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Elvis Presley, Pearl Harbor, 1961

Well...Well...Well...

Quando recebi o convite para escrever uma coluna sobre Bootlegs no site do Pablo Aluísio eu morri de rir! Não ri do convite em si, mas sim do enorme desafio que iria significar aceitar esse tipo de coisa! A primeira coisa que disse ao Pablo foi "Tá louco amigo?! Se eu entrar numa encruzilhada dessas nunca mais saio com vida!" Eu já estou há tanto tempo envolvido nesse negócio de Bootlegs que a primeira coisa que pensei foi: Por onde começar uma caminhada dessas?! Onde eu iria me meter?! Esse universo é tão vasto e bagunçado que nem sequer saberia como dar início a uma jornada insana dessas! Isso me levou a lembrar de algumas coisas da minha vida que acho bem interessante trazer à tona porque tem tudo a ver com o que vou escrever!

O mundo dos Bootlegs é o mundo da vira latice Elvistica! Esqueçam organização, classe, qualidade de som, legalidade, esqueçam! Eu sei do que estou falando... vai por mim! Eu sempre fui um vira lata de raça (fala sério, vocês já leram definição mais maluca que essa?! Eu morro de rir com meus devaneios!). Eu sempre fui um vira lata dos Bootlegs porque quem coleciona esse tipo de coisa é isso mesmo: sabe aquele cara que topa ouvir qualquer coisa? Qualquer lixo sonoro? Que vai atrás e corre para revirar as latas de lixo da história? Pois é... entenderam a idéia por trás da definição?! Welcome to my World!

Eu coleciono esse tipo de material desde 1978! Já perdi a conta de quantos títulos tenho, aliás eu nem sei por onde anda muitos deles. Muitos ficaram na casa de meus pais na Inglaterra! Não havia como levar uma mala cheia de discos para a Universidade, ainda mais quando ela ficava em outro país, em outro continente! Como sei que minha mãe sempre foi uma pessoa muito organizada tenho certeza que eles estão muito bem guardados lá no meu velho quarto, de meus tempos de solteiro, em Londres! Pelo menos assim espero! Aliás vou até mesmo depois ligar para saber deles! Se esse artigo for um fracasso total pelo menos me serviu como lembrete para resgatar meus velhos piratas britânicos! Eu preciso catalogar minha coleção, isso sim! Alguns desses Bootlegs são raridades absolutas que espero reencontrar quando voltar à casa ainda nesse ano! Mas peraí... eu tenho que escrever sobre bootlegs, voltemos, voltemos...

Nos bons e velhos tempos, quando eu morava na Inglaterra, eu ganhei um apelido entre meus amigos ingleses por causa dessa minha verdadeira mania de colecionar esse tipo de material: Erick, o Viking! Isso porque eu sempre estava navegando pelos lugares mais obscuros de Londres e cidades inglesas próximas atrás de materiais absurdos envolvendo Elvis! Isso foi muito antes da Internet e até mesmo da popularização do CD! Eu estou me referindo a uma época muito legal mesmo para ser um Bootlequeiro (crianças, essa palavra não existe viu? Foi criada agora pelo insano titio Erick!) Naquela época pioneira tinha de tudo: reunião de fãs para audição de material raro, leilão de discos impossíveis, quebra pau e muita briga para ver quem levava aquele disco pirata de outro planeta! Ah... tempos heróicos! Hoje isso não existe mais, basta baixar pela internet!

Isso é que me faz rir de verdade! Vocês já pararam para analisar o absurdo da situação? Um Bootleg (gíria que nasceu na Inglaterra) é por definição um disco pirata, ilegal, bucaneiro, ou seja, que não paga nenhum tipo de direitos autorais para os verdadeiros donos da marca oficial "Elvis Presley". Por anos e anos eles contrabandearam material raro de Elvis mas hoje eles estão fritos! Quando um jovem baixa um Bootleg no conforto de sua casa, ele está na verdade pirateando o pirata! Já imaginaram uma coisa dessas? Sublime ironia do destino!

O disco que vou tratar agora traz um show em Pearl Harbor realizado por Elvis Presley em 1961. A razão que me fez escolher esse título é simples: ele foge do convencional. Existem milhares de Bootlegs dos anos 70 mas o campo que envolve os primeiros shows de Elvis nos anos 50 é mais restrito e esse concerto no começo dos anos 60 é mais restrito ainda. Conheço três Bootlegs que trazem essa apresentação. Tenho os três, embora vou usar como referência nesse artigo o Elvis Live Pearl Harbor que tem uma qualidade sonora muito melhor do que a dos outros dois! Nesse mundinho ninguém pode afirmar que existem apenas estes três títulos, podem existir muitos outros, estou me baseando apenas no material de meu acervo pessoal, ok?

O responsável pelo títulos de Elvis pelo selo FTD tem dito em entrevistas que vai lançar esse show como se fosse grande coisa! Pode até ser para os marinheiros de primeira viagem, mas para esse velho corsário que já navegou tantos mares isso não é nada demais. Sem novidades no Front! O primeiro pirata que adquiri trazendo esse show se chamava The Pacific War Memorial Comission Presents In Person Elvis and His Show, Pearl Harbor March 25th, Ufa! Isso é lá nome que se dê para um disco?! Coisas de Bootlegs da velha guarda. O selo, se é que isso importa, era da Bloch Records! Cara, isso não existe! Esse nome de fantasia foi tirado do local onde Elvis se apresentou, a arena onde o show foi feito! Esses piratas não tomam jeito mesmo...

Eu o comprei em 1989 em Londres, numa loja especializada. Ele é um vinil duplo com muitas fotos bonitas em seu encarte interno. É uma edição de luxo para colecionadores. Tem até um texto escrito por um tal de John Duguit, que apesar do nome de cientista político, também não deve existir. Muito provavelmente deva ser o cara que comprou as gravações e para dar um ar de respeitabilidade ao disco inventou esse nome! Não disse que esse é o mundo da vira latice Elvis?!

Mas deixando isso de lado devo confessar que na primeira vez que eu o ouvi fiquei realmente impressionado! Uma coisa é você ler sobre uma apresentação e eu já tinha lido tanto sobre esse show que já estava enjoado. Mas quando coloquei a velha agulha (lembram dela?) para rodar foi mágico! Lá estava eu ouvindo Elvis em uma de suas únicas apresentações ao vivo na primeira metade dos anos 60! Fantástico. Legal mesmo foi que essa sensação de descoberta estava misturada com a sensação de conquista porque eu o tinha arrematado num leilão da loja de discos! Imagine a luta e a tensão? Isso era o que fazia a diferença, era como ter um tesouro perdido só pra você! Genial...
Mas esse ainda não seria o título que mais iria me satisfazer em termos de qualidade sonora. Foi apenas a apresentação, a primeira audição. Em 1990 saiu, agora já em CD, um segundo título com esse show. Essa edição é meio banal entre os colecionadores ingleses porque muita gente comprou! A melhor viria um ano depois no CD Elvis Live Pearl Harbor.

No mundo dos Bootlegs o que vale é a raridade. Se você tem algo que todos possuem, então você não está com nada! Esse selo que lançou o Elvis Live Pearl Harbor é irlandês! Ireland Records deve ser outro nome de fantasia que não significa nada! Vocês acham que alguém no começo dos anos 90 iria colocar o endereço da gravadora pirata no rótulo? Ainda mais sendo irlandeses! Sem chance! Só se eles tivessem a vontade masoquista de irem em cana! Fala sério! Acredito que Ernst Jorgensen muito provavelmente irá utilizar esse material como base do lançamento do selo FTD, isso claro se ele for esperto o bastante!

A capa desse disco não é tão bonita como a do primeiro que comprei, cheio de fotos e toda produzida, nada disso! A capa era a reprodução do cartaz original do show feito no Hawaii com duas listas azuis marinho ao lado! A foto de Elvis desse cartaz foi tirada da capa do disco Elvis Gold Records vol.2. Os "produtores" pelo menos tiveram a dignidade de serem fiéis ao acontecimento, ao show. Ainda bem que eles não tascaram uma capa qualquer de Elvis nos anos 70 em cima do disco, pois assim teriam estragado tudo! Do jeito que ficou tá bom, é nostálgico e afinal das contas esse é o material de divulgação da época! É tosco?! Claro, naquela época um cartaz de show de Elvis era mais do que simples, era econômico! Alguém aí lembrou do nome de Tom Parker?...

Se você pensa que a foto aí do lado foi tirada durante os anos 50 está muito enganado. A foto foi registrada na apresentação de Elvis para o Memorial do USS Arizona, navio da armada americana que foi a pique no bombardeio dos japoneses sobre a base naval de Pearl Harbor, fato que levou os Estados Unidos a entrarem na II Guerra Mundial. Esse show foi beneficente, mas a despeito de toda a boa vontade temos que levar em conta que ele na verdade acabou virando uma tremenda publicidade para Elvis e o Coronel. Veja, Elvis estava em alta, tinha servido o exército, deixado de lado um pouco esse negócio de Rock'n'Roll que já estava fedendo com os escândalos envolvendo músicos e empresários e agora estava curtindo uma nova fase, a do patriota Elvis, do exemplar rapaz americano que serviu à nação quando foi chamado! Meio sacal esse papo não?...

E aí? O Roqueiro Elvis The Pelvis estava morto e enterrado? Ainda não, na verdade ele deu os últimos suspiros exatamente aqui nesse show! Essa apresentação serve para nos dar uma visão do que seria Elvis ao vivo durante os anos 60 se o Coronel não tivesse tido a péssima idéia de tirá-lo dos palcos e afundar um dos maiores mestres na arte de cantar ao vivo em um monte de filmes patetas... Valha-me Deus!

Em poucas palavras: Elvis ainda era o Rei do Rock quando subiu no palco da Bloch Arena em 1961! O show é maravilhoso da primeira a última faixa! Você pensa realmente que o Elvis dos anos 70 foi o melhor em cima de um palco? Você está precisando ouvir essas faixas meu amiguinho Bootlequeiro! Sex appeal? As garotas não param de gritar nunca! É demais, de arrepiar mesmo o show! Que Elvis dos anos 70 que nada!

Poxa! Nos anos 70 Elvis assassinou muitos de seus clássicos mas ouvir uma versão de A Fool Such As I ou All Shook Up como as que são executadas aqui não tem preço! O Arranjo de All Shook Up é igual, idêntico ao que você ouve na versão original dos anos 50! A galera bate palmas para acompanhar o ritmo, gritinhos abafando e muita alegria e descontração! Quem deseja mais do que isso?! Depois de conversar um pouquinho o Rei (Aqui "Rei do Rock" mesmo, de verdade!) dá a deixa para a introdução inigualável de A Fool Such as I, o que nos deixa sem fôlego! Elvis brinca, se diverte muito... e os Jordanaires? Estão impecáveis! Se você já está cansado de ouvir aquela velha versão dos anos 70 de I Got a Woman prepare-se! Essa fantástica faixa traz Elvis com uma energia e um alto astral fora do comum. O que mais me agrada é que essa versão é totalmente fiel à do disco Elvis Presley de 1956! Ninguém precisa de orquestra para esse tipo de música, isso meu amigo se chama Rock'n'Roll e não precisa de corneta nenhuma! Ao ouvir I Got A Woman com Elvis nesse show você vai entender o que escrevi!

Such A Night é outra que não deixa pedra sobre pedra! A melhor versão de uma música de Elvis Presley ao vivo que já ouvi! Já pensou na responsabilidade dessa afirmação? Por quê Elvis não a aproveitou em 1969 quando voltou aos palcos já que ela trazia tanta reação positiva do público? Não consigo entender isso! Os últimos momentos da faixa são mitológicos, a guitarra, a galera gritando enlouquecidamente e pra terminar de coroar o disco Elvis emplaca uma versão mais do que envenenada de Reconsider Baby, complicado é ouvir com tanta gritaria! Fantástica! Volto a afirmar: as versões de Reconsider Baby dos anos 70 são fichinha perto dessa aqui! O Solo de Boots Randolph coloca toda aquela orquestração ao estilo de Las Vegas dos anos 70 no bolso! Meu Deus, Meu Deus, por que ao invés de ir para Hollywood filmar todos aqueles abacaxis Elvis não fez uma turnê mundial nos anos 60 cantando como aqui? Meu Deus...Me dais paciência...

Algumas versões de I Need Your Love Tonight desse show que ouvimos em alguns CDs estão bem estragadas, chegando a sumir o som lá pelo meio da apresentação, mas aqui não, podemos ouvir tudo tranqüilamente. Essa versão é muito mais rápida do que aquela que você está acostumado! Ela está ritmada com um motor V8 se é que vocês me entendem! Que grupo é esse? Os caras estão de arrasar de tão bons... A primeira vez que a ouvi eu perguntei a mim mesmo: Pô! Que música é essa?! Claro que bastou alguns segundos para eu a reconhecê-la! Nota 10 é pouco! That's All Right é apresentada tal como ouvimos no compacto da Sun! Tá bom para você? Elvis se enrola, muda a ordem dos versos, mas quer saber, ninguém liga, todo mundo está gritando mesmo!

Elvis apresenta Don't Be Cruel como sua "grande gravação"! Na hora em que ele canta "Uhhhhh..." a casa vem abaixo! Me lembrei imediatamente de todas as versões inesquecíveis dele, dessa mesma canção, nos maravilhosos anos 50! Dessa fase mitológica eu não poderia deixar de citar a versão mais rocker que já ouvi de Hound Dog! Tá pensando naquelas versões ridículas dos anos 70 que duravam míseros segundos! Meu chapa você não ouviu nada! São mais de três minutos do mais puro Rock'n'Roll! A platéia enlouquece literalmente, em vários momentos nem conseguimos ouvir Elvis direito! Não é porque a qualidade de som seja tão ruim assim, mas sim porque o pessoal ia a loucura mesmo, sem essa de papo furado ao estilo Las Vegas! A empolgação aqui é jovial, de jovens, não de casais mergulhados na cafonice e laquê da cidade do pecado! Uma platéia jovem faz toda a diferença do mundo! Eu fico pasmo quando alguém me aparece pela frente e afirma que não gosta muito do estilo de Elvis nos anos 50! Tá louco rapaz?! Sai de perto de mim que de Elvis Presley você não sabe nada! Sai de perto! Lava!

Esse é o Elvis Presley que eu adoro! Esse é o Elvis Presley que eu sou fã! Nada de melancolia ou fossa eterna! A essência de Elvis Presley é essa aqui: alegria, alto astral, jovialidade, rebeldia... Elvis entrou para a história não como o cara triste que cantava músicas para "suicidas em potencial". Não, nada disso. Elvis entrou para a história como o "Rei do Rock"! O resto é papo furado de quem gosta de novela mexicana...

Infelizmente esse é o último show de Elvis até 1969! Alguém poderia me explicar como pôde acontecer um troço desses? Elvis deixou de brilhar nos palcos para estrelar coisas bizonhas e bizarras como "Harum Scarum" e "Paradise, Hawaiian Style"?! Como se conformar com algo desse tipo? Como?! Depois que Elvis se despediu dos shows ao vivo muitos disseram que ele perdeu para sempre a coroa de Rei do Rock. Uns carinhas cabeludos vindos da Inglaterra iriam desembarcar nos EUA nos anos seguintes e usurpariam o título que um dia foi dele! Só podemos lamentar mesmo ao constatar que realmente o Elvis Rocker morreu aqui nessa mesma noite em Pearl Harbor, muito provavelmente afundando para sempre ao lado do USS Arizona... Descanse em paz Elvis!

Erick Steve

3 comentários:

  1. Erick e Pablo;

    A mais de 25 anos u vi em uma loja de disco um vinil com o Elvis, o Jerry Lee Lewis, o Johnny Cash, e vários outros ídolos do rock fazendo uma jun session na Sun Records. Eu me lembro que havia guitarras desafinas,vocais também eram bem bagunçados, mas eu adorei. O dono da loja não quis me vender essa raridade e eu nunca mais vi outro. Será que esse era um Bootleg?

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  2. Sim, Serge, é um bootleg, se chama "Million Dollar Quartet". Abraços, Pablo Aluísio.

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  3. Me identifiquei bastante com essa analise, compartilho dessas mesmas ideias expressas no texto. Para mim o lugar de Elvis era no palco, nada de fazer muitos filmes sem sentido, mas sim fazer shows e turnes. Os anos 60 tinha tudo pra ser brilhante e majestoso, mas tudo foi por agua a baixo quando Elvis se dedicou loucamente aos filmes. O Elvis da decada de 60, na mimha opinião, estava no auge de sua forma, tanto fisica como vocal, e isso pode ser ouvido nos melhores albuns do rei: Elvis Is back(pra mim o melhor em toda sua carreira), Something for evrebody e Pot Luck. Elvis devia ter deixado os filmes em segundo plano e se dedicar mesmo aos shows. O Elvis dos anos 50 e 60, pra mim, é muito superior do que o dos anos 70, que é um Elvis chato,depressivo e totalmente descontextualizado. Elvis é o rei da juventude, nada de ficar cantando musicas de fossa profunda como Pices of my life ou Hurt, não, Elvis é rock, virilidade e revolução.

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