sábado, 20 de dezembro de 2014

Elvis Os Anos Finais - Parte 39

Olhando para trás Rick Stanley, como uma das últimas pessoas que viram Elvis com vida, tem sua própria teoria sobre os últimos momentos do cantor. Ele relembra: "Muitas vezes eu tinha visto Elvis fora de si quando ia ao banheiro, ficava sentado e caía. Eu tinha que levantá-lo quando aquilo acontecia. Muitas vezes. E esta é a minha teoria sobre a morte de Elvis. Veja, aquele tapete grosso amarfanhado. Grande, grosso. Naquela noite, quando ele caiu para frente, sendo tão pesado, e estando fora de si, não conseguiu levantar-se com suas próprias forças. E sufocou no tapete. Se voltasse lá eu o teria encontrado e salvo sua vida. Mas ele estava abusando muito das drogas. Eu penso que posso dizer que tinha comigo Demerol suficiente para topar Whitehaven (um subúrbio de Memphis) inteiro. Mas em vez de voltar eu fui para meu quarto e afundei. Daí em diante fiquei meio entorpecido. Para o meu padrasto, quando Elvis morreu, era o fim de nosso relacionamento. Bem depressa eu recebi um pedido para deixar a mansão. "Nós não precisamos mais de você!" foi o que Vernon disse. Ele avisou que me daria o salário de duas semanas e que eu podia ir embora de uma vez. Alguém disse uma vez que as três palavras que ele mais ouviu no mundo civilizado eram Jesus, Elvis e Coca-cola. Hoje dou palestras para jovens que sofrem de problema de dependência química e lhes conto a história de Elvis. Quando você pára e pensa em usar toda a fama de Elvis para algo nesse sentido, bem aí está um final feliz. Eu penso que ele gostaria disso".

Voltemos no tempo. Manhã de 16 de agosto de 1977. O sol do amanhecer já está alto, a luz solar entra pela pequena fresta da janela do banheiro e desliza suavemente sobre um corpo que jaz no chão do pequeno ambiente. O corpo está retorcido, em posição fetal. O rosto está congestionado de sangue, a expressão é de intensa dor, com o semblante registrando o exato momento em que seu organismo sofreu o ataque fulminante, o instante final congelado no tempo em sua hora fatídica. Não há reação aparente, não há som, nada se ouve, apenas a doce e suave vibração do último suspiro. O último grito abafado de socorro não foi ouvido. Tragicamente e ironicamente o ambiente luxuoso em que aquele homem sempre viveu abafou o barulho de sua queda ao sofrer o colapso cardíaco. Nenhum som fora do normal foi notado, ninguém percebeu, ninguém saiu de seus afazeres cotidianos para lhe socorrer, sua queda final passou despercebida. Assim como muitos de sua idade o sujeito caído no chão encontrou sua hora final ao sofrer um ataque do coração fulminante, que sequer lhe deu a chance de lutar por sua vida. Em questão de segundos ele perdeu a consciência e foi ao chão, retorcido de dor. A língua trincada entre os dentes é apenas a manifestação física de um colapso do qual quase nunca se volta. O último segundo de vida lhe fugiu de forma fugaz, efêmera. O Tempo deixa de existir e não tem mais sentido. Era o fim.

Tudo seria banal se aquele homem que acabara de sofrer um ataque não fosse uma das pessoas mais famosas do século XX: Elvis Presley. Sim, aquele corpo que lutava pela sobrevivência e que agora sentia o último sopro de vida lhe escapar em questão de segundos era o do outrora afamado Rei do Rock. O silêncio reinante só foi quebrado quando a namorada de Elvis na ocasião, Ginger Alden, bateu levemente na porta do banheiro. "Elvis?" - perguntou ela. Sem resposta abriu a porta e se deparou com a cena adversa. Em um primeiro momento ela não entrou em pânico. Apesar de Elvis estar estendido no chão Ginger teve uma reação típica de quem já havia passado por essa situação antes. Para aqueles que conviveram com Elvis em seus anos finais, o fato dele perder a consciência em razão do uso abusivo de remédios já não significava nenhuma novidade. Apesar de ser uma situação aflitiva e fora do normal, para Elvis em sua última etapa de dependência química, isso havia virado uma macabra rotina. "Será que bateu com a cabeça?" - perguntou a si mesma Ginger enquanto tentava virar o corpo inerte do cantor. Quando finalmente ela conseguiu visualizar seu rosto congestionado, roxo, sem nenhuma reação ou sinal de vida, percebeu finalmente a gravidade da situação e saiu em busca de socorro.

A partir daí a confusão foi generalizada como bem relembra Joe Esposito: "Estava em Graceland naquele dia 16 de agosto de 1977. Me lembro perfeitamente quando Ginger nos chamou no andar de cima. Eu entrei imediatamente na suíte e encontrei Ginger já bastante abalada. Entrei no banheiro e me deparei com Elvis no chão, caído. A posição sugeria que ele havia perdido a consciência e caíra pra frente de onde estava sentado. Quando o toquei senti um frio percorrer minha espinha. Percebi que não havia mais o que fazer, a impressão que tive foi que Elvis já estava morto por um bom tempo. Mesmo assim resolvi agir imediatamente. A primeira providência foi chamar uma ambulância a Graceland, urgentemente!". Quando a ligação chegou ao conhecimento dos paramédicos eles pensaram seriamente que Vernon, o pai de Elvis, sofrera mais um ataque cardíaco.

Um dos motoristas ao saber que se tratava de Graceland comentou com seu amigo ao lado: "Deve ser o pai de Elvis!". Enquanto o socorro médico não chegava em Graceland Esposito tentava em vão prestar os primeiros socorros em Elvis, como ele mesmo relembra: "Em poucos segundos as pessoas começaram a chegar no quarto de Elvis. Seu pai veio correndo, subindo as escadas e chegou ao quarto ofegante. 'Onde está meu filho?' - gritou o pobre Vernon. Nesse momento pedi para que dessem espaço pois estava tentando fazer algo por Elvis. Vi que Lisa entrava no quarto e pedi que Ginger a tirasse de lá imediatamente, para que assim ela não visse seu pai estendido no chão de seu banheiro. A confusão era muito grande, pessoas indo e vindo, tive que tirar muitos de dentro do local, precisava ajudar Elvis. Eu tentei dar alguns CPR no coração de Elvis, porque eu não conseguia abrir sua boca e fazer um procedimento de respiração boca a boca, pois ela estava fechada e congelada. Então resolvi girar o corpo de Elvis, o vesti e continuei trabalhando nele até a ambulância chegar. Apesar de lutar muito logo percebi que era tarde demais."

Pablo Aluísio e Erick Steve.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Elvis Os Anos Finais - Parte 38

A noite em que Elvis, abatido e deprimido, leu as últimas páginas de sua biografia não autorizada ficaram cristalizadas para a história através da memória de Rick Stanley, que compartilhou esses tensos momentos de agonia e profunda tristeza ao lado de Elvis. Foi justamente nesse momento crucial, na noite do dia 15 para 16 de agosto de 1977, que seu meio irmão Rick Stanley (filho de Dee, segunda esposa de Vernon Presley) entrou nos aposentos do cantor e o encontrou pensativo e complementado, absorvido em seus próprios pensamentos, com o olhar vago, impreciso, disperso. Segundo as memórias de Rick, Elvis pediu que ele se sentasse ao seu lado.

Com o famigerado livro em mãos Elvis fez duas perguntas cruciais, como bem relembra Rick: "Na última noite de sua vida, eu acabara de desligar o telefone. Falava com minha namorada, Robyn. Através dos anos ela me encorajava a largar as drogas, e, quando estava pendurado no telefone, ia dizer que alguma coisa precisava acontecer para trazer minha vida de volta. Subi as escadas e sentei na cama com Elvis. Ele puxou os óculos sobre o nariz - tinha aquela espécie de olhar que parece cortado ao meio - e encostou o canto dos óculos na boca. Realmente pareceu frio. Suas costeletas estavam ficando grisalhas. Estava muito maduro. Parecia estar muito, muito cansado, não fisicamente, mas emocionalmente gasto. Enquanto sentávamos e conversávamos um pouco, ele me entregou um pedaço de papel, uma parte do livro escrito por seus ex guarda costas. Falava do uso de drogas. Fez duas perguntas. Disse: "O que Lisa Marie vai pensar disso?" e eu não tive muito o que responder. Apenas disse: "Bem, ela é sua filha. Estou certo que ela te ama"

Então ele perguntou sobre os fãs. "O Que os fãs vão pensar disso tudo?", e mesmo sem pensar eu fui capaz de dizer: "Bem, eles te amam incondicionalmente". Conversamos um pouco mais e eu lhe falei sobre a conversa com Robyn. Como eu estava para me livrar das drogas, você sabe, endireitando minha vida, esse tipo de coisa. Devo dizer que ele iria querer sua pílulas, seus remédios para dormir, bem depressa. Uso a palavra remédio porque se você disser a palavra drogas as pessoas pensam em crack e heroína, que nós nunca usamos. Eu trouxe um embrulho de remédios, que estavam exatamente no caminho (para o quarto de dormir) no armário. Havia embrulhos que Elvis chamava de "pacotes de ataque", porque era o que ele queria fazer, atacar-se, nocautear-se. Nós estamos sentados lá e eu falando e contando a ele sobre Robyn e os conselhos que ela vinha me dando através dos anos. Elvis a tinha encontrado e gostado dela, pois era uma criança adorável.

"Eu penso realmente que ela está lhe dando um bom conselho, Rick", ele me disse. "Penso que ela é uma pessoa que realmente se importa". Ele falou muito tempo. Uma viagem começaria no dia seguinte e ele não estava exatamente excitado sobre isso. Quando eu ia embora, Elvis me disse: "Não quero ser aborrecido, não quero ser perturbado". Para qualquer um que trabalhasse com Elvis, você sabia que isso significava uma ou duas coisas. Queria passar algum tempo com a namorada Ginger, ou queria dormir. Mas ele me fez saber que não queria ser perturbado, e com Elvis aquilo era um firme comando. Sem maiores perguntas resolvi me retirar de seu quarto, fechei a porta e fui até os fundos de Graceland e desliguei completamente. Mal sabia que em poucas horas iria acontecer algo que mudaria minha vida para sempre".

Pablo Aluísio e Erick Steve.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Elvis Os Anos Finais - Parte 37

Durante muito tempo Elvis pensou nas possibilidades do que iria fazer após a publicação do livro bomba de Red West. As dúvidas eram muitas. Ele deveria fazer uma declaração oficial desmentindo tudo? Mas isso não iria trazer uma tremenda publicidade para o lançamento? Ignorar tudo e seguir em frente, como se nada tivesse acontecido? Processar todos eles e correr o sério risco de transformar tudo em um circo da mídia no tribunal, com sua vida sendo ainda mais exposta perante seu público e seus fãs? Mas afinal...que decisão ele deveria tomar? Nessa altura de sua vida essa era apenas mais uma péssima notícia que Elvis tinha que enfrentar.

Em seus últimos meses de vida o cantor podia contar nos dedos de uma única mão as coisas que ainda lhe traziam algo positivo. Eram cada vez mais raros os momentos de verdadeira felicidade para ele durante sua caminhada final. Um sorriso sincero, por exemplo, dado em um momento de extrema descontração e alegria, era algo tão raro para o envelhecido astro nessa época que certamente nem ao menos ele se lembrava de algo parecido assim acontecer em sua memória recente. Em aspectos pessoais sua única filha, Lisa Marie, ainda conseguia proporcionar momentos de amenidades e real contentamento.

Mas até nesses pequenos momentos Elvis sentia-se culpado, a ponto de um de seus homens de confiança o flagrar em prantos, sozinho, lamentando consigo mesmo o fato de não ter sido um bom pai para sua família. Elvis jamais conseguiu superar o choque do fim de seu casamento e esse pesadelo só aumentou de proporção ao longo dos anos que se passaram. No aspecto puramente profissional Elvis também ia, aos poucos, perdendo o prazer de se apresentar ao vivo. Durante anos esse contato direto com seus fãs havia proporcionado a ele muitos e muitos momentos realmente especiais. Como bem afirmou Priscilla Presley o amor de seus fãs e o carinho despejado por Elvis durante seus longos anos na estrada, tinha se transformado no único grande momento de felicidade do artista em seus últimos meses de vida. A veneração e a fidelidade de seus mais estimados fãs clubes havia se concretizado numa verdadeira muleta emocional para o Rei do Rock. Porém até nesses aspectos Elvis vinha sentindo dificuldades. Se apresentar à altura do amor e do carinho de seus admiradores lhe era agora cada vez mais difícil. Elvis enfrentava diversas dificuldades decorrentes de seu estado físico e de sua vertiginosa queda de saúde.

Fazer jus à imagem que existia no subconsciente de todos era agora um desafio a se vencer em cada novo concerto e isso definitivamente não era fácil quando se sofria de tantos problemas pessoais, tanto físicos como, e principalmente, emocionais. Somando-se a tudo isso havia ainda a crítica, quase sempre implacável com o astro, sempre colocando em destaque cada mínimo erro ou cada pequeno descompasso surgido em suas turnês. Tudo isso, somado a seu constante estado depressivo, tornava a jornada muito mais penosa de se cumprir. Infelizmente Elvis não poderia parar, ele havia entrado numa engrenagem que iria sugar até o fim sua capacidade de trabalho. Envolvido em enormes dívidas, enrolado em problemas judiciais que lhe custavam muito em termos financeiros e em desgaste emocional, Elvis virou escravo de sua própria lenda.

Erick Steve e Pablo Aluísio.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Elvis Os Anos Finais - Parte 36

A única coisa que não contavam era o fato de que seus antigos "amigos", empregados ou seja lá o que fossem, iriam colocar a boca no trombone e contar todos os mais guardados segredos da vida pessoal de Elvis Presley! Aquela imagem impecável, de um bom pai de família, filho amoroso, cidadão cumpridor de seus deveres cívicos, um típico norte-americano acima do bem e do mal, seria maculada para sempre pelo teor altamente explosivo contido no livro "Elvis, O Que Aconteceu?" escrito pelos irmãos Sonny e Red West! Nada ficaria de pé após sua publicação! Bom cidadão? Elvis seria retratado como uma pessoa altamente manipulada que só serviu o exército por ordens diretas de seu tirânico empresário! Ele, Elvis, definitivamente não queria ir para o U.S. Army de jeito nenhum! Bom pai de família? Elvis seria retratado como um marido relapso, ausente, que traía sistematicamente sua esposa e que quando traído partiu, sem pensar duas vezes, para ameaças de morte contra sua ex-esposa e seu amante!

Imagem impecável? Os irmãos West iriam demolir a imagem de Elvis para sempre. Ele seria retratado como um viciado em drogas, paranóico e armado até os dentes. Uma pessoa que usava de sua fama e dinheiro para manipular as mulheres de sua vida, as tratando como meros objetos de domínio, sem valor algum! Um típico cidadão norte-americano acima do bem e do mal? Elvis teria anos depois sua imagem manchada pelos arquivos secretos do FBI que o retratavam como um reacionário de direita, que estava a favor da guerra do Vietnã e contra os movimentos pacifistas, que conspirava contra outros artistas, citando nominalmente ao próprio presidente Nixon os efeitos nocivos de pessoas como os Beatles e Jane Fonda! Quando Elvis soube que sua imagem seria tão atacada dessa forma entrou em desespero! Ele, que sempre zelou para manter uma imagem pública impecável, agora via ruir seu castelo de cartas pela publicação de um único livro! O Que fazer agora? Elvis tinha que virar o jogo e sair da defensiva de qualquer maneira. Logo lembrou do velho conselho de Tom Parker: "A melhor defesa é o ataque!". Ele tinha que começar a mandar no jogo novamente, voltar a dar as cartas urgentemente! Porém como ele faria isso agora? Teria tempo para uma reação?

Apesar de seus esforços o livro acabou sendo lançado. Elvis imediatamente providenciou uma cópia e ficou chocado com o teor do texto. E depois de pouco tempo o livro finalmente chegou em suas mãos. Ele se isolou. No canto mais reservado de seu quarto, Elvis, sentado em uma grande poltrona, passou lentamente seus dedos sobre as páginas daquele livro que prometia destruir sua imagem. Ele pareceu querer se esconder, fugir para algum lugar. Sua leitura se tornou penosa, sofrida. Seu semblante era de extrema preocupação. O espírito ficou visivelmente estarrecido e o corpo deixou transparecer esse estado de perplexidade em pequenos e mínimos detalhes: na testa franzida, no olhar vidrado, na pupila dilatada. Suas mãos foram virando todas as páginas, lentamente. O cantor não conseguia tirar seus olhos do texto e praticamente devorou cada capítulo de uma só vez. Sua fisionomia ficou abatida, pesada, sofrida, como alguém que carregava o peso do mundo em suas costas. Cada minuto pareceu uma eternidade e essa realmente não parece mais ter fim. Elvis nesse momento de extrema solidão e desespero terminou finalmente as últimas palavras do mais demolidor livro já escrito sobre ele: "Elvis, What Happened?".

Aquilo que mais temia e que acreditava piamente que não iria acontecer estava agora ali materializado em suas mãos. Sua vida privada exposta finalmente ao grande público de maneira cruel, explícita e nada lisonjeira. O Elvis Presley que emerge de suas letras era a antítese de tudo o que artista tentou construir ao longo de tantos anos de carreira. Sua tão intocável imagem perante o público agora era violentamente agredida. Ao final da leitura Elvis o colocou de lado e passou a refletir sobre o que deveria fazer dali em diante. O estrago realmente já estava feito, agora Elvis pensava numa forma de contornar toda essa delicada situação. Como combater a traição de seus antigos amigos e "guarda-costas", que em troca de dinheiro venderam ao primeiro interessado os maiores segredos de uma das pessoas mais famosas do mundo? Como combater a difamação que estava sendo feita a ele? Como contestar algo dessa magnitude?

Pablo Aluísio e Erick Steve.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Elvis Os Anos Finais - Parte 35

O jogo estava acabado? Será que Tom Parker, um dos maiores apostadores de Las Vegas, iria perder mais uma rodada? Logo ele que se considerava um excelente jogador? E Elvis? Estaria definitivamente morto artisticamente? Quem acompanhou toda a carreira deles não apostaria muito nisso. Se um rótulo lhes servia bem, esse era o de "sobreviventes". A morte da carreira de Elvis já havia sido anunciada várias vezes ao longo dos anos. Quando ele foi servir o exército em 1958, por exemplo, todos acreditavam que ele seria facilmente esquecido por seus fãs adolescentes. Que o Rock'n'Roll era apenas uma moda estúpida ouvida por jovens sem cérebro, que era apenas uma música selvagem que só servia para incentivar a delinqüência juvenil ou como decretou Sinatra o Rock seria apenas "a música de todo delinqüente com costeletas da face da terra!". Elvis não só voltou como demonstrou que ainda tinha várias cartas na manga. Comandado pelo Coronel Parker Elvis teve sua imagem limpa e devidamente empacotada para a típica família WASP norte-americana. Ele gravou discos excelentes como "Elvis is Back!" e "Something For Everybody" mostrando que não apenas continuava a ser um astro como também poderia ainda produzir material musical de excepcional qualidade artística.

E esse pacote até que serviu bem aos propósitos de Parker durante um bom tempo. Porém como tudo em excesso é prejudicial o "Elvis embalado, pasteurizado e plastificado para seu consumo familiar" começou a virar uma peça de museu rapidamente, totalmente dissociado do que estava acontecendo no mundo nos anos 60. Nada era mais absurdo do que um roqueiro posando de bom moço durante os anos da contra cultura sessentista. Os filmes eram limpos demais, infantis demais, bobinhos demais, e o pior, as musiquinhas eram ruins demais, de doer. De símbolo revolucionário Elvis passou para símbolo reacionário, uma mudança drástica demais. Quem iria ter como ídolo um cara que cantava para cachorros dentro de um helicóptero sobrevoando o Hawaii? Nenhum "bicho grilho" iria dar bola para tamanha caretice. Elvis ainda era um artista extremamente talentoso, porém o material que lhe era dado pelos estúdios de cinema para compor as trilhas sonoras de seus filmes começaram a perder gradativamente a qualidade e por volta de 1964 Elvis começou a gravar bobagens vergonhosas. Depois de passar dez anos em Hollywood estrelando os mais estúpidos filmes musicais já realizados, todos também concordavam que ele já era, que estava liquidado.

Mas Elvis renasceu em 1968 e 1969 e ganhou uma sobrevida naquela que para muitos foi sua fase mais inspirada e relevante. A nova "ressurreição" do astro durou até 1973. Seu pico aconteceu com o "Aloha From Hawaii", mas depois de sua exibição o cantor novamente estagnou. Voltou para Las Vegas e começou a sua velha rotina de concertos. E agora? Elvis ressuscitaria uma terceira vez? Seria ele o verdadeiro Lázaro do século XX?... Bem, os dados ainda estavam rolando na mente de Tom Parker. O jogo ainda não chegara ao seu final. Em vista disso o velho astuto chegou a conclusão que era hora de trazer um novo desafio para Elvis. Pensando no seu especial da NBC o Coronel achou que certamente a TV poderia ser a resposta. Só havia um problema em encarar um novo projeto como esse e tentar transformá-lo em um novo renascimento de Elvis: não havia mais nenhuma novidade envolvida em sua realização. Em 1968 todos estavam aguardando ansiosamente em assistir Elvis novamente cantando ao vivo, com jagueta de couro e repertório selvagem, mas em 1977 todos já sabiam que Elvis estava cansado, esgotado em turnês praticamente sem interrupção em seus últimos oito anos de estrada.

Que novidade haveria em mais um show de Elvis Presley a ser transmitido pela TV? Além disso o roteiro do especial seria por demais rotineiro e sem nenhuma inovação. Nem ao menos foi preparada uma nova lista de canções para Elvis apresentar na TV. Enfim, não seria um novo especial de televisão (que acabou sendo o Elvis in Concert) que iria alavancar a carreira debilitada de Elvis naquela ocasião. Mas todos os problemas que Elvis vinha enfrentando em sua vida profissional não se comparariam com o que ele estava prestes a enfrentar: a traição daqueles que sempre foram considerados grandes companheiros e amigos, que estavam ao seu lado desde os tempos de escola. Elvis não sabia, mas havia criado várias cobras ao longo do anos que iriam dar o bote sem pensar duas vezes, sem dó e nem piedade. Tudo aconteceu porque, no final de sua vida, Elvis despediu grande parte da chamada Máfia de Memphis. A razão oficial foi corte de despesas. Não seria nenhuma novidade pois Elvis vinha eternamente em luta para colocar suas contas em ordem e o gasto excessivo de pessoal deveria ser contido. Vernon Presley, notório pão duro, foi o grande incentivador desse ato. Tom Parker, que nunca gostou da inutilidade deles, também assinou embaixo. O que Elvis não antecipou foi que eles iriam assinar contratos milionários para revelar ao público os segredos mais bem guardados do cantor. A tempestade estava próxima...

Erick Steve

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Elvis Os Anos Finais - Parte 34

Ao invés de viajar até Nashville para gravar seus novos álbuns em estúdios de última geração, Elvis decidiu que não viajaria mais, pois estava mesmo farto de tudo. Ao invés de se deslocar até o estúdio B, a RCA deveria os equipamentos de sua estrutura móvel para Graceland para registrar canções em um ambiente de amadorismo impensado para um artista de seu porte. Se Maomé não vai até a montanha, então que a montanha venha até Maomé! Meses depois da morte de Elvis, Felton Jarvis confidenciou a amigos do ramo que tinha muitos projetos para o cantor, entre eles o velho sonho de gravar um LP apenas com canções ao estilo de Mario Lanza (um dos grandes ídolos de Elvis) ou então gravar um novo disco apenas de Rocks clássicos dos anos 50, como bem fez John Lennon em 1975 com seu disco "Rock'n'Roll". Infelizmente nada disso foi adiante. Elvis parecia bem mais preocupado em colecionar armas, distintivos, pílulas e garotas (não necessariamente nessa ordem) do que investir em um projeto sério para levantar sua carreira, que vinha patinando desde 1974. Concentrado em shows que nada tinham de inovador no aspecto artístico, preso a um eterno repertório repetitivo Elvis foi se transformando ao longo dos anos em um artista tipicamente "nostálgico", "Revival", sem conseguir abrir uma linha de diálogo com os jovens dos anos 70. Em vista disso seu papel de grande pioneiro da revolução musical ocorrida nos anos 50 foi ficando cada vez mais ofuscado.

Artistas coadjuvantes, como Chuck Berry e Little Richard, que nos anos 1950 sequer poderiam ser comparados a Elvis em termos de importância, foram crescendo em prestígio e fama, enquanto que Presley nitidamente descia a ladeira em seus momentos finais, seguindo um caminho bem oposto aos dos demais pioneiros da primeira geração roqueira. Também pudera, como convencer um jovem dos anos 70 que Elvis era um dos pais do Rock'n'Roll com canções como "Solitaire", "The Last Farewell" e "Hurt"? Nada mais anacrônico, certamente. Eram músicas bonitas, mas não tinham nada a ver com o bravo Rock´n´Roll. "Minha intenção era dar uma sacudidela em Elvis no final de sua carreira. Voltar aos mesmos pontos revolucionários de 1956 ou 1969 mas não houve como fazer isso, sinceramente" - afirmou depois Felton Jarvis. Certamente não havia mais como fazer isso em 1976 ou 1977, por exemplo. Elvis não tinha mais nenhuma intenção em mudar nada, enquanto houvesse público em seus shows e seus discos pagassem o custo de suas produções e deixasse uma pequena margem de lucro à RCA, para Elvis tudo estaria bem. Comodismo? Certamente, porém seria mais correto afirmar que Elvis abraçava cada vez mais um sentimento de resignação em seus últimos momentos. Se Elvis não estava nem aí para nada, isso não poderia ser dito em relação aos demais membros das organizações Presley. O Coronel estava preocupado pois sua fonte estava secando lentamente aos olhos de todos. Já que não fazia mais filmes e como seus discos já não atingiam as primeiras posições nas principais paradas a renda de Elvis agora se resumia em suas apresentações ao vivo. Para Parker isso era preocupante. Em reunião com executivos da RCA, Parker tentou convencê-los de que Elvis iria efetuar mudanças significativas em suas futuras gravações.

Com sua conhecida lábia levou todos na conversa e convenceu os chefões da multinacional que Elvis iria novamente se tornar um grande vendedor de discos, que ele tinha grandes planos envolvendo mudança de estilo e repertório. Essa última parte de suas promessas era certamente a mais complicada de se cumprir. Era óbvio que os discos de Elvis não empolgavam mais nem a crítica e nem muito menos ao público. Alguns de seus álbuns tiveram vendas bem desanimadoras nos últimos anos. Para contrabalancear o pessimismo dos contadores da gravadora e seus números desabonadores, o Coronel tentou demonstrar muito otimismo em relação ao futuro. Tudo não passaria de uma fase passageira. A época de vacas magras iria passar, segundo o Coronel. Mas apesar dessa postura demonstrada aos executivos Parker estava realmente bastante preocupado em seu íntimo. Ele foi notando que a maré estava virando contra Elvis (e contra ele, por tabela!). De uma hora para outra todas as empresas que compraram o passe de Elvis agora tinham queixas e reclamações a fazer. Eles tinham pago caro pelo produto Elvis e agora queriam o retorno concretizado em muitos lucros, coisa que não vinha ocorrendo. Depois de se reunir com a descontente RCA, Parker teve que enfrentar a cadeia Hilton, que tinha uma longa série de reclamações contra Elvis Presley. O próprio dono do Hotel Hilton agora demonstrava desinteresse e muita má vontade em renovar o contrato de Elvis. Suas atitudes fora do comum, chegando ao ponto de proferir ofensas em pleno palco à própria administração da cadeia de Hotéis, havia pegado muito mal. Além disso havia muitas críticas sobre Elvis e seu pouco empenho durante os concertos.

Certamente, nos últimos anos as críticas ruins estavam em todas as partes. Para alguns Elvis não se comportava com profissionalismo, se apresentando apenas para a banda, ignorando o público, fazendo monólogos sem fim e sem sentido e contando piadas sem graça em demasia, isso quando conseguia acabar as canções pois o esquecimento das letras havia se tornado um problema bem mais sério. Enfim, o contexto não era nada positivo para Elvis naquele momento em sua carreira. Para completar o que por si só já era muito ruim havia ainda uma série de boatos sobre atitudes nem um pouco convencionais em sua vida pessoal. Tudo isso levou Elvis a um impasse sobre sua situação no Hilton. Muito provavelmente se não tivesse morrido em 1977 Elvis teria recebido cartão vermelho de seus patrões de Las Vegas e sido demitido. Numa de suas últimas temporadas na cidade o Las Vegas Hilton fez o Coronel Parker assinar um termo de responsabilidade sobre as coisas ditas por Elvis no palco. Isso ficou bem claro após uma apresentação onde Elvis ameaçou arrancar a língua de um funcionário do hotel pela raiz após ele supostamente ter espalhado fofocas sobre o uso de drogas por parte do cantor. Era uma ameaça pública e o Hilton não iria assumir processos criminais em nome de Elvis. Esse fato inclusive foi bem desgastante para Presley e sua equipe. Tudo aconteceu porque esse funcionário do hotel entrou em sua suíte para recolher a sujeira do local. Uma vez chegando lá se deparou com Elvis no sofá da sala principal de seus aposentos. Presley parecia fora de si, estava mal e inconsciente. Como o sujeito era um linguarudo ele logo começou a espalhar para outros funcionários os boatos de que havia flagrado Elvis chapadão, cheio de cocaína na cabeça, completamente viajado em seu quarto. Chegou a ponto de dizer que suas narinas estavam cheias de pó branco! Quando Elvis soube da fofoca (afinal elas sempre vão e voltam às suas origens) ele explodiu de raiva! Elvis ficou tão nervoso que chegou a pegar suas pistolas para ir atrás do rapaz - e só foi convencido a desistir disso após muita conversa com os caras da máfia de Memphis. Quando subiu ao palco naquela noite ele estava enfurecido e começou a soltar palavrões e ameaças contra o tal sujeito fofoqueiro. Um fato lamentável que só trouxe ainda mais publicidade para os rumores. Sem querer Elvis acabou alimentando ainda mais as fofocas, infelizmente.

Erick Steve e Pablo Aluísio. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Elvis Os Anos Finais - Parte 33

Quando voltou do exército em 1960 Elvis estava convencido de que deveria desenvolver e promover uma carreira no cinema. Para isso até mesmo sua carreira musical deveria ser deixada de lado, afinal, como o próprio Elvis declarou certa vez: "Cantores surgem e desaparecem. Mas se você for um bom ator pode ficar por aí durante muitos anos!". É isso mesmo, Elvis não colocava mais tanta fé em seu fantástico talento musical e resolveu investir em seus opacos talentos melodramáticos. O resultado dessa forma de pensar foi terrível e o artista pagou caro por tentar seguir por esse equivocado caminho. Em pouco tempo o astro viu sua estrela se apagar lentamente. Estrelando um filme ruim atrás do outro Elvis foi facilmente substituído no gosto musical pelos jovens. Grupos musicais como os Beatles surgiram e dominaram completamente o cenário musical enquanto que Elvis, com suas infantis trilhas sonoras, patinava e sofria para atingir o topo das paradas.

Apesar do sucesso de seus primeiros filmes durante os anos 1960 o público logo se cansou dos roteiros repetitivos e das músicas sem valor artístico. A partir de 1967 os discos de Elvis passavam vergonha nas listas das paradas norte-americanas. Sua última trilha sonora, Speedway, conseguiu atingir um vexatório 82º lugar na lista dos mais vendidos. Uma posição nada digna de um cantor que era considerado o "Rei do Rock". Era o fim, a carreira de Elvis como ator havia fracassado miseravelmente. Além de ter que lidar com a frustração de nunca ter conseguido desenvolver uma carreira sólida em Hollywood, Elvis ainda teve que arcar, nos últimos momentos de sua carreira, com uma série de decisões erradas tomadas por seu empresário, o que o fez ficar tristemente preso em contratos que o posicionavam como um cantor de cassinos em Las Vegas.

Nem seu velho sonho de cantar em outros países se concretizou e até mesmo seus mais recentes discos de estúdio não conseguiam uma boa resposta em termos de vendas nas paradas. Com tantos infortúnios, Elvis se isolou. Segundo Rick Stanley apenas a química do Dr. Nick conseguia trazer o astro de volta à vida. Para encarar uma nova sessão de estúdio ou fazer uma nova maratona de apresentações, Elvis tinha que ser medicado para segurar o pique e o ânimo. O próprio Rick relembra: "A alegria de Elvis após tomar tantas pílulas não era natural mas sim artificial. Muitas vezes notávamos que Elvis estava 'alto' um pouco além da conta! Ele não se resumia a rir mas a dar sonoras gargalhadas, qualquer piada o fazia desabar de rir! Ele não ficava apenas 'alegre' mas extremamente 'feliz', além do ponto, me entendem? Bem essa não é uma atitude de alguém realmente feliz e sim um reflexo do que ele estava tomando!"

Traição, drogas, fracassos na carreira, problemas com peso, enfim. Os fatores são muitos. De qualquer forma tudo levou o cantor Elvis Presley a um estado depressivo constante do qual nunca mais se recuperou. Talvez a fama tenha se transformado numa grande armadilha. Talvez o fato de ser famoso o tenha inibido de procurar a ajuda médica correta de que tanto necessitava. Talvez o fato dos fãs idealizarem uma pessoa acima do bem e do mal, perfeita e divina, tenha feito com que Elvis tivesse que enfrentar os diversos problemas que acompanham um estado depressivo de forma completamente solitária. Afinal sua doença jamais deveria vir à tona publicamente! Além disso aquela pessoa que aparecia nas capas dos discos e filmes jamais poderia ser uma pessoa acometida de uma doença tão estigmatizada! Isso, claro, na ótica da indústria que tanto o explorou em vida. Quem sabe se todos os seus mais graves problemas não tenham tido apenas uma única gênesis? A verdade porém nunca saberemos ao certo. De qualquer forma toda essa situação acabou levando Elvis inexoravelmente para aquele amanhecer em 16 de agosto de 1977

No final de sua vida Elvis estagnou artisticamente. Não havia mais nenhum traço do grande revolucionário cultural que um dia ele foi. O artista Elvis Presley deliberadamente colocou sua carreira no piloto automático e deitou sobre suas glórias passadas. Felton Jarvis, seu produtor desde os anos 60, tentava de todas as formas levar Elvis à frente, impulsionar mudanças mas tudo ia por água abaixo durante as sessões de gravação. Elvis demonstrava desinteresse em promover mudanças, apatia na escolha do repertório e falta de ânimo em gravar material novo e desafiador. Ao invés disso Elvis começou a apostar apenas no certo e seguro e seguiu gravando suas baladas chorosas e seus countrys tradicionalistas que certamente iriam cair no gosto do sulista americano médio. Rock'n'Roll? Elvis só se lembrava deles para cantar versões medíocres em seus concertos, com a clara finalidade de não deixar as apresentações caírem na monotonia. Certamente essa atitude era decepcionante para quem ostentava o pomposo título de "Rei do Rock". Na visão de Jarvis o cantor Elvis não tinha mais nenhuma motivação em sua trajetória artística e sua função agora era de alguma forma motivá-lo, incentivá-lo, levantar a poeira de sua outrora lustrosa carreira... Infelizmente a animação de Felton Jarvis esbarrava na apatia de Elvis. Ele nem ao menos se dava ao trabalho de ir a um estúdio de gravação profissional, seja em Nashville, seja em Memphis.

Erick Steve.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Elvis Os Anos Finais - Parte 32

"Apesar de tudo temos a autópsia dele afirmando que certamente ele não morreu de uma overdose de drogas. Na verdade foi uma série de fatores, que juntos, causaram sua morte." - e prossegue Esposito - "Não estou dizendo que as drogas não tenham tido uma influência sobre sua morte ou que elas não contribuíram com o colapso de seu coração naquele dia. Tampouco estou dizendo que os remédios o mantinham saudável ou algo assim. Nada disso. Mas você tem que lembrar que ele morreu de uma doença no coração. Sim, ele estava tomando muitas pílulas em seus anos finais mas é errado afirmar que Elvis morreu de uma overdose de drogas. Não houve overdose, o seu coração apenas disse: 'É o bastante'".

Para Joe Esposito muitos fatos que aconteceram acabaram levando o cantor a um estado de depressão cada vez mais presente e forte, o que agravou ainda mais sua saúde, de uma forma geral, e cita exemplos de acontecimentos que de uma forma ou outra atingiam indiretamente Elvis: "Veja, acima de tudo eu quero que as pessoas entendam que Elvis era apenas outro ser humano com talentos dotados de Deus, que ninguém mais no mundo teve. Ele se machucava como você e eu. Ele tinha problemas como todos têm. As pessoas o colocaram em um pedestal. Certa vez Elvis fez uma declaração afirmando que a imagem de um artista e o verdadeiro ser humano atrás dessa fachada eram coisas distintas. É verdade, Elvis não era a imagem que mostrava nos palcos ou nos filmes. Ele se magoava quando o atingiam. Ele possuía sentimentos como todos nós. Ele ficava deprimido quando as pessoas comentavam seu estado físico. Você acha que alguém gostaria de ler uma crítica o humilhando por ter ganho um grande aumento de peso? De repente você vê as manchetes: 'Elvis, gordo e aos 40'. Isso vai machucar alguém, não importa quem seja. Todos nós temos um pouco de orgulho e ego para nós mesmos. Mas esse cara tem que tê-lo no ar, em volta do mundo. Tem que estar nas capas de revistas e isso machuca." Esse aliás é um dos consensos em torno da biografia de Elvis Presley. Tanto para Esposito como para todos os que viveram ao seu lado, tudo o que ocorreu de negativo em relação a Elvis no tocante a sua vida pessoal e profissional, acabou agravando ainda mais a sua já tão presente e crônica depressão.

Um dos mais graves problemas enfrentados por Elvis Presley em seus anos finais foi sua depressão crescente, tão bem retratada por Joe Esposito em seu depoimento. Nos últimos momentos de sua vida as pessoas que viviam ao lado do cantor testemunharam o longo declínio do artista nesse aspecto. Elvis, que nos anos 60 foi uma pessoa extremamente festiva e alegre entre os amigos, a ponto de promover praticamente uma festa por noite quando estava filmando em Hollywood, foi aos poucos se deixando dominar pela melancolia e angústia. Não era raro o cantor simplesmente se isolar do mundo quando estava em Graceland durante seus momentos de ócio. E se isolar não significava apenas não sair mais de sua mansão, mas sim nem ao menos sair mais de seu quarto para fazer suas refeições ao lado de seus amigos e familiares. Elvis, quando mergulhava profundamente em estado depressivo, não queria ver ou se socializar com mais ninguém.

Ele entrava em um estado tão enclausurado que chegava inclusive a espantar seus próprios empregados. Muitas vezes o prato de comida era simplesmente deixado na porta de seu quarto. Definitivamente Elvis não queria ver absolutamente ninguém! Vários são os fatores apontados pelos biógrafos que tentam justificar esse lamentável estado de espírito de Elvis nos derradeiros anos de vida. Para alguns o principal motivo de tanta depressão, angústia e tristeza, era o final decepcionante de seu casamento. Nada surpreendeu mais Elvis do que saber que sua amada esposa Priscilla Presley o havia simplesmente traído com seu próprio instrutor de Karatê, Mike Stone. Este fato deixou Elvis extremamente chocado e sem saber o que fazer! Em um primeiro momento e sem raciocinar de forma equilibrada, Elvis tentou resolver tudo ao velho estilo sulista, chegando inclusive a ameaçar de morte sua esposa e seu amante! Mas passado algum tempo desistiu da idéia após ser aconselhado por seu vocalista de apoio e amigo, J.D. Sumner. Esse fato por si só serviu apenas para deixá-lo ainda mais deprimido. Mas não era só em aspectos pessoais que podemos encontrar os vários motivos de Elvis a desenvolver uma depressão cada vez mais acentuada e crescente. Sua carreira também não ajudava. Vários de seus planos foram por água abaixo com o passar do tempo.

Pablo Aluísio e Erick Steve.

Elvis Os Anos Finais - Parte 31

Joe Esposito, em recente entrevista, procurou desfazer essa imagem de um Elvis Presley completamente submisso ao tirânico Tom Parker. Perguntado sobre a recusa de Parker para Elvis fazer a refilmagem de "Nasce uma estrela" (com Barba Streisand), um dos símbolos máximos da teoria "Elvis, marionete de Tom", ele explicou: "As pessoas esquecem que Elvis e o Coronel formavam um time. Elvis não era uma pessoa fácil de manipular. Ele era uma pessoa muito obstinada com as coisas. Todos não percebem que quando ele colocava sua mente contra alguma coisa, você não conseguia mais conversar com ele sobre isso. Ele fazia o que queria. Definitivamente não foi o Coronel que recusou o convite para filmar "Nasce uma estrela". Elvis é que não queria mais fazê-lo após uma conversa. Eu estava lá com Elvis, Barbra Streisand, Jon Peters e o Coronel. A idéia era fabulosa, era a chance de Elvis retomar com estilo sua carreira de ator, que muitos considerava morta e enterrada. Mas depois Elvis pensou e percebeu que o diretor iria ser Jon Peters, namorado de Barbra. Ele percebeu com isso que não teria nenhum controle sobre o resultado final. Ele definitivamente não queria Peters na direção do filme, mas alguém com talento e que não fosse tão íntimo assim da atriz principal. Para Elvis isso iria prejudicar o resultado final, porém ele não tinha como falar isso pessoalmente e abertamente para Barbra. Além disso Elvis estava certo que Barbra, de personalidade extremamente forte e dominadora, iria tomar o controle absoluto sobre isso. O ego de Elvis era muito grande, assim como o de Barbra. Elvis achou que iria perder o controle durante as filmagens. Elvis sentiu que iria entrar em algo que não teria controle. Então ele disse a Parker que ele fizesse uma proposta inaceitável, como pedir uma fabulosa soma de dinheiro que não poderia ser bancada pelo estúdio. E assim Parker o fez. Depois Elvis comentou comigo: 'Deixei o Coronel levar a culpa, ele não se importa com isso'. O Coronel errou muitas vezes durante a carreira de Elvis, ele não era perfeito.

Joe Esposito então desmistifica uma das grandes histórias mal contadas da carreira de Elvis. Com isso ele quer deixar claro que não apenas o Coronel dava suas notas desafinadas na carreira do cantor, mas que ele, Elvis Presley, também era o autor de muitas e muitas notas dissonantes produzidas ao longo dos anos... Joe Esposito foi, durante grande parte da carreira de Elvis Presley, uma das pessoas mais próximas a ele. Além de confidente, amigo e ajudante, Esposito também conseguiu um feito que poucos caras da Máfia de Memphis conseguiram: ser também reconhecido como uma pessoa de valor por ninguém menos do que Tom Parker e a esposa de Elvis, Priscilla Presley. Com essa vantagem em especial Esposito transitou livremente pelos dois pólos da carreira do cantor, tanto compartilhando de sua vida pessoal como profissional, aonde chegou a trabalhar por longo tempo com o Coronel, participando inclusive de muitas decisões que foram tomadas ao longo dos anos envolvendo os rumos que Elvis tomaria dali pra frente. Nada mais natural do que considerá-lo como uma das grandes testemunhas oculares do que efetivamente aconteceu com Elvis em seus anos finais. Ele não apenas ouviu dizer ou leu sobra a história de Elvis, ele a vivenciou. Em vista disso qualquer de seus comentários ou observações é extremamente relevante. Para Joe Esposito o grande problema envolvendo Elvis Presley em seus derradeiros anos não se resumia aos aspectos puramente profissionais ou aos caminhos, muitas vezes equivocados, que ele trilhou.

O grande problema sobre Elvis era estritamente pessoal. Para Esposito chegou um ponto em que ninguém mais poderia ajudá-lo, apenas Elvis poderia se salvar das armadilhas em que havia se enroscado. Questionado hoje, muitos anos após a morte do cantor, se a família ou os amigos poderiam ter salvo a vida de Elvis, o internando em uma clínica de reabilitação para viciados em drogas, por exemplo, numa verdadeira intervenção pessoal sobre ele, Esposito dá sua conclusão sobre o assunto: "Bem, naqueles tempos não pensávamos sequer nessa possibilidade. Fazer uma intervenção em Elvis?! Naquele tempo você não poderia fazer isso. Estamos falando de muitos anos atrás. Estamos falando de um tempo em que apenas seu pai teria os meios legais de fazer algo desse tipo. Certamente Vernon tentou de algum modo, penso inclusive que ele deveria ter sido um pouco mais firme e incisivo sobre essa questão, mas na realidade ninguém tinha controle sobre Elvis e não podíamos fazer nada nesse sentido. Teríamos sido presos e jogados na cadeia por rapto, para falar a verdade. Hoje, esse tipo de coisa é bem mais comum, de qualquer forma nunca ouvi falar em fazer algo desse tipo em alguém tão famoso quanto Elvis".

Para Esposito a grande questão envolvendo Elvis em seus anos finais passa necessariamente por seu uso e abuso de remédios, algo que o limitava, que o inibia a tentar novos caminhos e promover mudanças artísticas no que vinha apresentando em seus momentos finais. Como alguém iria promover algum tipo de mudança significativa se toda sua atenção era desviada para tantos problemas pessoais?! Não havia brecha para que Elvis pensasse seriamente sobre nada, no que diz respeito aos erros e acertos que Tom Parker ia promovendo ao longo do tempo. Com a palavra Esposito: "Certamente havia um sério problema. Ele certamente não engolia tantas pílulas quanto o que vemos em livros e revistas. Mas havia um sério problema envolvido certamente. Elvis tinha uma forte constituição física e era o tipo de pessoa que tomaria algumas pílulas para dormir, só que elas não fariam o mesmo efeito após um certo tempo. Então certamente, duas horas mais tarde, ele tomaria mais algumas. E ele fazia isso com todos os remédios que ingeria. Tomando um monte deles ele acabou imune aos seus efeitos. Para promover os mesmos efeitos ele teria que necessariamente aumentar as doses gradativamente e isso virava um círculo vicioso. Daqui a
pouco a mesma quantidade já não faria mais efeito e então ele aumentaria mais ainda as doses uma segunda vez e assim sucessivamente...

Pablo Aluísio e Erick Steve.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Elvis Os Anos Finais - Parte 30

No novo país, sem emprego e sem perspectivas, Andreas finalmente conseguiu arranjar uma instituição que o aceitasse. Foi assim, tirando novos documentos, alegando que os originais havia sido furtados, que Andreas forjou uma nova documentação e começou a sua nova vida na América, logo no lugar ideal onde ganharia finalmente a legitimação que seu novo personagem tanto necessitava: o exército. É justamente nesse ponto que os primeiros registros oficiais trazem um pouco da história do novo Tom Parker, recém chegado na América. O importante a se frisar sobre toda essa teoria é de que ela vem para reforçar ainda mais as verdadeiras razões que levaram Parker a tomar várias e várias decisões prejudiciais à carreira de Elvis Presley. Se tudo o que foi levantado por Alanna Nash realmente for verdadeiro então finalmente podemos compreender porque Elvis nunca fez shows fora dos EUA, porque ele foi tão desperdiçado como artista e porque nunca trilhou novos e gloriosos caminhos quando já era um verdadeiro mito. A pergunta seguinte agora se refere ao próprio Elvis: Qual foi afinal o tamanho de sua própria culpa? De que forma sua personalidade vulnerável e inconstante contribuiu decisivamente para que as coisas chegassem no ponto em que chegou?

Em sua autobiografia Priscilla Presley chama a atenção dos leitores para uma peculiaridade do modo de agir de Elvis ao longo dos anos. Ela traz à tona o fato de Elvis sempre abaixar a cabeça para Tom Parker, não importando quais fossem suas decisões. Priscilla lembra que Elvis sempre se portou como o líder absoluto dentro de seu grupo de amigos, mandando e demandando em todos, porém na presença de Parker Elvis ficava visivelmente diminuído e sem forças para enfrentá-lo. Com o longo dos anos e sua crescente dependência de drogas a situação só fez piorar, até que chegou o ponto em que Elvis simplesmente desistiu de se importar com sua carreira e sua própria vida. Elvis tinha uma personalidade sujeita a desenvolver vícios. Ele sempre procurava evitar os problemas de sua vida, pensando seriamente que se não os enfrentasse, eles desapareceriam!

Para alguém que sempre fugiu assim nada mais incentivador do que procurar a fuga no uso de drogas. Perceba que conforme sua vida ia entrando num beco sem saída (traição de Priscilla, queda na sua popularidade etc) ele gradativamente ia também aumentando seu consumo de drogas perigosas. Como ele próprio disse ao seu meio irmão: "Prefiro estar inconsciente do que desgraçado". Isso demonstra bem que ele próprio tinha plena consciência do que acontecia em sua vida! Fugir para não enfrentar os problemas... O fato de ter se tornado uma celebridade cedo demais também contribuiu para que ele vivesse dentro de uma bolha de alienação, muitas vezes se considerando um ser completamente iluminado e acima dos demais mortais (tanto que chegou ao ponto de querer curar as pessoas com as mãos!!!).

Sua alienação e sua necessidade crescente de viver em um hedonismo sem fim trouxe sérias conseqüências: a primeira sentida em sua vida profissional e a segunda no aspecto pessoal. Como artista ele deixou sua carreira afundar em vários buracos negros ao longo da vida (filmes, Las Vegas, etc) e na vida pessoal a história se repete: traído pela esposa, roubado por seus próprios empregados, manipulado a exaustão por seu empresário... enfim, com tantas coisas em desordem só sobrou mesmo a fuga nas pílulas que o mantinham inconsciente e alheio ao mundo ao seu redor. Elvis, de certa forma, fugiu da vida e quando isso acontece, geralmente a vida é que deixa quem não a quer mais. Ora, esse era justamente o cenário perfeito para o Coronel Tom Parker tomar o completo controle e se alguém deve ser culpado será justamente seu empresário dominador, manipulador e coercitivo. Mas será mesmo?

Pablo Aluísio e Erick Steve.

sábado, 22 de novembro de 2014

Elvis Os Anos Finais - Parte 29

Para entender completamente as razões de Tom Parker, o empresário de Elvis, é preciso voltar na história. Primeira metade do século XX. Costa de Nova Iorque. A estátua da Liberdade saúda mais um navio de imigrantes que chegava na América. A terra da oportunidade dava as boas-vindas para mais um grande grupo de europeus que, espremidos na classe econômica, em navios extremamente lotados, chegavam com o coração cheio de sonhos e ambições à afamada "Terra dos sonhos". Embora fosse inverno e ele sentisse muito frio no convés do navio que viajava, o jovem holandês Andreas (nome real do homem que assumiria a falsa identidade de Tom Parker nos Estados Unidos anos depois), apenas mais um entre tantos imigrantes do velho mundo, estava feliz e mais do que tudo, aliviado. Feliz porque finalmente chegava ao seu destino, a tão sonhada América. Aliviado, porque deixava atrás de si, na Holanda, um fato que iria atormentá-lo até o final de seus dias. Porém para Andreas, naquele exato momento, o que importava era contemplar todos os arranha céus da nova cidade, linda, exuberante, esplêndida que agora seus olhos viam, Nova Iorque era um sonho, era o novo horizonte que se abria em sua vida.

O passado ficava para trás e o que realmente importava era pôr seus pés no novo país em que chegara, os Estados Unidos da América, e recomeçar sua vida do zero absoluto. Nascer de novo, se reinventar de uma forma radical. E foi assim, com todos esses sentimentos contraditórios, mas convergentes, que ele finalmente começou o seu próprio sonho americano, ou como dizia o lema sempre repetido pelos outros imigrantes durante a travessia do Atlântico Norte: "Vamos fazer juntos a América"! Ele estava decidido. A partir do momento em que finalmente pisasse nesse novo país ele iria deixar tudo para trás, inclusive sua própria identidade pessoal real. Daquele ponto em diante Andreas Cornelis van Kuijk, nascido na Holanda, deixava de existir. Assim que chegou no novo continente ele resolveu criar um outro nome para si, um novo local de nascimento, uma nova vida enfim. Desse ponto em diante Andreas deixava oficialmente de existir e nascia Thomas Andrew Parker, nascido em West Virginia, americano da gema, sulista, ciente de todas as tradições, enfim, o personagem criado por ele seria o supra-sumo do que ele próprio pensava ser o verdadeiro cidadão norte-americano. Tudo mentira, mas que iria lhe servir muito bem por décadas e décadas.

A pergunta vital nessa história é: por que razão Andreas tinha tanta necessidade e pressa de enterrar seu passado e viver a partir daí uma mentira que iria durar até o fim de seus dias? Por que, ao contrário dos demais imigrantes, sempre zelosos por sua própria cultura, Andreas nunca mais quis saber de voltar à sua terra natal e reencontrar seus próprios familiares? Que fato tão obscuro escondia sua história passada para que ele chegasse ao ponto de simplesmente riscar sua própria vida passada na Europa antes de chegar nos EUA? O que afinal aconteceu com Andreas antes dele embarcar naquele navio que o levou a América? Por que afinal ele nunca mais sequer cogitou colocar os pés novamente no velho continente?! Segundo Alanna Nash em seu livro "The Colonel: The Extraordinary Story of Colonel Tom Parker and Elvis Presley" Andreas (ou como todos o conhecemos, Tom Parker) na realidade não estava apenas imigrando para a América naquela data, mas sim fugindo da polícia holandesa, pois ele estava seriamente encrencado no espancamento, seguido de morte, de uma mulher e todos os indícios da investigação apontavam que ele, Tom Parker, havia assassinado a vítima.

Então, desesperado e com medo de ser preso pelo resto de seus dias, Parker simplesmente pegou o primeiro navio que encontrou e fugiu às pressas para o novo mundo, sem praticamente saber nada sobre o novo país em que chegava. É isso, Andreas Cornelis van Kuijk (que depois inventaria o personagem Tom Parker) na realidade nada mais era do que um homicida em fuga quando chegou ao novo destino! O que mais choca nessa tese é o fato de saber que foi justamente essa pessoa a responsável pelos rumos da carreira de um garoto sulista que iria ser conhecido nos quatro cantos do mundo muitos anos depois: Elvis Presley. Quando chegou na América, segundo Nash, a primeira providência de Andreas tomou foi simplesmente apagar todas as pistas que pudessem levar alguém a identificá-lo. Quem, senão um criminoso procurado, faria uma coisa dessas? E por uma dessas ironias do destino ele acabou encontrando por mero acaso com esse garoto pobre do Tennessee que parecia ter muito talento para explorar.

Para Elvis a raposa Andreas se apresentou como Tom Parker e como todos o conheciam assim, a farsa colou completamente. Parker assim assumiu o controle sobre a carreira de Elvis. Ele afinal de contas poderia fazer quase tudo nesse ramo de gerenciar sua carreira menos... viajar para o exterior, pois corria o sério risco de ser descoberto pelas autoridades americanas quando tentasse tirar seu passaporte. Afinal toda a sua documentação era forjada e falsificada. Não iria passar de jeito nenhum pelo departamento responsável do governo americano. Seria facilmente desmascarado, com risco de ser deportado e preso quando chegasse em algum aeroporto holandês. Assim Parker tomou sua decisão de jamais viajar para o exterior e isso significava que Elvis também não viajaria nunca para fora, afinal de contas se havia um medo maior do que ser preso para Parker era perder o controle absoluto sobre Elvis. No exterior o cantor poderia ser seduzido por grandes agências internacionais. Assim era melhor não ir para fora, nem ele e nem Elvis também. Dessa forma se tornou bem claro porque Elvis, artista mundialmente conhecido, jamais fez concertos fora dos Estados Unidos, a não ser poucas apresentações no Canadá nos distantes anos 1950. Como era pertinho, praticamente na fronteira, Parker não se sentiu ameaçado por essa rápida e rara excursão fora dos Estados Unidos. Fora isso, nada de colocar os sapatos de camurça azul em terras estrangeiras. Tom Parker, ou melhor dizendo, Andreas, não queria correr riscos maiores em ir para a cadeia e perder o controle sobre Elvis. Seria o fim de sua vida, literalmente.

Erick Steve e Pablo Aluísio.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Elvis Os Anos Finais - Parte 28

Certamente Tom Parker nunca pensou em Elvis como um artista inovador, que iria ser estudado nos anos que viriam após sua morte. Visão histórica era um conceito até mesmo muito complicado para que ele entendesse seu significado. Por essa razão Parker não fez nenhuma questão de vender o show de Elvis para os locais mais despreparados, toscos e obsoletos da América. Pagando, Elvis estaria lá, cantando para a caipirada! Conceitos como prestígio, classe e publicidade negativa pouco, ou nada, serviam na cabeça de Parker. Ele certamente não estava nem aí para o fato de que apresentações nesses locais remotos iriam abalar o prestigio de Elvis como artista, fatalmente o levando a ganhar uma boa dose de publicidade negativa, principalmente de todos os jornalistas que acusavam o cantor de estar perdendo a classe ao se apresentar nos cafundós dos Judas! Esse fato, de se apresentar em localidades sem importância, aliado ao seu aumento de peso, sempre eram os primeiros argumentos levantados por todos aqueles que sempre o tachavam de decadente nos anos 70! Afinal, qual é a designação certa para um cantor gordo e velho que vai se apresentar nas menores cidades, dos menores Estados? Ora, decadente é claro!

O que mais impressiona diante desse quadro lamentável é perceber que ao invés de reagir a toda essa situação ruim Tom Parker tomava atitudes que afundavam ainda mais a imagem de Elvis! Como afirmei antes, em um primeiro momento realmente Tom Parker errou por suas próprias limitações pessoais, por puro e simples despreparo, ou para simplificar ainda mais, por pura ignorância. É bem conhecida toda a coleção de piadas que os executivos da RCA tinham sobre Tom Parker. No meio ele era visto como uma figura folclórica, totalmente ultrapassado, uma espécie de Vicente Matheus do mundo musical norte-americano, com todas aquelas gafes e histórias engraçadas que sempre o cercaram. Embora várias de suas decisões acabassem virando piada entre os membros da indústria fonográfica, aos poucos seus atos começaram a chamar a atenção pela esquisitice e irracionalidade. Já em 1957 todos se perguntavam quando Elvis iria fazer sua turnê na Inglaterra e na Europa. Depois disso sempre os jornais europeus de grande circulação traziam periodicamente notícias envolvendo promotores do velho mundo oferecendo vultuosas somas a Parker para que Elvis fizesse finalmente a tão esperada turnê mundial. Mas isso nunca se concretizava pois Parker sempre se saía com uma desculpa esfarrapada qualquer.

Essa situação acabou fazendo com que muitos desconfiassem dos verdadeiros motivos por trás dessa sempre presente recusa por parte de Parker em levar Elvis para os palcos do mundo! Ninguém conseguia entender por que Elvis não saía dos EUA de jeito nenhum! Astros de magnitudes muito inferiores a incrível fama de Elvis se davam muito bem em turnês mundiais. Bill Halley, por exemplo, foi recebido como uma espécie de Deus musical em sua chegada à Londres, ainda no surgimento dos primeiros passos do Rock'n'Roll! Mas quem era ele perto da incrível fama do Rei do Rock? A despeito disso nada parecia convencer o velho Coronel de promover uma excursão épica de um dos maiores astros musicais que o mundo já conheceu! Afinal, quais eram as razões e os motivos que levavam Parker a tomar tantas decisões equivocadas? É fato que Parker deixou muito a desejar como empresário de Elvis, principalmente por não estar devidamente preparado para exercer tal função, mas isso certamente não justificava totalmente os diversos erros que eram sistematicamente cometidos durante a carreira de Elvis. Havia muito mais por trás dos notórios erros de estratégia no comando dos rumos da carreira do afamado Rei do Rock. Essas razões, bem mais sinistras e obscuras, foram sendo descobertas ao longo dos anos que viriam e fariam todos entenderem exatamente as verdadeiras causas que moveram Tom Parker e o fizeram tomar decisões, que em um primeiro momento, eram totalmente irracionais e sem nenhuma lógica comercial!

Com o passar do tempo as respostas foram surgindo para os pesquisadores. O fato dele ser um imigrante ilegal nos Estados Unidos já era bem conhecido de todos os fãs, desde que o fato foi descoberto por Albert Goldman no começo da década de 80 [Leia o artigo "Elvis e o Coronel" em nosso site]. Até aí nenhuma novidade havia surgido. Certamente Elvis nunca fez shows fora dos EUA por causa desse detalhe ilegal na vida do Coronel Tom Parker (que diga-se, não era coronel e nem muito menos se chamava Tom Parker na verdade!). De qualquer forma, para quem acompanha a literatura envolvendo Elvis, acabaram surgindo, nos últimos anos, fatos novos e recém descobertos! Em vista disso muita gente vem sendo surpreendida por novas revelações e descobertas promovidas por uma nova geração de autores que cavaram fundo nessa história envolvendo Parker, Elvis e sua vida artística enclausurada dentro das fronteiras de Tio Sam. Muita coisa que foi descoberta demonstra ainda mais o que existia por trás de toda essa suposta "incompetência" envolvendo os rumos da carreira do cantor.

Pablo Aluísio e Erick Steve.

sábado, 15 de novembro de 2014

O Casamento de Elvis Presley

O pedido - Uma noite, pouco antes do natal de 1966, Elvis bateu de leve na minha porta e disse: "Sattnin, preciso falar com você." Tínhamos uma senha. Provocante, eu lhe disse que teria de pronunciá-la antes que eu o deixasse entrar. Ele riu e disse: "Olhos de fogo" - o apelido que eu lhe dava quando estava furioso. Elvis estava com seu sorriso infantil e as mãos nas costas. "Sente-se e feche os olhos Sattnin" - disse. Obedeci. Quando abri os olhos, deparei com Elvis ajoelhado aos meus pés, na minha frente, estendendo uma caixinha de veludo preto. "Sattnin..." - murmurou ele. Abri a caixa para descobrir o mais lindo anel de diamantes que já vira. Era de três e meio quilates, cercado de diamantes menores, destacáveis. - eu poderia usá-los separadamente. "Vamos nos casar" - anunciou Elvis - "Você vai ser minha. Eu lhe disse que saberia quando o momento chegasse. Pois o momento chegou". Ele enfiou o anel em meu dedo. Eu estava emocionada demais para falar; foi o momento mais lindo e romântico da minha vida. Nosso amor não seria mais um segredo. Eu poderia viajar abertamente como a Sra. Elvis Presley, sem o receio de inspirar alguma manchete escandalosa. E o melhor de tudo, os anos de angústia e medos de perdê-lo para uma das muitas mulheres que disputavam o meu lugar estavam terminados. Elvis estava ansioso em mostrar o anel ao pai e vovó, informando-os que estávamos oficialmente noivos. Nem mesmo tive a chance de me vestir. Levando em consideração nosso estilo de vida irregular, ficar noiva no meu quarto de vestir e mostrar o lindo anel de diamantes num roupão não parecia absolutamente estranho.

Eu queria compartilhar a notícia com meus pais, mas Elvis sugeriu que esperássemos até a nossa volta para Los Angeles, poucas semanas depois. Poderíamos então anunciar pessoalmente; eles mereciam nossa consideração. Naquela noite ligamos para meus pais e os convidamos para passar um fim de semana conosco em Bel Air. Elvis estava mais nervoso do que em qualquer outra ocasião anterior no dia em que eles deveriam chegar. Olhava a todo instante pela janela, à espera do carro. Estava ansioso em lhes mostrar o anel e quase o fez no instante mesmo em que passaram pela porta, mas eu consegui manter a mão nas costas até que todos sentamos. Estendi então a mão e disse: "Só queríamos mostrar isso a vocês". "E o que isso significa?" - perguntou papai, olhando para a minha mão. "É um anel de noivado, senhor" - informou Elvis. As lágrimas afloraram aos olhos de mamãe. "Oh Deus, é lindo!" - murmurou ela. Os dois estavam extasiados. Adoramos informá-los que finalmente ocorria o que esperavam há tanto tempo e pelo que muito haviam rezado. Ressaltamos a importância de manter o noivado em segredo, pedindo que mantivessem um sigilo absoluto, mesmo para a família, já que os garotos poderiam comentar na escola e a notícia se espalharia rapidamente. Queríamos um casamento íntimo, não um evento de celebridade. Meus pais concordaram com todos os planos. Não podiam estar mais felizes e durante todo o fim de semana se mostraram radiantes de prazer.

Durante os cinco anos em que vivia com Elvis raramente lhes permitira discutir o casamento. A possibilidade da família ser magoada era a preocupação maior de meus pais. Agora não tinham mais que se preocupar se haviam tomada a decisão acertada ao deixarem a filha tão jovem saísse de casa. Sei que o coronel Parker pedira a Elvis que analisasse o nosso relacionamento e decidisse o que julgava melhor. A atitude de Elvis em relação ao casamento era de que se tratava de algo definitivo. Embora ele fosse monógamo por natureza, adorava as opções. Apesar disso não estava disposto a me largar. Curiosamente , depois da conversa com o coronel Parker, Elvis não levou muito tempo para chegar à conclusão de que era o momento certo. A decisão foi sua e somente sua.

O vestido - Em meio ao maior excitamento, fizemos o resto dos planos para o casamento. A primeira sugestão foi de que eu providenciasse o vestido imediatamente; se a notícia vazasse, poderíamos casar de um momento para o outro. Mas minha busca por um vestido de noiva acabou se prolongando por meses. Disfarçada por óculos escuros e um chapéu, visitei todas as butiques exclusivas de Memphis a Los Angeles; apesar do disfarce, era paranóica o bastante para pensar que todos me reconheciam. Cheguei a conversar com diversas costureiras sobre modelos, mas não confiava o bastante para dizer que seria para um vestido de noiva. Finalmente alguém indicou uma loja pouco conhecida de Los Angeles. Charlie acompanhou-me, apresentando-se como meu noivo. Foi ali que encontrei meu vestido de noiva. Não era extravagante, nada tinha de excepcional - era simples e para mim maravilhoso. Sai da cabine para mostrá-la a Charlie. Ao me ver, Charlie ficou com os olhos cheios de lágrimas e murmurou: "Você está linda, Beau. Ele vai ficar muito orgulhoso."

A cerimônia - A cerimônia de casamento foi a 1º de maio de 1967. O coronel Parker cuidou de tudo. Seu plano era de que Elvis e eu seguíssemos de carro de Los Angeles para nossa casa em Palm Springs no dia anterior ao casamento, a fim de que quaisquer repórteres inquisitivos que suspeitassem do evento pensassem que a cerimônia ocorreria lá. Na verdade, planejávamos levantar antes do amanhecer no dia do casamento e voar de Palm Springs para Las Vegas, onde passaríamos pelo cartório às sete horas da manhã, a fim de pegar a licença para o casamento. De lá seguiríamos imediatamente para o Aladdin Hotel. Ali trocaríamos de roupa, faríamos uma pequena cerimônia na suíte do proprietário do hotel e depois - era o que esperávamos - deixaríamos a cidade antes que a notícia se espalhasse. O tempo era essencial. Sabíamos que a notícia se espalharia pelo mundo assim que solicitássemos a licença para o casamento. Foi justamente o que aconteceu. Poucas horas depois de obtermos a licença, o escritório de Rona Barret começou a telefonar para indagar se os rumores sobre o casamento eram verdadeiros. Elvis e eu seguimos o plano do coronel, mas enquanto corríamos de um lado para o outro, durante o dia, não pudemos deixar de pensar que nos daríamos mais tempo se tivéssemos de fazer tudo de novo. Ficamos particularmente aborrecidos pela maneira como nossos amigos e parentes acabaram sendo afastados.

O coronel até disse a alguns dos rapazes que a sala era muito pequena para caber a maioria e suas esposas e não havia tempo de mudar para uma sala maior. Infelizmente já era tarde demais para mudar qualquer coisa quando Elvis descobriu. Agora, recordo às vezes a confusão daquela semana e me pergunto como foi possível que as coisas escapassem inteiramente ao nosso controle. Eu gostaria de ter tido a força para declarar na ocasião: "Vamos com calma. Este é o nosso casamento, com ou sem fãs, com ou sem imprensa. Vamos convidar quem quisermos e realizá-lo onde quisermos!". A impressão foi de que a cerimônia acabou um instante depois de começar. Fizemos as promessas. Éramos agora marido e mulher. Lembro dos flashes espocando, os parabéns de papai, as lágrimas de felicidade de mamãe. Eu daria qualquer coisa por um momento a sós com meu marido. Mas fomos imediatamente levados para uma sessão fotográfica, depois a uma entrevista coletiva e finalmente a uma recepção, com mais fotógrafos. Sra. Elvis Presley. Era diferente, soava muito melhor do que os rótulos anteriores, como "companheira constante", "namorada adolescente", "Lolita de plantão", "amante". Pela primeira vez, eu era aceita por todos os nossos conhecidos e pela maioria do público. Havia exceções, é claro - as que acalentavam alguma esperança de que um dia poderiam conquistar Elvis. Eu não podia compreender isso na ocasião. Estava apaixonada e imaginava que todas seriam felizes por nós. Senti-me orgulhosa quando li nos jornais que eu fora o segredo mais bem guardado de Hollywood; era maravilhoso ser reconhecida. Estavam encerrados os anos de dúvida e insegurança, sem saber se eu pertencia e a que lugar.

A noite de núpcias - Eu estava ao mesmo tempo exausta e aliviada quando finalmente voltamos a Palm Springs, no Learjet de Frank Sinatra, o Christina. Havia mais fotógrafos e repórteres à nossa espera quando desembarcamos e outros se postavam diante de nossa casa. Fiquei surpresa ao constatar que Elvis estava se comportando muito bem, levando em consideração o nervosismo que demonstrara por aquele compromisso supremo. Contudo, ele foi simpático com a imprensa e enfrentou tranqüilo os intermináveis pedidos de poses dos fotógrafos, algo que normalmente só podia suportar por curtos períodos. Além de todo o resto, não dormíamos há quase 48 horas. À sua maneira, Elvis estava determinado a fazer com que o dia do casamento fosse especial para nós. Ele gracejou com Joe Esposito, indagando: "É assim que se faz?". Ele carregou-me no colo pelo limiar da casa, cantando "Hawaiian Wedding Song". Parou e deu-me um beijo longo e apaixonado, depois subiu a escada e levou-me para o quarto, com toda a turma rindo e aplaudindo. Ainda era dia e o sol brilhava forte pelas janelas do quarto quando Elvis colocou-me no meio da cama enorme, com extremo cuidado. Tenho a impressão de que ele realmente não sabia realmente o que fazer comigo. Afinal, Elvis me protegera e salvara por muito tempo. Estava agora compreensivelmente hesitante em consumar todas as promessas sobre a excelência daquele momento.

Recordando agora não posso deixar de rir ao pensar como nós dois estávamos nervosos. Poder-se-ia até imaginar que era a primeira vez que ficávamos juntos em circunstâncias tão íntimas. Gentilmente, os lábios de Elvis se encontraram com os meus. Depois, ele fitou-me fundo nos olhos e disse, a voz suave, enquanto me puxava contra o seu corpo: "Minha esposa...amo você, Cilla..." Ele cobriu meu corpo com o seu. A intensidade da emoção que eu experimentava era eletrizante. O desejo e a intensidade que haviam se acumulado em mim ao longo dos anos explodiram num frenesi de paixão. Ele teria imaginado como seria para mim? Planejara durante todo o tempo? Jamais saberei. Mas sei com certeza que, ao passar de moça para mulher, toda a longa, romântica e ao mesmo tempo frustrante aventura que Elvis e eu partilháramos parecia ter valido a pena. Tão antiquado quanto isso possa parecer, éramos agora um só. Era algo especial. Ele fez com que fosse especial, como acontecia com qualquer coisa de que se orgulhasse. Tudo foi muito especial naquela noite.

Fonte: Priscilla Presley, no livro "Elvis e Eu"

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Elvis Os Anos Finais - Parte 27

Numa noite qualquer de 1977 lá estava Elvis, já devidamente vestido, apenas esperando sua deixa para ir fazer mais uma apresentação. Ao seu lado o onipresente Rick Stanley. Elvis estava agora sentado em uma cadeira de seu camarim, com as pernas em cima de uma pequena mesinha à sua frente. Ao seu lado um típico espelho desse tipo de local, com todas aquelas lâmpadas ao redor do reflexo do cantor. Elvis não se arriscava mais a se olhar no espelho com tanta freqüência como fazia antes, ele não se olhava mais tanto como costumava fazer antigamente. Seu famoso narcisismo andava muito em baixa depois de seus constantes aumentos de peso. O cantor conferia seus diversos anéis em seus dedos quando perguntou a Rick: "O que você achou dessa cidade?" Elvis estava prestes a fazer mais um show naquelas cidadezinhas perdidas das Carolinas. Nossa, como ele detestava esse tipo de situação! Rick respondeu: "Bem Elvis, é uma cidade pequena, mas hospitaleira! Acho que o show vai ser um sucesso!" Elvis não se empolgou com a resposta. Ele vinha cada vez mais se irritando com os locais que Tom Parker lhe arranjava para se apresentar. Cidades pequenas demais para ele, segunda sua própria forma de ver as coisas. "Vou falar com o Coronel. Não quero mais me apresentar em locais tão pequenos como esse!". No final de sua vida essa rotina iria cada vez mais se repetir para Elvis: a realização de concertos em pequeninas cidades do interior dos Estados Unidos. Muitas pessoas se perguntam como Elvis Presley, um dos maiores ícones da fama do século XX, acabou indo parar numa situação dessas?

Dono de uma das carreiras mais brilhantes e vitoriosas do show business norte-americano, conhecido nos quatro cantos do mundo, Elvis, após vinte anos de trajetória, estava no mesmo ponto em que começou muitos anos antes, ou seja, se apresentando nas mesmas cidades interioranas de seu país, cantando suas velhas canções, para o mesmo tipo de público que uma vez lhe acolheu em um passado distante! Como isso foi possível? Por que Elvis estava estacionado no mesmo ponto inicial de sua vida artística? Por que não avançou e não abriu novos e gloriosos caminhos? Ao invés de realizar mega concertos pelo mundo afora, ao invés de lotar ginásios e estádios ao redor do mundo, lá estava Elvis novamente...fazendo shows para um público de interior que já o tinha visto anos antes quando ele era apenas um cantor desconhecido! Ao invés de estar em Londres, Paris ou Berlim, fazendo turnês históricas, Elvis estava em um rincão perdido que nem mesmo os americanos conheciam direito. Até mesmo as grandes cidades dos Estados Unidos estavam fora do roteiro. Para Tom Parker a imprensa desses lugares pegava pesado demais com Elvis e por isso ele preferia levar o astro para cidadezinhas, onde nem mesmo existiam jornais diários. Os Beatles tinham demonstrado que não havia fronteiras para grandes nomes do rock mundial, se apresentando em praticamente todos os grandes países do mundo mas para Tom Parker isso não era relevante. Em vista disso Elvis Presley, que era tão popular quanto os Beatles, jamais se apresentaria profissionalmente na Europa, com seu enorme centro cultural de massa. O Coronel também rejeitou todas as propostas de levar Elvis para os grandes festivais de rock da época. Assim ele ficou isolado e... escondido.

Incrível, mas Elvis entrou em uma situação tão calamitosa que para ele, naquela altura de sua vida, só havia sobrado mesmo a opção de realizar um show atrás do outro, em qualquer lugar, mesmo em localidades que um astro de seu porte jamais deveria colocar os pés! Ao contrário de outras estrelas de sua época, que se apresentavam em poucas e selecionadas cidades (geralmente as maiores, os grandes centros populacionais), que cumpriam turnês com poucas e super produzidas apresentações, tudo aliado a vasta publicidade pela mídia, Elvis, sob as ordens de seu nada genial empresário, fazia o extremo oposto do que se esperava de um cantor na posição em que ele ocupava: centenas e centenas de apresentações, muitas vezes sem propaganda nenhuma, em pequenas cidades e nenhum grande impacto significativo no conjunto de sua carreira. Os palcos eram ridículos, sem estrutura, e não havia qualquer capricho em seus concertos. Afinal, quais foram as razões e quem foram os culpados que levaram Elvis a ter que cumprir uma agenda insana de concertos, sob condições de saúde adversas, em apresentações nada memoráveis e nada espetaculares durante os anos 70, sendo que em alguns casos sua exposição perante o público nada mais causava do que um arranhão em sua imagem? Por que ele nunca foi poupado dessas situações constrangedoras?

Essa é uma questão que coloca em xeque a péssima administração das organizações Presley! Certamente o primeiro grande culpado dessa total estagnação da carreira musical de Elvis tem um nome e todos já devem estar pensando nele nesse exato momento: Tom Parker. Um pensamento correto e justo, mas será que apenas ele deve ser culpado de tudo o que de ruim aconteceu com Elvis Presley em seus anos finais? Vamos analisar. Se formos puxar o fio da meada mesmo e ir a fundo na questão chegaremos facilmente à conclusão que Tom Parker pecou mesmo por pura e simples ignorância em um primeiro momento. Longe de ter uma formação adequada para administrar a carreira de um artista do porte de Elvis Presley, Parker era um sujeito limitado à sua vivência circense, aos seus dogmas, aprendidos na velha escola da vida de circo. Exigir uma visão histórica e contextual de uma figura dessas seria pedir demais, vamos convir. Parker certamente pensava que não havia diferença nenhuma na venda de ingressos para o show das atrações de circo itinerante onde ele cresceu das vendas de um concerto de Elvis Presley. Para ele o que importava era o momento, o aqui agora, o importante era embolsar a grana da bilheteria e dar no pé, esperando o público da próxima cidade. Para Parker o que importava era Elvis fazer o concerto, seja lá como fosse feito, embolsar o dinheiro e partir para a próxima, ou seja, a velha mentalidade mambembe de alguns dos mais ridículos circos que ele trabalhou durante sua vida! Ele também não deixou velhos hábitos, como o de vender balões com o nome de Elvis no meio do público, mesmo após Presley ter se tornado um astro de fama internacional. Era cômico, se não fosse patético. Ao invés de faturar milhões de dólares com Elvis pelo mundo afora, Parker ficava vendendo bugigangas que custavam centavos antes do cantor entrar no palco! Mais obtuso do que isso, impossível.

Erick Steve e Pablo Aluísio.

sábado, 8 de novembro de 2014

How Great Thou Art - Parte 3

Stand By Me (Charles Tindley) - Elvis tinha a discografia completa do grupo vocal The Harmonizing Four. Em sua opinião esse tinha sido o melhor grupo harmônico de todos os tempos. Ora, desnecessário concluir que dentro dessa opinião havia uma grande dose de subjetividade típica de um fã - e Elvis Presley era justamente isso em relação ao Harmonizing Four, um grande fã. A música original foi composta pelo pastor metodista Charles Alfred Tindley. Sua história é bem importante pois ele foi um dos primeiros pastores negros de Maryland e hoje em dia é considerado um dos pais da música gospel negra americana. Falecido em 1933 (dois anos antes do nascimento de Elvis) suas canções se tornaram muito populares em comunidades evangélicas do sul, onde Elvis certamente veio as conhecer, ainda garoto. Quando o The Harmonizing Four gravou a música em um pequeno acetato, Elvis obviamente adorou, pois era a reunião de uma velha canção de seus tempos de infância com as vozes de seu grupo preferido. Depois dessa união, mais cedo ou mais tarde, ele também faria sua versão, algo que se concretizou justamente aqui nesse premiado e belo álbum gospel de sua carreira.

Without Him (Myron LeFreve) - O autor Myron LeFreve escreveu essa canção quando tinha apenas 17 anos. Embora fosse membro de uma tradicional família religiosa, era bem conhecido também em sua adolescência por ser um sujeito rebelde e dono de opiniões bem próprias. Depois que escreveu a música resolveu que a iria apresentar numa convenção de jovens compositores em Memphis. Entre o público havia um ouvinte bem atento em sua apresentação: ele mesmo, Elvis Presley, que dono de intuição musical à flor da pele decidiu ali mesmo que um dia a gravaria. Após o show o próprio Elvis foi aos bastidores conhecer LeFreve que prontamente aceitou seu pedido de gravação. Esse fato é bem interessante pois revela um lado de Elvis que poucos chegaram a conhecer, a do descobridor de novos talentos. Esporadicamente Presley ouvia alguma composição que o atraía e ele próprio não tardava a levar para o estúdio, sem se importar se era um grande compositor consagrado ou um novato talentoso. Para Elvis rótulos como esses tinham pouca importância - o que importava mesmo era a melodia da música lhe tocar de forma bem particular.

So High (Tradicional, Elvis Presley) - Como era de se esperar algumas músicas religiosas não trazem o nome de seus autores originais. Isso porque ninguém sabe ao certo suas origens, elas apenas surgem dentro das comunidades evangélicas e de lá ganham o gosto de outras paróquias na mesma região. Pressume-se que "So High" tenha sido criada em meados do século 18, em pequenas capelas de comunidades evangélicas negras no Mississippi. Alguns historiadores americanos dizem que seus primeiros registros surgiram em uma pequena igreja batista localizada no condado de Franklin. De qualquer maneira o nome exato de seu compositor (ou compositora) se perdeu no tempo. Como fazia parte do repertório das igrejas daquela região (não podemos nos esquecer que Elvis nasceu em Tupelo, no Mississippi) fica bem claro que Presley a conhecia desde seus tempos de garoto. Nascida no meio dos fiéis, a música só chegou dentro da indústria fonográfica nos anos 1940, inicialmente na voz de Rosetta Tharp e depois em um belo registro vocal de LaVern Backer em 1959. Como Elvis foi creditado como arranjador desse álbum, seu nome constou como criador no selo original do disco "How Great Thou Art" quando esse chegou nas lojas em 1967.

Where Could I Go But The Lord (James B. Coats) - O autor dessa música, James Buchanan Coats, nasceu no mesmo estado natal de Elvis, o Mississippi. Ao contrário de outros compositores de canções desse álbum, ele não era negro e nem pastor religioso. Na verdade Coats era um professor branco de música, que ensinou por muitos anos em escolas públicas da região de Summerland, Mississippi. Como era um estudioso de música popular e religiosa, ele começou a escrever canções que tinham como base a mesma estrutura musical e melódica das que conhecia em sua cidade natal. Desse verdadeiro experimento acadêmico nasceram várias canções, entre elas essa popular "Where Could I Go But The Lord". J. B. Coats escrevia suas músicas pensando em quartetos negros de gospel music, por isso há uma riqueza de detalhes muito presente nas notas vocais que criava. Ideal para um cantor como Elvis e seu grupo de apoio na época. Infelizmente o autor da música não chegou a conhecer a versão de Elvis Presley, que de certa forma imortalizaria sua obra, pois infelizmente morreu em 1961, bem antes de Elvis gravar esse álbum religioso.

Pablo Aluísio.