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Welcome Home Elvis

Quando Elvis voltou do serviço militar no começo de 1960 havia uma enorma ansiedade sobre os rumos que sua carreira iria tomar. Também pudera. Quando Elvis foi convocado pelo exército americano ele estava no auge de sua popularidade como roqueiro. Embora os fatos não tivessem ligação entre si o que aconteceu durante seu período militar aumentou ainda mais o sentimento de ausência por parte de seus jovens fãs. Os demais roqueiros da década de 1950 sofreram uma série de tragédias pessoais, problemas com a lei e decadência artística que literalmente jogou o nascente Rock´n´Roll no chão. Haveria saída? Para a juventude desamparada só havia uma salvação para o gênero, a volta triunfal de seu grande Rei, Elvis. Mas seria essa a questão mesmo? Estaria Presley realmente interessado na ressurreição do antes bravo Rock´n´Roll ou estaria ele pronto para partir para outros caminhos musicais? Essas eram perguntas que todos faziam durante aqueles primeiros meses da década de 1960. A realidade mostrou-se bem mais interessante do que muitos supunham. A priori Elvis não abandonou literalmente o barco do Rock e virou suas costas a ele como muitos já escreveram. Seu primeiro disco após a volta à carreira civil demonstra isso. Elvis Is Back! era uma aula de musicalidade, Blues, Pop e Rock em doses generosas.

Claro que seu som sofreu modificações, Elvis deixou o som mais cru e simples de seus primeiros discos e investiu em novos arranjos mais consistentes e harmônicos. Não era um ato de simplesmente virar as costas para o Rock mas sim procurar novos rumos musicais. As primeiras sessões que realizou em Nashville demonstram bem isso. Ecletismo talvez fosse a palavra mais adequada para esse novo caminho musical que Elvis iria percorrer. Outro acontecimento marcante era o fato de Elvis começar a se interessar em canções que lhe trouxessem mais respeito como cantor. Músicas como It´s Now Or Never foram incorporadas aos discos justamente por essa razão, sua aproximação com a sonoridade de grandes ícones do passado como Mario Lanza, que Elvis tanto admirava, era o sinal mais claro de suas reais intenções e pretensões. Outro aspecto a se considerar foi a gravação de um programa de TV ao lado do cantor Frank Sinatra. Elvis e o Coronel poderiam ter fechado um contrato para se apresentar em qualquer canal ou programa que quisessem porém quando Sinatra fez uma oferta irrecusável para que Elvis retornasse a TV justamente em seu programa televisivo o Coronel não pensou duas vezes. Mas afinal qual era o real interesse de Parker com colocar Elvis e Sinatra lado a lado cantando para a nação americana em horário nobre? Simples, o Coronel queria mostrar para a família norte-americana o novo Elvis! Recém saído do serviço militar com ficha impecável, rigorosamente bem vestido e se portando da melhor forma possível e de quebra se apresentando ao lado de Frank Sinatra, o maior ídolo dos pais de seus jovens fãs dos anos 50. Tom Parker armou muito bem e conseguiu inverter completamente aquela imagem de "jovem selvagem, roqueiro alucinado" que os mais velhos tinham concebido de Elvis nos anos anteriores. A metamorfose estava completa. Até mesmo comentários desabonadores de Sinatra em relação ao rock e a seus artistas foram esquecidos pelo próprio quando contratou a preço de ouro o passe de Elvis por uma noite.

Frank Sinatra era um homem de opinião certamente, mas também naquela altura já era um ambicioso homem de negócios dentro do show business ianque. Como seu programa vinha declinando de audiência a cada mês ele resolveu apostar alto e trazer Elvis, que era naquele momento o assunto mais comentado na mídia mundial. Infelizmente o futuro demonstraria que artisticamente o programa em si seria muito abaixo das espectativas de um encontro dos dois maiores cantores do século XX. Infortunamente o lado publicitário do evento suplantou em muito o aspecto meramente artístico que um encontro desses poderia proporcionar. Elvis e Sinatra apenas apresentaram um dueto fraco, cheio de brincadeiras entre ambos, e que trouxe pouco para a carreira desses fantásticos artistas. Nada de muito relevante foi feito e por isso a crítica especializada tenha sido tão dura quanto à qualidade do especial. A Billboard, por exemplo, criticou a pobreza da produção e até os modos de Elvis durante o especial: "A dinamite tão esperada foi subestimada e colocada de maneira por demais polida. Tivemos a impressão que Presley tem muito a aprender para conseguir interpretar no estilo de um Sinatra, de um Joey Bishop e especialmente de um Sammy Davis Jr. Este simplesmente estraçalhou o show. Elvis tem o hábito que causa a impressão de nunca estar tranquilo. Não admite que alguém cante seus números. Na verdade ele necessita de um trato para aprender a falar e se comportar". Os jornais de um modo geral demonstraram desapontamento com o resultado final do programa. Elvis se limitou a apresentar seu novo single Stuck On You, seguido de seu lado B, Fame and Fortune, e como encerramento um dueto muito abaixo do esperado com a dobradinha Witchcraft / Love Me Tender ao lado de Sinatra. Muito pouco para o que poderia se esperar de um evento tão importante como esse. Mas será que o programa realmente foi tão ruim assim?

A TV americana nos anos 60 era voltada para a classe média suburbana daquele país. Eram os únicos que podiam comprar uma Televisão, que naquela época ainda era um luxo ao alcance de apenas uma pequena parcela da população. Assim o importante era o entretenimento, acima de tudo. Elvis e Sinatra no palco apenas fizeram aquilo que era a média do que era exibido na época. Antes de Elvis aparecer na TV na parte final do programa a trupe de Sinatra se esbaldou com a audiência extra que sua presença trouxe e apresentou vários números musicais. Juntos, Frank Sinatra, Nancy Sinatra, Joey Bishop e Sammy Davis saúdaram o retorno de Elvis com a música It’s Nice To Go Travelling. Sinatra cantou seus grandes sucessos Witchcraft e Gone With The Wind e Sammy Davis interpretou There’s A Boat That’s Leaving Soon For New York. Fora isso não poderia faltar os diversos números cômicos tão característicos do chamado Rat Pack. Agora imaginem esse tipo de coisa sendo assistida por fãs que se consideravam órfãos do Rock da época! Não deve ter sido nada fácil. Talvez por isso criou-se tão fortemente na consciência coletiva a idéia de que Elvis simplesmente virou as costas para o Rock. Quem estava assistindo o programa esperando encontrar o jovem selvagem interpretando Ready Teddy com fúria, como aconteceu nos programas dos anos 50, realmente tomou um susto quando Elvis cantou suas novas músicas. Stuck On You era uma boa canção, com uma levada extremamente agradável, bem ao estilo pop e Fame and Fortune tinha uma vocalização que não ficaria estranha na voz até mesmo de um Sinatra.

Eram músicas interessantes mas não era aquilo que se esperava de um "messias redentor" que estava voltando para resgatar o Rock das trevas. A tal "dinamite" como bem afirmou a Billboard não explodiu como todos esperavam. Era o Novo Elvis, concebido por Parker certamente. De qualquer forma para o Coronel naquela altura o que importava não era a opinião dos jovens fãs de Elvis, pois esses já estavam devidamente conquistados na visão dele. A intenção do empresário de Elvis era clara nesse sentido. O que importava mesmo era a opinião dos mais velhos que assistiram ao encontro, Elvis deveria ser consumido não apenas pelos roqueiros de outrora, mas também por seus pais, tios e avôs. Se essa era a real intenção de Parker então ele conseguiu completo êxito. Financeiramente a forma de ver a situação por Parker era completamente correta. Ora, se Elvis era um produto que só interessava a uma parcela da população (os jovens) então era dever de Parker como homem de negócios vender Elvis também para a outra parcela da população (os mais velhos). Levantar dólares era sua função, então se os mais velhos também começassem a consumir os discos e filmes de Elvis, ótimo! Porém existe também o outro lado da questão. Ideologicamente, para quem vê o Rock como algo mais do que um gênero musical, mas também um estilo de vida, contestador e revolucionário por natureza, a estratégia de Parker foi simplesmente desastrosa. Para esses não há perdão, Elvis simplesmente não quis mais saber de se envolver com Rock´n´roll e pulou fora para ser recebido de braços abertos pela ala mais conservadora da sociedade norte-americana. Foi acima de tudo um traidor do movimento, no apagar das luzes.

Embora convincente em certos momentos, essa é uma forma simplista de entender o contexto histórico em que tudo aconteceu. É certo que Elvis explodiu com a primeira geração de roqueiros mas mesmo dentro de seus discos nos anos 50 podemos perceber que o Rock era apenas uma face de sua linguagem musical. No final a tão comentada "virada" em sua carreira no começo dos anos 60 nada mais seria do que apenas a continuidade do que ele sempre fez, porém vista sob uma nova ótica. Obviamente que nos anos que viriam Elvis se tornaria apenas um cantor contratado dos estúdios de gravação e de cinema, sem controle sobre o material que lhe era imposto, principalmente na pior fase de suas futuras trilhas sonoras, porém em 1960 isso ainda não era algo definitivo, embora se mostrasse presente. Assim aquele encontro com Sinatra acabou se tornando um sinal dos tempos que estavam por vir, com Elvis perdendo gradativamente sua liberdade artística em prol do sucesso fácil e de rápido consumo, lição aliás já devidamente aprendida e seguida ao pé da letra pelo próprio Ol' Blue Eyes. A América e Elvis finalmente perdiam a inocência.

Welcome Home Elvis! Local de gravação: Fountainbleau Hotel, Miami / Data de gravação: 26 de março de 1960 / Data de exibição: 12 de maio de 1960 / Direção musical e arranjos: Nelson Riddle / Produção: Sammy Cahn & James Van Heusen para a Hobart Productions / Direção: Richard Dunlap / Convidados: Elvis Presley, Nancy Sinatra, Joey Bishop, Sammy Davis Jr. Peter Lawford & The Tom Hansen Dancers / Músicas: 1. It’s Nice To Go Travelling-Frank Sinatra, Nancy Sinatra, Joey Bishop, Sammy Davis, Tom Hansen Dancers. Timex introduction sequence 2. It’s Nice To Go Travelling (reprise)-Elvis Presley Joey Bishop/Frank Sinatra comedy routine 3. Witchcraft-Frank Sinatra Frank Sinatra introduces Sammy Davis 4. There’s A Boat That’s Leaving Soon For New York-Sammy Davis Frank Sinatra introduces oriental dance routine from The Tom Hansen Dancers Joey Bishop/Frank Sinatra/Sammy Davis comedy routine 5. Gone With The Wind-Frank Sinatra Joey Bishop introduces Tom Hansen Dancers routine Frank Sinatra introduces Sammy Davis Jr Impersonation routine, with Peter Lawford, Joey Bishop and Frank Sinatra, includes All The Way performed by Sammy as Tony Bennett, Louis Armstrong and Dean Martin. 6. Fame & Fortune-Elvis Presley 7. Stuck On You-Elvis Presley 8. Witchcraft/Love Me Tender Medley Duet-Frank Sinatra & Elvis Presley 9. You Make Me Feel So Young-Frank Sinatra & Nancy Sinatra - Nancy Sinatra Dance Routine 10. It’s Nice To Go Travelling -Frank Sinatra

Pablo Aluísio

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