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Blue Hawaii e o Sonho Americano

Ahhh... o sonho americano... Como era belo o sonho americano nos anos 1960. Tudo era maravilhoso, o país estava em paz no começo da década, o presidente eleito era um jovem senador de nome John Kennedy, o país estava com a economia próspera e rica, a esperança encontrava morada em cada casa suburbana da América. O americano padrão tinha seu emprego, seu carro na garagem e uma bela casa onde morar. O céu era azul, o mar era lindo (e limpo) e as crianças cresciam felizes. Que mundo maravilhoso não? Nas férias o cidadão americano tinha um sonho de consumo: viajar ao Havaí, as ilhas do pacífico que tinham se transformado no 50º Estado (por favor esqueçamos por hora a péssima letra de Paradise Hawaiian Style ok?). Que beleza... E pensar que hoje o velho sonho americano se transformou numa barraca de camping no meio da rua, na falta de emprego e perspectivas, na quebradeira das empresas símbolos do velho capitalismo ianque (com a outrora rica e poderosa GM passando o pires para evitar sua própria derrocada), em filhos mal educados gritando palavrões que aprenderam ao ouvir Rap e outras bobagens... enfim. Vamos deixar o caos em que vivemos e vamos voltar no tempo, quando essa ilusão era bem mais realista e concreta.
 
Ahhh... o sonho americano... Blue Hawaii é isso aí, o sonho americano. Elvis em 1961 completava sua metamorfose como artista e deixava de uma vez por todas sua imagem roqueira e rebelde para se transformar no exemplar cidadão norte-americano. Ela já tinha virado a bandeira de Tio Sam em G.I. Blues e agora completava o processo, virando o melhor guia turístico que uma dona de casa do subúrbio poderia imaginar. O filme é justamente isso, um passeio açucarado nos maiores ideais gringos da primeira metade dos anos 1960. Muito longe ainda da contracultura que nasceria, dos hippies mal cheirosos e da música de protesto, Elvis e seu filme trazia o supra sumo do American Dream. Em troca a sociedade americana proporcionou o maior sucesso de toda a sua carreira. Blue Hawaii foi um fenômeno sem precedentes, quebrando todos os recordes de bilheteria e venda de discos. O Coronel Parker ficou extasiado com o êxito alcançado. Ele próprio havia elaborado o plano de transformar Elvis em um produto de consumo familiar. Apesar do risco ele vinha realmente alcançado um sucesso após o outro e com Blue Hawaii consolidaria sua intenção.
 
Com esse enorme sucesso comercial Elvis abandonou definitivamente o Rock e abraçou o pop romântico de Hollywood. Comercialmente pode ter sido uma boa idéia mas artisticamente esse passo foi completamente em falso. Ao ouvir a trilha sonora de Blue Hawaii podemos perceber como um produto pode ficar velho e caduco. Sem o embasamento ideológico que sustentou esse projeto nos anos 60 tudo cai por terra. Embora ainda haja espasmos de talento de Elvis o produto em si soa completamente antiquado e fora de propósito nos dias de hoje. Blue Hawaii envelheceu e envelheceu mal. A própria faixa título soa pomposa e kitsch. Nunca a vocalização de Elvis soou tão pretensiosa como aqui. Ele se esforça para seguir os passos de Bing Crosby, mas a pergunta que surge em nossa mente é justamente essa: Que jovem iria ligar para Bing Crosby nos anos 60?
 
A resposta é simples. Elvis deixou de cantar para a garotada para cantar para os pais deles. Totalmente engomadinho, com um arranjo havaiano soando completamente falso, Elvis expõe involuntariamente, apenas com essa música, as tripas do American Dream: cheio de pompa por fora, mas completamente vazio e oco de conteúdo por dentro. Ahhh... o sonho americano... Almost Always True, a música que vem logo a seguir, já foi chamada de "roquinho" mas isso é uma heresia com o verdadeiro Rock´n´Roll. Tudo não passa de popzinho meloso de fazer corar Brenda Lee. O desastre é completo logo a seguir com Aloha Oe, uma das coisas mais pavorosas que Elvis Presley já cantou na sua vida. Como toda trilha sonora de Presley esse é mais um caso de altos e baixos, No More, que vem logo a seguir, conseguiu sobreviver ao tempo e hoje soa bastante agradável, o que definitivamente não quer dizer grande coisa para quem era o maior ídolo da música mundial.
 
A única canção realmente imortal dessa sacarose toda é Can´t Help Falling In Love que virou a apoteose de todos os seus shows nos anos 70. O arranjo foi extremamante feliz e o resultado final, temos que admitir, é belíssimo. A versão de estúdio inclusive jamais foi superada em termos de beleza por qualquer outra gravada nos anos seguintes. Definitiva. Depois disso não há nada digno de nota ou de importância na trilha. As músicas, todas forçando uma barra daquelas para parecerem autênticas "havaianas", nos levam a pensar como os americanos no fundo são bobos e ingênuos. Afinal quem eles querem enganar, buana? Para esclarecer a situação pensem no seguinte exemplo: imaginem um bando de gringos americanos no Rio de Janeiro gravando um disco de sambas de raiz!!! Um troço desses pode dar certo um dia?! É justamente isso, o restante da trilha é uma tentativa pra lá de mal sucedida de um bando de sulistas da Gringolândia de convencer a todos que são verdadeiros nativos locais do Havaí!!! Pode uma coisa dessas?! Pessoas que nunca tinham pisado no Havaí ou vivenciado a rica cultura do Pacífico Sul tentando soar verdadeiros e genuínos.
 
Não dá... Simplesmente não dá. Seria melhor que eles gravassem um disco de Polca para soarem melhor. É uma questão de cultura, americanos cantando músicas de outros países jamais soarão verdadeiros, não tem como. É a mesma coisa que colocar havaianos verdadeiros cantando músicas do folclore alemão!!! Não tem como, eles nunca vivenciaram as experiências desse povo, sua bagagem cultural não bate, não há como transformar algo tão "fake" em algo digerível. Nunca um material desses irá soar verdadeiro. Afinal o que esses branquelos queriam ao tentar imitar a sonoridade dessas ilhas?! Na verdade devo confessar que quando ouço essas faixas meu estômago embrulha. É muito talento (no caso de Elvis) jogado fora.
 
Porém, embora equivocadamente idealizado, o material "Havaí pra gringo ver" fez sucesso e ganha agora sua edição pelo selo FTD. São dois CDs, com a trilha sonora original e muitos takes e tentativas de estúdio. Agora imaginem esse que vos escreve (que definitivamente acha todo o material fraco e falso) sendo obrigado a ouvir tudo de novo, ainda mais em um álbum duplo desses?! Pois eu ouvi. Minha opinião não mudou nem um centímetro. A trilha continua soando insossa e fraca, com poucos momentos dignos de nota. Pensando bem... algo assim só funcionaria mesmo se eu vivesse nos Estados Unidos em 1961, se tivesse minha casa no subúrbio, minha esposa loira (e burra), meu cachorrinho Rex e duas criancinhas WASP... Fora isso não tem condição de apreciar algo assim.
 
Ahhh... o sonho americano...
 
Erick Steve

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