrás da outra durante os shows, coisa que afinal de contas acabou fazendo em sua carreira dentro dos estúdios no final de sua vida. E por falar em baladas românticas, melancólicas e tristes, a retenção do show em Macon acontece justamente com It's Midnight. Aqui Elvis parece confirmar a tese de que ele realmente não estava mais preocupado em fazer boas versões de seus rocks mais conhecidos mas até que se empenhava, e muito, em disponibilizar belas versões de suas baladas românticas. Mesmo fora de seu ritmo normal, mesmo estando acelerada, "It's Midnight" mostra um Elvis finalmente envolvido na interpretação. Ao contrário das canções anteriores do mesmo show em Macon, aqui Elvis se mostra presente e não apenas cumprindo tabela. Embora seja outro erro técnico de gravação, a marcante presença da vocalização feminina, outra vez em primeiro plano, valoriza o belo vocal de Kathy Westmoreland. Belíssima voz e maravilhoso complemento a essa bela canção da fase final de Elvis.

Grande parte desse CD foi gravado em uma cidade de porte médio do sul, chamada Huntsville, localizada no norte do Alabama e bem na fronteira do Estado com o vizinho Tennessee, em cinco diferentes concertos realizados por Elvis nessa turnê. Essas apresentações nos dão uma idéia do ritmo acelerado e da estafante rotina de shows a que Elvis era submetido. Em apenas três dias ele subiu ao palco cinco vezes, sendo o primeiro show feito no dia 30, e mais quatro apresentações nos dois dias seguintes, sendo realizados dois concertos por dia, com Elvis se apresentando às duas e meia da tarde e depois subindo novamente ao palco para mais um show noturno às oito e trinta da noite. Todas essas apresentações foram realizados no mesmo local, o Von Braun Civic Center com capacidade para oito mil pessoas (o nome do ginásio se explica, pois a cidade sempre teve um passado muito ligado ao projeto espacial dos EUA). Aqui também temos uma idéia de como funcionava a mentalidade circense do empresário de Elvis, Tom Parker. Quando chegavam em uma cidade como essa, Tom Parker e seu assistente pessoal ficavam de olho, acompanhando o ritmo das vendas de ingressos. Se o show fosse esgotado e ainda houvesse público suficiente para uma nova apresentação o Coronel Parker não perdia tempo! Ora, se ainda havia público interessado em ver Elvis ao vivo não havia tempo (e dinheiro) a perder, o Coronel sempre arranjava um jeito. Ele logo providenciava uma maneira de não deixar a oportunidade de lucrar ainda mais passar por suas mãos. O plano inicial era de Elvis realizar apenas três shows noturnos na cidade. Porém como a procura de ingressos foi muito grande, o Coronel logo marcou mais dois concertos no turno da tarde! Isso causava um sério problema para Elvis, porque assim ele praticamente ficava sem dormir, pois era justamente nesse horário vespertino que ele costumava dormir e descansar entre os shows. Mas para Tom Parker isso não tinha nenhuma importância, ele rapidamente marcava os shows e colocava suas velhas táticas de promoção em ação. Sua forma de vender os shows de Elvis não tinha mudado nada em mais de vinte anos ao lado do cantor.

O mais incrível é saber que a velha tática de promoção de Parker ainda se revelava eficaz nessas ocasiões. Basta ver o sucesso de público desses shows. Nada mudava e o empresário de Elvis sempre repetia a mesma estratégia, cidade após cidade. O Coronel alugava horários nas rádios locais para tocar exclusivamente músicas de Elvis, espalhava posteres e até mesmo balões pela cidade, e anunciava seu show até mesmo em carros com alto falantes pela cidade e arredores. Se houvesse um circo na cidade o Coronel não perdia tempo e logo contratava uns malabaristas para promover o show de Elvis nas principais vias da cidade. Era uma loucura que sempre funcionava. O importante mesmo era faturar em cima do interesse de uma apresentação de um grande astro como Elvis Presley numa cidade como Huntsville, que muitas vezes ficava fora do circuito de concertos de grandes artistas da época. Talvez essa fosse realmente uma coisa correta que o Coronel fazia, levar Elvis para lugares que muitas vezes eram ignorados por outros astros. Levar o artista aonde o povo está! De qualquer forma esse tipo de atitude empresarial de Tom Parker se revelou acertada, pelo menos nessa ocasião.

Vamos agora analisar as canções desses shows. O primeiro concerto em Huntsville foi realizado na noite do dia 30 de maio, mas infelizmente nada dessa apresentação inicial foi aproveitada no CD. Em compensação o segundo concerto foi muito bem explorada por Ernst Jorgensen. Desse show, realizado na tarde do dia posterior, foram retirados as seguintes músicas: Trouble, T-R-O-U-B-L-E, Hawaiian Wedding Song, Blue Suede Shoes e For The Good Times. Na primeira faixa desse show vespertino que ouvimos aqui, Elvis começa fazendo uma introdução da canção T-R-O-U-B-L-E: "We have a new record out, ladys and gentlemen, that has been out 2 or 3 weeks now, that’s called, T.R.O.U.B.L.E." mas logo muda de caminho e começa uma pequena versão de Trouble, velho sucesso de seu filme King Creole. Essa micro versão dura menos do que um minuto e nem deveria ter sido creditada na lista das músicas do CD. Elvis logo a encerra de forma repentina (muito provavelmente por não se lembrar mais de sua letra) e começa finalmente a apresentar T-R-O-U-B-L-E, carro chefe de seu último disco, "Elvis Today". Embora comece bem a canção, lá pelo meio da música surge um problema muito freqüente para Elvis em concertos dos anos finais de sua carreira, o esquecimento ou confusão nas letras. Aqui Elvis se enrola, ri, fica um pouco confuso mas resolve seguir adiante, aos trancos e barrancos! De qualquer forma, depois desse pequeno deslize (e outros erros que surgem no decorrer da faixa), Elvis se recupera bem e leva a canção de forma correta até o final, que também é bem interessante e foge um pouco da master oficial que conhecemos de estúdio. É uma versão apenas razoável e demonstra que apesar de sofrer às vezes com o esquecimento das letras, Elvis poderia se recuperar facilmente e disponibilizar material com certa qualidade quando se esforçava para isso. Pelo menos aqui ele está muito melhor do que na versão de Promised Land que já ouvimos (outro carro chefe presente nesse CD).

Pablo Aluísio.

domingo, 26 de julho de 2015

FTD Southern Nights - Parte 1

Em 1975 Elvis Presley completou quarenta anos de idade. Apesar de ser algo normal e natural para qualquer ser humano, Elvis encarou a nova idade como uma grande tragédia em sua vida. Nos dias de hoje fica até mesmo difícil entender como alguém ficaria tão abalado apenas pelo fato de superar a barreira dos quarenta, mas para Elvis esse fato só significava uma coisa: ele estava ficando velho! Velho demais para sobreviver como artista! Não importava o fato de existirem muitos ídolos numa faixa etária maior do que essa, como o próprio Frank Sinatra, nem importava a famosa frase de que "a vida começa aos quarenta", isso não tinha importância para ele. Para Elvis Presley completar 40 anos era traumatizante, o simples fato de romper a linha dos 40 já era demais para ele! Como ele se veria agora? Como um dos maiores símbolos jovens da história da cultura pop iria agora encarar essa maturidade inegável? Pelo jeito, nada bem. Elvis encarou a chegada de seu 40º aniversário da pior maneira possível. Trancou-se em casa, ficou deprimido e abatido, se recusou a atender telefonemas no dia 8 de janeiro e evitou a todo custo aparecer em público.

Além disso se convenceu que estava com o rosto envelhecido demais, implicando totalmente com as características bolsas de envelhecimento abaixo de seus olhos (coisa que logo procurou corrigir fazendo uma cirurgia plástica em poucos meses). Nesse dia Elvis não parou de se lastimar com seus amigos mais próximos e de se olhar no espelho, "Imagine, 40 anos! Estou acabado! Não sou mais um garoto!" ficava repetindo insistentemente o cantor pelos corredores de Graceland. Em sua cabeça isso significa que seus fãs iriam deixá-lo pois ninguém seria mais admirador de um velho astro idoso! Elvis ficou tão abalado que não conseguia mais pensar em nada, estava sempre perguntando aos seus amigos: "Será que os fãs ainda vão gostar de mim quando eu estiver velho?!". Para Red West desabafou: "Red, estou acabado! Não consigo mais me imaginar como um ídolo de ninguém. Estou próximo do fim!". Red West relembrou anos depois: "Depois de um tempo aquele dramalhão de Elvis começou a encher o saco! Quando mais falávamos para ele não se preocupar, mais ele se lastimava! Definitivamente foi uma chatice sem tamanho ficar ao lado dele em seu 40º aniversário!" Apesar de todos deixarem claro que essa preocupação não tinha sentido, Elvis não se convencia do contrário. Quando se defrontava com esse tipo de situação Elvis se isolava, trancava-se em casa e se recusava a ver pessoas estranhas ao seu círculo íntimo. E foi o que fez.

No dia de 8 de janeiro, enquanto os fãs de todo o mundo lhe mandavam cartões e mensagens de congratulações, Elvis se fechava mais ainda, em total reclusão. Ele havia se convencido que completar 40 anos era uma verdadeira desgraça na sua vida pessoal e ponto final, ninguém nesse mundo iria convencê-lo do contrário. Quem não queria nem saber dessa bobagem toda era o Coronel Parker. De seu escritório ele já tinha planejado todos os shows de Elvis em sua próxima turnê. Quarentão ou não, Tom Parker não queria nem saber, Elvis teria que sair de Graceland para uma série de apresentações. O fato era que nem Elvis poderia viver trancado em casa, se corroendo por ter feito 40 anos, para Parker ele logo teria que colocar o pé na estrada novamente para cumprir seus contratos. Ultimamente Elvis vinha cada vez mais se queixando das longas viagens, do desconforto de viver de cidade em cidade, de ter que se apresentar em um ou dois shows diários. Elvis sentia-se esgotado após tantos anos de concertos. Ele chegou inclusive, em muitas ocasiões, a deixar claro que aquele tipo de vida já não lhe trazia mais grande prazer e que já pensava em um futuro próximo ir diminuindo o ritmo de trabalho. Em vista dessas reclamações e do fato dele estar deprimido por ter feito 40 anos, o Coronel Parker acabou cedendo um pouco e seguindo o conselho de Joe Esposito resolveu agendar uma série de shows no Sul mesmo, pois além das cidades serem relativamente próximas de Memphis, Elvis não teria que se esforçar demais pois aquele também era o reduto mais fiel de seus fãs. Diante dessas pessoas Elvis seria sempre bem recebido, seja qual fosse sua atual condição de saúde ou de estado de espírito. Elvis estaria em casa, ou pelo menos perto de casa, ali no quintal de Memphis. E foi justamente nessa primeira turnê como quarentão que esse CD foi gravado.

Embora Elvis estivesse passando por um momento ruim (pelo menos na sua forma de ver), o cantor procurou apresentar belos concertos e ampliou consideravelmente o leque de opções de seu repertório, atendendo inclusive aos reclamos de críticos e músicos que lamentavam cada vez mais a falta de uma maior renovação nas canções apresentadas ao vivo. Realmente, desde a ótima temporada de agosto de 1970, onde muita coisa nova foi acrescentada aos concertos, pouca coisa mudara em mais de 4 anos de shows ininterruptos. Já era hora mesmo de promover algumas mudanças, mesmo que fossem tímidas. De qualquer maneira, toda e qualquer nova música adicionada aos concertos já era um sopro de ar fresco em suas rotineiras apresentações. E assim, depois de cumprir uma temporada em Las Vegas, Elvis caiu na estrada para realizar mais uma turnê de primavera. Apesar de tudo, dos 40 anos, das lamúrias, das choradeiras, das lengalengas do cantor e da extensa agenda de compromissos, esses concertos até que ocorreram numa calma muito bem-vinda para o quarentão Elvis Presley. O CD traz canções gravadas nas cidades de Atlanta, Huntsville, Mobile, Houston, Jackson, Memphis, Lake Charles e Macon. O conceito de Southern Nights (em português, "noites sulistas") nasceu da necessidade por parte de Ernst Jorgensen em lançar todos os bons momentos de Elvis durante esses concertos realizados na primeira metade de 1975. O próprio Ernst justificou o lançamento de mais esse título inédito afirmando em entrevista: "Nosso objetivo no selo FTD é realmente lançar soundboards que cubram efetivamente todo o período de shows realizados por Elvis entre 1969 e 1977.

Nossa intenção é que todas as temporadas em Las Vegas e todas as principais excursões venham a ser representadas nesse selo com pelo menos um título. Em alguns casos realmente basta o lançamento de apenas um CD que traga registros desses períodos. Existem temporadas e excursões realizadas por Elvis em que ele pouco inovou em seu repertório básico, sem grandes novidades. Porém existem também períodos ricos em novas canções, versões fabulosas ou pequenos grandes momentos de Elvis que merecem ser lançados! Quando lançamos Dixieland Rocks percebemos que estávamos na presença de um momento muito fértil e próspero da carreira de Elvis e sentimos a necessidade de voltar à essa fase para realmente não deixar nada de importante para trás. Essas excursões, realizadas na primavera de 1975, nos chamam atenção por sua rica diversidade. Para se ter uma idéia o repertório básico utilizado por Elvis nesses concertos consistia em mais de 40 músicas! Mesmo tendo lançado "Dixieland Rocks" com o que consideramos o melhor, sentimos que muita coisa de ótima qualidade ficou realmente de fora. Daí nasceu a idéia de lançarmos Southern Nights." Seguindo essa linha de raciocínio, Ernst resolveu fazer uma verdadeira nova "coletânea" das duas primeiras excursões de Elvis em 1975. Retirando faixas de um ou outro concerto, Ernst foi completando o trabalho iniciado com "Dixieland Rocks" do mesmo selo FTD.

Embora seja uma interessante idéia de resgate, esse tipo de lançamento também traz certos problemas como a diversidade de qualidade sonora e técnica entre as versões, que embora unidas aqui, foram gravadas em momentos e ocasiões diferentes. Isso se torna bem mais nítido quando ouvimos a montanha russa da seleção musical de "Southern Nights". Em um mesmo CD ouvimos registros com alto nível sonoro, outros apenas razoáveis e finalmente aqueles bem abaixo da crítica. De qualquer forma não há ainda como lançar todos esses shows diferentes na íntegra. Além de ser comercialmente inviável os lançamentos se tornariam excessivamente repetidos, pois apesar de toda a diversidade de repertório nessa primavera de 1975, os concertos de maneira geral pouco se diferenciavam entre si. A idéia de uma coletânea de temporadas e excursões realmente parece ser o único caminho viável para um selo como o FTD. No vácuo desse tipo de lançamento é que se constrói todo o mundo paralelo dos Bootlegs, com vasto material lançado todos os anos, trazendo aí sim, muitas vezes, os concertos na íntegra. Mas essa é uma outra história que ainda iremos tratar em futuros artigos.

Pablo Aluísio. 

 

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Elvis Presley - Hillcrest Blues

O selo Madison lançou alguns dos CDs mais interessantes de Elvis dentro do mercado dos bootlegs. Esse aqui traz parte das sessões que Elvis realizou entre os dias 27 a 29 de março de 1972 no RCA Studio C em Hollywood, na Califórnia. Essa gravação ficou bem conhecida dos fãs porque foi a única, em toda a carreira do cantor, que foi filmada pelas câmeras da MGM que na ocasião estavam registrando cenas para o longa "Elvis On Tour". A intenção foi tentar captar as tentativas de Elvis em gravar seu novo single, que curiosamente deveria chegar nas lojas justamente durante o lançamento do filme. Em estúdio Elvis acabou gravando dois de seus maiores clássicos, "Burning Love" e "Always On My Mind". A primeira acabou se tornando um hit nas rádios, mostrando que Elvis ainda poderia ser um sucesso também fora do círculo de seus fãs mais devotados. A canção, um tipo de rock mais contemporâneo com nítidos toques da sonoridade de Nashville, caiu diretamente no gosto do público em geral. Já "Always On My Mind" só foi descoberta pelo grande público muitos anos após a morte de Elvis. Ela ficou numa injusta sombra enquanto Elvis viveu. Lançada como lado B do single "Separate Ways" não conseguiu fazer o menor sucesso durante a época de seu lançamento. É interessante notar também que na ocasião a música que deveria ser trabalhada pela RCA seria justamente "Separate Ways", algo que não deu muito certo pois o single não virou um campeão de vendas e nem se tornou tão marcante dentro da discografia do astro como um todo.

"Hillcrest Blues" tem poucas músicas, mas muitas faixas, mostrando as várias tentativas de Elvis em chegar nas versões definitivas, os conhecidos takes masters. Enquanto o grupo não se acerta o ouvinte também tem a oportunidade de ouvir Elvis conversando com o produtor, os demais músicos e o clima do ambiente onde ele estava. Esses registros são interessantes justamente por essa razão pois somos literalmente jogados para dentro do estúdio, como se também estivéssemos lá, compartilhando da companhia de Elvis e banda. Alguns takes que não foram aproveitados são praticamente perfeitos e só não foram utilizados por decisão de Elvis e o produtor Felton Jarvis que viram neles algum defeito ou algo que não os deixou plenamente satisfeitos. Também é interessante acompanhar como Elvis podia mudar a velocidade ou o estilo de interpretação em cada música, ora sendo mais sentimental, ora mais vibrante. Nos ensaios também podemos notar o clima de leve descontração por parte de todos, inclusive da máfia de Memphis que ficava ali por perto, tentando manter uma boa vibração sobre Elvis enquanto ele trabalhava. Um grande momento que para nossa sorte sobreviveu ao tempo. Não deixe de ouvir o CD clicando na janela abaixo. Boa audição.

Elvis Presley - Hillcrest Blues
01. Burning Love - take 1 (incomplete) / Here We Go Again (one liner)
02. Burning Love - take 2
03. Burning Love - take 3 / The Lord's Prayer (one liner)
04. Sweet Sweet Spirit (one liner)
05. For The Good Times (rehearsal)
06. For The Good Times - take 1 (incomplete)
07. For The Good Times (more rehearsal)
08. For The Good Times - take 2
09. For The Good Times - take 3 (false start)
10. For The Good Times - take 4
11. Anytime (one line) / dialogue
12. For The Good Times take 5
13. For The Good Times - take 6 (incomplete)
14. For The Good Times - take 7
15. Dialogue / El Paso (one liner)
16. Johnny B. Goode - take 1 (false start)
17. Johnny B. Goode - take 2 (false start)
18. Oh, How I Love Jesus (one liner)
19. Johnny B. Goode - take 3 / dialogue
20. A Big Hunk O' Love (incomplete) / dialogue
21. Always On My Mind (rehearsal)
22. Always On My Mind - take 1 (incomplete)
23. Always On My Mind - take 2
24. Separate Ways - take 1
25. Separate Ways - take 2

Pablo Aluísio. 

 

domingo, 12 de julho de 2015

Roy C. Bennett

Morreu no último dia 2 de julho, aos 97 anos, o compositor Roy C. Bennett. Ao lado de seu companheiro Sid Tepper escreveu dezenas de canções de sucesso para cantores e astros como Duke Ellington, Louis Armstrong, Ray Charles, Frank Sinatra, Elvis Presley e os Beatles. Em relação a Elvis foi uma parceria longa e produtiva. No total Bennett compôs 45 músicas para o Rei do Rock ao longo de sua carreira, entre elas grande parte das trilhas sonoras dos filmes “G.I. Blues” e "Blue Hawaii". Os dois álbuns venderam milhões de cópias ao redor do mundo. Outros sucessos vieram com canções como  “Puppet on a String", “New Orleans” e o dueto entre Elvis e a atriz Ann-Margret “The Lady Loves Me”. Já os Beatles gravaram a canção "Glad All Over" e a apresentaram no programa que estrelavam na rádio inglesa BBC durante a década de 1960.

Roy C. Bennett começou a escrever músicas ainda muito jovem, quando tinha apenas 11 anos de idade. Ele nasceu em uma família humilde do Brooklyn, em Nova Iorque, e desde muito jovem demonstrou sua paixão pela música. Depois que conheceu seu parceiro por décadas, Sid Tepper, na escola onde ambos estudavam, ele resolveu entrar no concorrido mercado fonográfico americano. Embora tentasse despontar como cantor de sucesso ele logo entendeu que tinha mais talento para compor para outros artistas já que sua voz não era definitivamente o seu forte. Apaixonado por canto de corais - chegou a escrever um livro sobre o assunto - ele passou então a trabalhar para grandes companhias da cidade, escrevendo temas para programas de TV, peças de teatro e finalmente filmes para o cinema.

O sucesso chegou quando ele escreveu hits para a carreira do cantor Eddie Arnold. Seu êxito chamou a atenção das estrelas do circuito country de Nashville e em meados dos anos 1950 ele começou uma intensa fase criativa escrevendo para artistas de sucesso da época como Sarah Vaughn, Guy Lombardo, Eartha Kitt, os Ink Spots, Louis Prima, Arthur Godfrey, Tommy Dorsey e Lawrence Welk. Durante uma convenção musical ele acabou conhecendo o Coronel Tom Parker, empresário de Elvis. "Gosto de suas músicas, filho. Aqui está meu cartão. Quero comprar algumas para Elvis" - teria lhe dito o velho astuto. Em pouco tempo Roy estava em negociações com o Coronel com o objetivo de vender suas músicas para as duas editoras do astro mais famoso do rock.

Curiosamente, apesar de ter escrito dezenas de músicas para Elvis por tantos anos, ele nunca chegou a conhecê-lo pessoalmente. Sobre isso disse certa vez: "Elvis era muito protegido pelo Coronel Parker. Nunca cheguei a apertar sua mão. Não o conheci, o que era estranho, pois estava durante todos aqueles anos ouvindo Elvis cantar as minhas melhores músicas. Ouvi dizer em Nashville que o Coronel não gostava que Elvis se socializasse com compositores com receios de que ele viesse a ser influenciado de alguma forma por nós. Uma pena, gostaria de agradecer a Elvis pelo que ele fez pelas minhas criações. Ele era ótimo!".

Pablo Aluísio. 

No Céu com Elvis!

No Céu com Elvis!
Em Graceland, mansão onde Elvis morou em Memphis (no Tennessee, não no Egito), hoje transformada numa lucrativa mistura de tumba faraônica, shopping center religioso e meca do rock – a decoração natalina permanece por mais alguns dias para que dezenas de milhares de fãs comemorem seu nascimento em 8 de janeiro de 1935. A expectativa para este ano é de que a maluquice se repita em uma escala maior. Até porque o culto ao rei está tomando proporções inacreditáveis. Em seu nome estão sendo fundadas seitas e uma nova versão do testamento circula com Elvis tal qual Jesus. A peregrinação não é só mental. Imitadores têm se submetido a cirurgias plásticas para se transformar em cópias do ídolo. O rei do rock and roll morreu em 16 de agosto de 1977. Mas este não foi o final da história – a morte de Elvis Aaron Presley, na verdade, representou mais um grande passo na sua gloriosa carreira. Como acontecia com os faraós, Elvis deixou de ser rei para tornar-se uma divindade, um santo adorado pelos fãs de todo o planeta – e com isso conseguir vender mais discos e bugigangas do que quando estava vivo. Quando morreu, seu patrimônio foi avaliado em US$ 7 milhões. Hoje, os negócios que usam seu nome em vão geram US$ 300 milhões por ano.

Elvis Presley nasceu numa família pobre na cidadezinha de Tupelo, Mississippi, o gêmeo sobrevivente de um parto difícil. A vida do filho único e precioso de Vernon e Gladys Presley foi o sonho americano. De um berço humilde ele se ergueu para se tornar o maior astro mundial da música pop. E agora ele está sendo transformado em um messias, sua vida sendo comparada à de Jesus Cristo. Elvis veio ao mundo numa gelada noite de inverno, em um barraco de madeira pouco maior do que um estábulo. Seu pai, que era meio miolo mole, contou que no instante do seu nascimento “uma forte luz azul brilhou sobre a casa”. E um livro intitulado The new, improved testament, que faz uma releitura do Novo Testamento, afirma que três bluesmen apareceram guiados por essa luz levando oferendas ao recém-nascido: guitarra, pasta de amendoim e anfetaminas. O próprio Elvis acreditava que seu súbito e avassalador sucesso só podia mesmo ser obra divina e, talvez pelo efeito das drogas que consumia, estava convencido de que era mesmo um messias, um daqueles seres privilegiados que surgem uma vez a cada milênio para iluminar uma civilização. Hoje seus devotos se autodenominam “presleyterianos” e estão abrindo igrejas em lugares “sagrados”, como Memphis e Las Vegas, e na Internet.

Não se pode saber entre os presleyterianos quem está enganando quem. A Primeira Igreja de Jesus Cristo Elvis foi fundada pelo artista Chris Ryell, que criou imagens de Presley no estilo católico clássico, sobrepondo o rosto do cantor ao de Jesus. A Primeira Igreja Presleyteriana de Elvis o Divino, em Denver (Colorado), proclama representar “a única religião que será importante no próximo milênio”. O negócio não surgiu como uma igreja de verdade, mas acabou ganhando vida própria e está sendo levada cada vez mais a sério – tanto que está reivindicando junto ao Congresso americano um feriado nacional em homenagem ao rei do rock. O dia do seu aniversário é a data proposta. “A falta de um feriado para Elvis é uma desgraça nacional”, lamenta o dr. Karl Edwards, co-fundador da igreja. “Um selo de correio não basta; os Estados Unidos devem reconhecer a poderosa obra de Elvis com um feriado oficial. Precisamos trazer o país de volta ao sagrado Espírito do Rock.” Aproveitando o embalo, o dr. Edwards ainda questiona o valor de outros feriados do calendário americano que homenageiam uma variedade de figuras históricas. “Quantos discos de ouro teve George Washington?”, provoca. Ele ainda espera contar com o apoio presidencial e argumenta: “Bill Clinton até se parece com o Elvis gordo dos últimos anos e tenho certeza de que ele é um presleyteriano devotado.”

Sacerdócio – Mas a divindade do rei está mais bem traduzida por um simbolismo que ultrapassa a noção de ícone da Idade Média, quando em vez de estátuas numa igreja temos como emblema da sua santidade uma legião de efígies vivas em seus imitadores. Essas esquisitas figuras nascidas do culto a Elvis, que só encontram paralelo nos emuladores de Charles Chaplin, não são simples imitadores, mas replicantes que rezam segundo o evangelho de São Xerox. Algumas dessas efígies humanas são tão dedicadas à identidade do ídolo que, como os transexuais, submeteram seus corpos à cirurgia plástica para realçar ainda mais a semelhança com Elvis. Para muitos fãs, esses imitadores de Elvis tornaram-se uma espécie de sumo sacerdotes da nova religião. David Moore, por exemplo. Ele imita Elvis em sua fase crepuscular e diz que faz isso por vocação: “Desde quando tinha cinco anos, sinto uma forte ligação com Elvis e quero que as pessoas saibam como aquele homem era bondoso.” Como outros fãs, Moore dedica-se a trabalhos de caridade em memória de Elvis, mas seu sacerdócio não chega a ser como o de alguns imitadores de Memphis e Las Vegas, que realizam casamentos em nome de Elvis.

O reverendo Tommy Foster é o responsável pela Primeira Igreja dos Imitadores de Elvis, em Memphis, com altares e santuários dedicados ao cantor. “No dia dos namorados casamos até 30 casais”, orgulha-se ele. Em Vegas, casamentos são celebrados por um Elvis balofo cantando Viva Las Vegas e com os casais trocando votos recitando as letras de suas canções românticas. Imagens, peregrinações e locais sagrados são comuns a quase todas as tradições religiosas. Mas as comparações não param por aí. O fã Robert Campbell nos fala das revelações de Elvis e suas visões apocalípticas. Ele garante que Elvis é Emanuel, “o único filho gerado que Deus prometeu nos enviar”, e acredita piamente que ele irá voltar para o juízo final, o que deve acontecer dentro de uns dez anos. Campbell compara as escrituras sagradas com a vida de Elvis. “Na Bíblia está escrito que quando Cristo foi posto em seu túmulo, foi envolto em uma mortalha. Elvis foi enterrado em uma mortalha de cobre. Cristo foi enterrado por seu amigo José e quem cuidou do funeral de Elvis foi seu amigo Joseph B. Samuel. Cristo ressuscitou três dias depois e o corpo de Elvis foi ‘sequestrado’ três dias depois de enterrado e desde então tem sido visto por muitas pessoas.”

Os fãs estão mitificando Elvis e tentando expressar em linguagem religiosa o que ele significava para suas vidas, exatamente como foi feito com Jesus Cristo e Maomé. Apesar de parecer muito estranho, essas pessoas estão convictas de haver encontrado o sagrado em Elvis Presley. E, por Elvis ser um ícone do século XX, ele continua vivo em seus filmes e em sua música, podendo ser ressuscitado por qualquer um apenas com o toque de um botão.

domingo, 5 de julho de 2015

Elvis Presley - Elvis Sings Flaming Star

Esse foi um disco vendido a preço promocional pelo selo RCA Camden lançado em outubro de 1968. Esse selo secundário da RCA lançava discos com, em média, a metade do preço de um álbum convencional. O mercado desse tipo de lançamento era o de classe média baixa, com vendas em pontos comerciais alternativos como lojas de conveniências, aeroportos, supermercados, bancas de jornal etc. Como era um produto barato geralmente trazia material já lançado ou que estava há anos em arquivo sem maior interesse da gravadora em promover um lançamento mais elaborado. Era uma maneira também de levantar um bom dinheiro sem gastar muito. Não havia nenhuma maior lógica na elaboração dos discos, geralmente sendo formados por canções avulsas, que não tinham ainda encontrado um lugar dentro da discografia de Elvis. No caso a RCA quis aproveitar restos de trilhas sonoras que tinham ficado para trás. Não significa que fossem canções ruins, nada disso. Era tudo apenas um reflexo da bagunça e falta de organização que imperava em algumas gravações realizadas por Presley na década de 1960. Veja o caso das faixas "Yellow Rose Of Texas / The Eyes Of Texas" e "Do The Vega". Duas que deveriam ter sido lançadas na trilha sonora do filme "Viva Las Vegas". Como o álbum desse filme nunca foi lançado (não me pergunte o porquê, já que ninguém sabe como isso foi acontecer) elas ficaram perdidas por anos e anos. Para que não fossem completamente desperdiçadas resolveu-se colocar tudo nesse título, sem muito critério visível para isso. Outro fato que chama a atenção é o pequeno número de músicas e a curta duração do disco. São apenas nove faixas (quando o mínimo da época eram dez!) e apenas 20 minutos de duração. Já que era baratinho, então que não se gastasse muito em sua elaboração. Absurdo? Talvez. São regras de mercado apenas.

O vinil original desse álbum hoje alcança um bom preço no mercado de colecionadores, principalmente nos Estados Unidos e Europa, onde ele não foi sequer lançado em vários países. Como não vendeu muitas cópias acabou virando um item raro, de difícil acesso. O curioso é que a falta de cuidado no lançamento do disco acabou indiretamente contribuindo para essa valorização. A direção de arte é interessante, com Elvis usando uma roupa de faroeste de seu filme "Flaming Star", outra película que teve péssima organização dentro da discografia do cantor. Na verdade duas empresas que estavam patrocinando o programa de Elvis na NBC investiram como forma de promoção no álbum. A primeira foi a própria NBC, canal de TV onde o programa seria exibido. A outra foi a marca de máquinas de costura Singer, que havia investido na produção com direito a ter seus comerciais vinculados no espaço publicitário durante a exibição da volta de Elvis aos palcos. Os executivos dessas empresas entraram em contato com a RCA e chegaram na conclusão que um novo álbum no mercado iria esquentar e reacender o interesse em Elvis, preparando o terreno para a exibição do especial. Foi uma ideia que deu certo apenas em termos, já que não houve muita repercussão. Algumas poucas resenhas pequenas nas publicações especializadas e vendas modestas não era bem o que todos esperavam. De uma maneira ou outra acabou fazendo parte da discografia oficial de Elvis Presley e por isso merece a menção. No próximo texto irei tecer algumas informações adicionais sobre cada canção, até lá!

Elvis Sings Flaming Star (1968)
Flaming Star
Wonderful World
Night Life
All I Needed Was The Rain
Too Much Monkey Business
Yellow Rose Of Texas / The Eyes Of Texas
She's A Machine
Do The Vega
Tiger Man

Pablo Aluísio.


domingo, 28 de junho de 2015

Elvis Presley - Elvis Gold Records Vol. 4 - Parte 4

A Mess Of Blues (Doc Pomus / Mort Shuman) - Uma grande canção, gravada nas maravilhosas sessões do retorno de Elvis em Nashville quando ele terminou seu serviço militar na Alemanha em 1960. Foi inicialmente lançada como lado B do single campeão de vendas "It's Now or Never", um dos mais vendidos de sua discografia. O que mais me impressiona nessa fase é que Elvis conseguiu unir grande qualidade técnica com uma diversidade musical poucas vezes superada em sua carreira. É até relativamente fácil compreender isso. A volta de Elvis era ansiosamente aguardada pelo mercado mundial. Durante sua ausência o próprio rock entrou em decadência. Assim ele foi literalmente colocado na posição de salvador do ritmo musical que tanto ajudou a popularizar na década anterior. Elvis porém não estava muito preocupado com isso, para ele o importante mesmo era voltar a fazer grandes discos, gravar excelentes músicas, mesmo que essas fossem de ritmos musicais variados. Definitivamente ele não queria ficar limitado apenas a um nicho do mercado fonográfico. Pelo menos nesse primeiro momento ele realmente atingiu seus objetivos. "A Mess Of Blues", gravada no dia 21 de março de 1961, na mesma noite em que ele também gravou outros clássicos de seu repertório como "Stuck on You", "Fame and Fortune" e "It Feels So Right", era definitivamente uma prova de sua versatilidade e talento. Desfilando por um blues muito bem escrito, Elvis provava que não era apenas o Rei do Rock como todos diziam, mas sim um cantor versátil que poderia se sair bem em praticamente todos os ritmos musicais. Um verdadeiro Rei dos microfones, independentemente do tipo de repertório que lhe era disponibilizado na época.

Ask Me (Domenico Modugno / Florence Kaye / Bill Giant / Bernie Baum) - Como eu já tive oportunidade de falar antes nunca gostei de "Ask Me". Na verdade sempre critiquei o fato da música ter sido título de um single de Elvis Presley bem no auge da Beatlemania. Lançada quase sem promoção com "Ain't That Loving You Baby" no lado B o disquinho não fez muito pela carreira do cantor na época. Na verdade pode ser visto até mesmo como um produto de publicidade de outro disco, o do álbum da trilha sonora de "Roustabout" ("Carrossel de Emoções" no Brasil). Isso é facilmente constatado pela própria capa do single, com uma foto do filme e uma grande chamada promocional onde se lê "Coming Soon! Roustabout LP Album". Tudo o que a RCA Victor e o Coronel fizeram foi mesmo resgatar duas músicas que estavam há bastante tempo arquivadas para lança-las assim mesmo, sem muito esforço, na tentativa de divulgar o disco do filme, esse sim uma aposta verdadeira da gravadora. Curiosamente a trilha sonora vendeu realmente muito bem, chegando ao primeiro posto das paradas e essa repercussão comercial certamente também deu um pequeno impulso no compacto pois os americanos acabaram fazendo uma dobradinha, levando o LP e o compacto que estava à venda nas lojas na mesma ocasião. Já em termos musicais a canção é realmente fraca, uma melodia com arranjo excessivo que nunca parece ir para lugar nenhum. 

Ain't That Loving You Baby (Clyde Otis / Ivory Joe Hunter) - Essa música foi gravada em 1958, pouco antes de Elvis ir embora para a Alemanha onde cumpriria seu serviço militar. É interessante notar que enquanto esteve servindo o exército a RCA Victor negou que houvesse gravações deixadas por Elvis antes dele ir para a Europa. Eles informavam aos fãs que Elvis não havia deixado nada para trás e que tudo já havia sido definitivamente lançado como single enquanto ele estava fora. Era mentira. "Ain't That Loving You Baby" ao contrário de outras faixas dessas sessões nunca fora lançada! A razão permanece obscura até hoje. Para muitos especialistas a música foi considerada mal gravada, não finalizada. O produtor Steve Sholes nutria esperanças que Elvis a resgataria quando voltasse, mas isso definitivamente nunca aconteceu. Uma versão mais rápida, com pequenas falhas, é bem superior, mas também foi arquivada e deixada de lado. Seis anos depois de sua gravação finalmente a RCA resolveu lhe dar uma chance. Sem material inédito do cantor resolveu jogar a canção como lado B do single "Ask Me". Não fez sucesso e nem causou muito alvoroço. Aliás é até complicado de justificar sua inclusão nesse disco já que a canção não pode ser considerada um enorme sucesso de sua carreira.

Just Tell Her Jim Said Hello (Jerry Leiber / Mike Stoller) - Muitos implicam com o arranjo dessa música. Consideram bobinha demais. Discordo. Nem sempre é necessário se revolucionar o mundo da música já que muitas vezes tudo o que você está querendo mesmo é ouvir uma sonoridade bem despretensiosa e agradável. Se esse for seu foco pode ficar tranquilo pois a faixa vai bem mesmo por esse caminho. Além disso vamos convir que a música foi assinada pela melhor dupla de compositores da carreira de Elvis Presley, Jerry Leiber e Mike Stoller. Eles criaram alguns dos maiores sucessos de Elvis, mas sempre tiveram um relacionamento conturbado com o Coronel Parker. A questão da discórdia geralmente envolvia dinheiro, como era de se esperar. Eles queriam mais pelas novas composições pois quando acertavam, Elvis vendia milhões de cópias. O Coronel, por outro lado, queria pagar o mesmo que eles recebiam na década de 50. Assim, com o tempo, já desapontados, eles passaram a enviar material já não tão maravilhoso como antes para Elvis gravar. Essa composição, por exemplo, não foi considerada uma obra prima e nem uma excelente composição pelos críticos da época. Isso de certa maneira irritou Tom Parker e com o tempo a parceria foi sendo desfeita aos poucos. Tudo fruto de uma desavença contratual entre as partes. Uma pena porque no final os grandes perdedores foram realmente Elvis e seus fãs.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Elvis Presley - Os Melhores Singles dos Anos 50

1. Heartbreak Hotel / I Was The One
Sem esse single você provavelmente nunca teria ouvido falar em Elvis Presley. Recém contratado pela poderosa gravadora RCA Victor foi a prova de fogo para o jovem cantor. Caso ele não vendesse o esperado muito provavelmente jamais teria tido o apoio da multinacional e sumiria pelas sombras dos tempos. É muito curioso que esse single tenha feito sucesso. Era uma música sombria, triste, com tom pessimista ao extremo. É de se admirar que os jovens Teddy Boys com cabelos cheios de brilhantina e chiclete na boca tenham captado a essência da música principal. Uma canção depressiva que foi inspirada em um caso de suicídio real! Um dos mais improváveis rocks da história.

2. Don't Be Cruel / Hound Dog
Durante muitos anos foi o single mais vendido da história. Dois enormes sucessos que concretizaram definitivamente o som e a imagem desse roqueiro diferente, com cara de baby face e letras maliciosas e cortantes. Olhando para trás temos dois momentos interessantes. Esqueça o lado puramente comercial. "Don't Be Cruel" não se destaca por sua letra, até mesmo pueril e na média do que era ouvido nas rádios da época. O que chama a atenção é sua sensualidade camuflada, moralmente ofensiva para alguns - tempos moralistas aqueles! Do outro lado o rock incendiário "Hound Dog" que é pura negritude. Composta por brancos judeus para uma cantora negra, "Hound Dog" é uma mistura incrível que tinha tudo para dar errado, mas deu certo! Elvis mandando seu ex-homem pastar! (achou estranho a frase? Pois é isso mesmo, a letra foi composta para ser cantada por uma cantora black e não um cantor white...).

3. Good Rockin Tonight / If I Don't Care if the Sun Don't Shine
Elvis gravou poucas faixas no estúdio fundo de quintal da Sun Records. Esse aqui é o seu melhor trabalho. "Good Rockin Tonight" foi até mesmo mais importante do que "That´s All Right (Mama)" em sua carreira jovem, isso porque Elvis finalmente colocou um pé a mais dentro do novo gênero musical que nascia, o Rock ´n´Roll, uma mistureba incrível de sons feito e cantado por cretinos adolescentes sem muita cultura musical (segundo o próprio mobster Frank Sinatra e toda a sua falta de bom senso e sensibilidade para com colegas da profissão). De qualquer maneira é a primeira gravação do Rei do Rock que é genuinamente um Rock, pedigree puro! Para muitos foi inclusive o primeiro rock da história - Será mesmo? Joguem os dados...

4. All Shook Up / That's When Your Heartaches Begin
Tom Parker, o empresário de Elvis e seu mentor, era seguramente um cretino e um patife, mas sabia como poucos reconhecer um grande produto quando tinha em mãos. Quando recebeu o novo 45RPM do pupilo e o colocou para tocar em seu escritório de Nashville o velho trambiqueiro deu pulos de alegria e soltou uma frase memorável, dando baforadas em seu fedido charuto: "Eu vou ganhar um milhão de dólares com essa gravação". O pior de tudo é que ele ganhou mesmo, passando mais uma vez a perna em Elvis pois embolsou a grana toda, sem muito pudor. Segundo dados revelados anos depois em auditoria Elvis não ganhou um centavo com esse compacto, uma demonstração de como ele era no fundo um inocente no mundo dos negócios. Parker, o porco, agradecia...

5. One Night / I Got Stung
Já com um pé dentro da botina do exército americano a RCA Victor soltou no mercado o novo single de Elvis Presley, o mocinho patriótico. O divertido é que o som foi considerado pornográfico na época. Elvis, todo saliente, convidava sua garota para passar a noite com ele, provavelmente em algum motel de quinta categoria, à beira da estrada. Coisa de delinquente cafajeste e muito longe da imagem de bom mocinho que Tom Parker, o escroto-mor, queria lhe impor! Foi um dos últimos suspiros de sua fase "James Dean de guitarra" porque logo depois Elvis seria devidamente embrulhado para consumo da chatíssima família modelo branca da América. Nunca mais ele pediria por uma noite de pecado com sua queridinha, passando a cantar hinos militares e louvores à bandeirona Stars and Stripes, que pena!

Erick Steve.


domingo, 21 de junho de 2015

FTD Elvis Now

FTD Elvis Now
Segue sendo um dos mais queridos discos de Elvis Presley no Brasil. A razão não é tão complicada de entender. O álbum foi muito bem sucedido comercialmente em nosso país por causa do sucesso da faixa "Sylvia", além da presença de outro hit, "Hey Jude" dos Beatles. Como artista de alcance internacional isso era até mesmo de se esperar. Alguns títulos acabam fazendo bem mais sucesso em certos países do que em outros e não existe como entender completamente o gosto de cada povo, de cada nação. Por que "Sylvia" fez tanto sucesso no Brasil enquanto era completamente ignorada nos Estados Unidos? Esse tipo de pergunta simplesmente não tem uma resposta definitiva. Outro ponto que chama a atenção vem do fato de que, pela primeira vez em muitos anos, a filial da RCA no Brasil realmente se empenhou mesmo em divulgar um disco de Elvis nas rádios. Discos promocionais foram enviados para os principais radialistas e esse trabalho acabou gerando bons frutos. A divulgação foi mesmo o grande diferencial. De repente você tinha a oportunidade ouvir "Sylvia" em várias estações, algumas vezes inclusive ao mesmo tempo. Fazia muito tempo que isso não acontecia com uma gravação de Elvis Presley em nosso país. Pois bem, deixando de lado esse aspecto verde e amarelo desse disco tão apreciado pelos brasileiros vamos tecer breves comentários sobre essa edição especial dupla, com farto material de estúdio recuperado pelo produtor Ernst Jorgensen.

São dois CDs. Como é tradicão nos lançamentos do selo FTD o primeiro abre com as versões oficiais que estavam presentes no disco original de 1972. Todas apresentam uma sensível melhora em sua qualidade sonora pois foram trabalhadas com as modernas tecnologias de recuperação de áudio. Depois da faixa final do disco, a curiosa "I Was Born About Ten Thousand Years Ago", Ernst resolveu rechear o pacote com outras versões oficiais da mesma época e das mesmas sessões. Particularmente não gosto desse tipo de mistura, em minha opinião essa edição deveria se limitar exclusivamente em cima das canções do disco "Elvis Now" e nada mais. Misturar faixas, mesmo que sejam das mesmas sessões, me soa desnecessário e desconfortável. Apenas o ponto de vista comercial, para atrair mais a atenção do consumidor casual, justifica esse tipo de mix. Pois bem, depois da versão inédita de "Don't Think Twice, It's All Right" começa finalmente a segunda parte do CD e a que mais interessa aos colecionadores, aquela formada por takes alternativos e outtakes, ou seja, sobras que não foram aproveitadas na época, mostrando o processo de criação de Elvis dentro dos estúdios. Entre três takes realmente inéditos de "Help Me Make It Through The Night" e "Fools Rush In" aparece uma jam de aquecimento com Elvis mandando ver na bela "Lady Madonna" dos Beatles, mostrando que o cantor realmente apreciava o som da banda de Liverpool. Confesso que o CD 2 me deixou levemente decepcionado. Não existem versões alternativas de grandes canções como "We Can Make The Morning" e "Sylvia". Esqueceram justamente do grande hit que seria de especial interesse para nós, brasileiros. Vi pessoas reclamando da ausência também de "Hey Jude", mas a verdade é que a própria gravação é um registro praticamente informal por parte de Elvis que foi aproveitado pelo produtor Felton Jarvis no lançamento original. Então é isso. Não chega a ser o lançamento definitivo em termos de "Elvis Now", mas é um bom pacote, apesar dos pesares.

Elvis Presley - FTD Elvis Now
CD-1: Original release and outtakes
Help Me Make It Through The Night
Miracle Of The Rosary
Hey Jude
Put Your Hand In The Hand
Until It's Time For You To Go
We Can Make The Morning
Early Morning Rain
Sylvia
Fools Rush In
I Was Born About Ten Thousand Years Ago
I'm Leavin'
It's Only Love
The First Time Ever I Saw Your Face
Don't Think Twice, It's All Right (unedited master)
Help Me Make It Through The Night (Takes 8, 9, 10)
Fools Rush In (Takes 11, 12, 14)
Lady Madonna (jam)

CD-2: Outtakes
Help Me Make It Through The Night (Takes 1, 2, 3)
Early Mornin' Rain (Takes 1, 2, 9)
Fools Rush In (Takes 5, 6)
Until It's Time For You To Go (fs, Take 5)
I'm Leavin' (Take 1)
It's Only Love (Takes 1, 2, 3, 4)
I Shall Be Released (jam)
It's Only Love (Takes 6, 7)
Help Me Make It Through The Night (Takes 6, 7)
Fools Rush In (Takes 8, 9)
Put Your Hand In The Hand (Take 1)
It's Only Love (Take 8, 9)
Miracle Of The Rosary (Take 1)
Until It's Time For You To Go (Takes 6, 7)
Fools Rush In (Take 10)
Early Morning Rain (Take 11)
Help Me Make It Through The Night (Takes 14, 15)
I'm Leavin' (Takes 2, 3)

Pablo Aluísio.


sábado, 13 de junho de 2015

Elvis Presley - Elvis Gold Records Vol. 4 - Parte 3

Please Don't Drag That String Around (Baum / Giant / Kaye) - Em sua fase mais pop Elvis Presley realmente gravou algumas faixas adoráveis. Não estou aqui defendendo essa canção como uma grande obra de arte, nada disso, apenas dizendo que essa é uma daquelas músicas que nos deixam mais leves, felizes, simplesmente por ouvi-la. Tem um excelente balanço e uma melodia que imediatamente cria uma cumplicidade com o ouvinte. Muitos poderiam dizer que é demasiadamente inofensiva e sem pretensão, bom, isso nem sempre é um ponto negativo, muito pelo contrário, dependendo da intenção de cada composição pode ser um grande acerto. Essa é outra gravação proveniente das sessões do "The Lost Album", registrada em maio de 1963. Nessa noite, devidamente inspirado no RCA Studio B, em Nashville, Elvis conseguiu finalizar quatro faixas. Entre um gole e outro de Pepsi (seu refrigerante preferido) ele foi fazendo seu trabalho. As sessões começaram com a boa "Echoes of Love" (que seria usada como bonus songs na trilha sonora de "Kissin Cousins"); depois veio o grande hit da sessão "Devil in Disguise" (lançado como single de grande sucesso) e finalmente "Never Ending" (outra boa faixa que seria jogada no vazio pelos executivos da RCA Victor). "Please Don't Drag That String Around" foi a segunda música a ser gravada nessa noite. Elvis adorou sua intensa alegria e levou apenas seis takes para finaliza-la. Um belo trabalho de vocalização e entrosamento. Pura alegria e diversão.

Indescribably Blue (Darrell Glenn) - Balada lançada em 1967 como single com "Fools Fall in Love" no lado B. Essa música já é de uma fase em que Elvis começava a mudar sua musicalidade. Ele ia aos poucos deixando o tipo de trabalho que vinha fazendo desde 1960, quando retornou aos Estados Unidos depois de ter cumprido o serviço militar na Alemanha, para ir por novos rumos, novos caminhos, novas experiências. Talvez o grande responsável por esse novo tipo de som tenha sido o produtor Felton Jarvis. Depois da saída de Steve Sholes e Chet Atkins da produção dos discos de Elvis, Jarvis se mostrou o homem ideal para trabalhar com o cantor nos estúdios. Paciente, bom ouvinte e com sensibilidade para entender o lado emocional de Presley, Jarvis começou uma excelente parceria com o Rei do Rock. Um exemplo perfeito de sua boa simbiose com Elvis veio justamente de sessões como essa. Ao invés da correria das gravações anteriores, que deixavam Elvis nervoso e estressado, Felton Jarvis propôs mais calma e tranquilidade, trabalhando melhor em cada música. Assim em junho de 1966 lá estava Elvis e Felton juntos, pensando em arranjos para as belas baladas da noite. Nessa ocasião eles ainda gravariam a linda "I'll Remember You" (a versão de estúdio, a mesma música que Elvis consagraria ao vivo no álbum "Aloha From Hawaii") e "If Every Day Was Like Christmas" (a música natalina que viraria sucesso no Vietnã, sendo tocada nas noites de natal passadas fora de casa pelas tropas americanas, nas florestas daquele país tropical em chamas). Para muitas pessoas "Indescribably Blue" pode ser excessivamente triste e melancólica, mas para outros é mais um exemplo do tipo de bela música que Elvis e Jarvis podiam produzir juntos. Um momento memorável sob esse ponto de vista.

(You're The) Devil in Disguise (Otis Blackwell / Winfield Scott) - Um dos últimos grandes sucessos na voz de Elvis escrito por Otis Blackwell. O compositor negro tinha sido responsável por alguns dos maiores sucessos da carreira de Elvis Presley como "All Shook Up", "Don't Be Cruel" e "Fever". Nascido em uma família pobre de Nova Iorque, Blackwell soube como poucos criar hits nas paradas dos anos 1950. Além de brilhar ao lado de Elvis ele ainda escreveria um dos grandes hits da carreira de Jerry Lee Lewis, "Great Balls of Fire". Infelizmente depois de algum tempo ele começou a ter problemas com a RCA Victor e o Coronel Tom Parker. Tudo em razão de problemas financeiros e contratuais. Parker não queria pagar o que ele pedia por novas músicas; em contrapartida Otis aos poucos foi se afastando da carreira de Elvis. Para o Coronel o compositor não deveria entrar em atrito com Elvis, uma vez que havia sido ele que o tinha colocado no mapa da grande indústria fonográfica americana. As afirmações de Parker acabaram mexendo com os brios de Otis que resolveu por volta de 1964 não mais ceder canções a Elvis. A mágoa porém não apagou os grande êxitos comerciais dessa parceria. Assim "(You're The) Devil in Disguise" acabou sendo a despedida da dupla, algo realmente a se lamentar.

Lonely Man (Bennie Benjamin / Sol Marcus) - Música que fez parte das sessões de gravação da trilha sonora de "Wild in the Country". Uma faixa que sempre me recorda dos grandes faroestes do passado. O produtor Urban Thielmann escreveu um arranjo bonito que em minha opinião não envelheceu em nada e nem ficou datado. Essa canção não fez muito sucesso e passou praticamente despercebida até mesmo para os fãs de Elvis na época. Ela só entrou na seleção desse disco porque foi lado B do single "Surrender". Tirando isso não consigo achar uma boa justificativa para a faixa estar aqui. Em minha forma de entender é mais uma prova de como havia um verdadeiro deserto de sucessos na carreira de Presley naqueles tempos complicados. Se formos comparar com a seleção musical do primeiro disco, "Elvis Golden Records" de 1958, vamos perceber a grande diferença entre aquelas faixas (todas grandes sucessos) com as daqui, algumas sem nem razão de ser. Os bons tempos tinham realmente ficado para trás. 

Pablo Aluísio. 

sábado, 6 de junho de 2015

Elvis Presley - Elvis Gold Records Vol. 4 - Parte 2

Love Letters (Heyman / Young) - Muita gente boa ainda confunde essa versão com a mais conhecida, dos anos 1970, que inclusive deu origem ao nome de um álbum de Elvis. A versão aqui presente é outra, gravada em meados de 1966. Bem no meio de uma fase bem ruim e pouco inspirada em sua carreira, o produtor Felton Jarvis lutou para trazer maior qualidade técnica para suas gravações. Nada que lembrasse suas trilhas sonoras. Realmente basta ouvir a música para entender bem isso. A canção se apresenta com ótimo arranjo, com um piano melódico sempre presente, ao fundo. Para tornar a música ainda mais bonita Felton escreveu um arranjo vocal feminino (algo que era muito raro nas gravações de Elvis) para soar liricamente em segundo plano. O conjunto é mais do que agradável. Ficou muito bonita realmente. A original "Love Letters" nunca foi um sucesso, mas como a RCA Victor estava sem muitas opções e como a gravação ficou acima da expectativas resolveu-se colocá-la como faixa de abertura do álbum. Um cartão de apresentação com qualidade, acima de tudo.

Whitcraft (Bartholomew - King) - Outra versão que causa certa confusão por aí. Não se trata de uma versão de Elvis Presley para o hit "Witchcraft" de Frank Sinatra. Aquela era uma swing jazz, muito conhecida por sinal, um dos grandes sucessos de Sinatra em sua carreira, sempre presente em suas coletâneas mais populares. Essa é outra canção. Poderia qualificar como um pop nervosinho, com um ótimo solo de sax do mestre Boots Randolph (sem dúvida o melhor destaque da gravação, se sobressaindo ainda mais do que a boa vocalização de Mr. Presley). A faixa é bem curtinha, simples e direta. Não há espaço (e nem tempo) para maiores firulas. Produzida por Steve Sholes ela foi gravada em 1963, numa produtiva sessão com outras 14 canções. Fazia parte da ideia da RCA Victor em lançar um LP convencional de Elvis, sem músicas de filmes, que acabou indo por água abaixo. Desastrosamente as boas músicas gravadas nessa ocasião começaram a ser lançadas como bonus songs de trilhas, as deixando em um limbo injusto. Com o tempo foram praticamente esquecidas. Só muitos anos depois o disco saiu finalmente com o nome de "The Lost Album" (o álbum perdido), já na era do CD.

It Hurts Me (Byers - Daniels) - Outro caso curioso dentro da discografia de Elvis. A música foi originalmente gravada numa rápida sessão em janeiro de 1964, entra as gravações das trilhas sonoras de "Kissin Cousins" e "Roustabout". Sem saber direito o que fazer com a música a RCA Victor resolveu que era melhor arquivá-la por um tempo. Com o lançamento da trilha sonora de "Kissin Cousins" pensou-se em utilizá-la como bonus songs do disco, mas depois se descartou essa ideia. Ela assim foi renegada, sem muita razão ou lógica, como Lado B do single "Kissin' Cousins". Péssima decisão. A canção era muito boa, com arranjos do grande Chet Atkins (que inclusive a produziu) e deveria ter sido melhor trabalhada para fazer bonito nas paradas, batendo inclusive de frente com os singles dos Beatles que no auge da Beatlemania andavam dominando todas as paradas de sucesso pelo mundo afora. Mais um exemplo de que os executivos da gravadora de Elvis definitivamente não sabiam o que fazer com suas gravações.

What'd I Say (Ray Charles) - Gravada em 1964 como parte da trilha sonora de "Viva Las Vegas" a versão de Elvis para o clássico de Ray Charles tem admiradores e detratores na mesma proporção. Particularmente gosto da alegria contagiante que Elvis e sua banda conseguiram colocar na faixa. Certamente é bem mais pop que a gravação de Ray Charles e se distancia bastante de sua característica principal, a de ser uma canção com letra profana em uma base sonora típica de música gospel, mas isso em momento algum soa como um defeito ou um demérito. Pelo contrário, penso que Elvis sabia que a sua versão seria parte de um filme de Hollywood e que teria que ter por essa razão um melhor balanço para dar a devida agilidade na cena. Essa, por seu lado, também ficou muito divertida, animada e bem realizada. O diretor George Sidney sabia como poucos coreografar bem um número musical em seus filmes. Além disso some-se a isso a notável beleza e carisma da atriz Ann-Margret e você certamente terá o pacote completo em mãos. Não é algo para se reclamar, vamos convir.

Pablo Aluísio.