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Elvis está vivo - e faturando

Unindo o bamboleio do corpo ao balanço da música, o rei do rock - morto há vinte anos - se tornou o ídolo mais rentável do planeta

Nem a morte conseguiu matar Elvis Presley. Neste fim de semana, cerca de cem mil fãs de várias partes do mundo estão em vigília de vela na mão, em frente a Graceland, Memphis, a mansão em que Elvis morou e de onde passou para a eternidade no dia 16 de agosto de 1977. Os hotéis estão lotados: a galera acampou pelas calçadas e parques. Todos vão visitar, em procissão, o túmulo do Rei do Rock, no jardim de Graceland, e comprar souvenirs. Acontece todo ano. E Elvis está mais rico do que nunca.

Ao morrer, deixou uma fortuna avaliada em pouco mais de 5 milhões de dólares, venda de mais de um bilhão de discos e salários de 33 filmes (grandes sucessos de bilheteria) em que participou. Sua filha Lisa Marie herdou tudo. Graças a gerência da ex-mulher Priscilla, o espólio de Elvis vale agora mais de 300 milhões de dólares.

Rei morto, Rei posto. Mas não Elvis, que já ultrapassou a categoria de mito e virou instituição nacional, ícone popular, acima de James Dean, que ele adorava, e Marilyn Monroe. Como marca registrada, é o exemplo mais poderoso de capacidade de renda póstuma - gerou uma indústria de meio bilhão de dólares. É venerado por mais de 500 fãs-clubes internacionais; acadêmicos estudam o fenômeno e sua influência na cultura americana; especialistas escrevem sua biografia; existem restaurantes (dez projetados nos EUA e diversos países) com cardápio Elvis (sanduíche de manteiga de amendoim e banana frita, entre outros pratos gordurosos); e a venda das gravações de Elvis, que há muito ultrapassou um bilhão de discos e CDs, e continua a crescer à medida que o mercado se expande (China e Rússia) e novas gerações o descobrem.

Ainda se debate o que teria feito de Elvis o Rei do Rock'n'Roll. Equipamento necessário, ele certamente tinha: voz, interpretação, visual, machismo. Mas dizem especialistas em comportamento social, um elemento "cósmico" também impulsionou este fenômeno. Quando Elvis surgiu na sala de milhões de americanos, muitos já ansiavam por uma variação no rock-balada e nas canções da época e por escapar do racismo que separava a sociedade dos EEUU (Elvis era admirado por músicos negros e os freqüentava socialmente, fato raro no sul racista dos anos 50. Elvis ia aos serviços de igrejas protestantes de negros para cantar hinos gospel).

O rádio perdia seu público para a televisão e procurava capturar os jovens com o tipo de música criada ao gosto dos adolescentes. Embora as "bobby-sockers" (mocinhas de meias soquetes brancas) desmaiassem por Frank Sinatra, nenhum intérprete ainda tinha incendiado multidões, nem era tão adorado por homens e mulheres, adolescentes e senhoras. Elvis foi a primeira grande celebridade da música Pop.

Imortal foi um destino diferente do que ele sonhou em criança; queria ser motorista de caminhão, daí o topete lustroso, típico da profissão, na época. Tinha 17 anos e começava a dirigir, em 1953, ao gravar um demo no Memphis Recording Service. Não gostou, mas Sam Phillips, da Sun Records viu potencial naquela voz de barítono. Tinha achado, disse mais tarde, "um branco que cantava com sentimento de negro". O resto é história. Não importam as lendas - com quem Elvis transou, ou não transou, e por quê; se tinha fetiche por mocinhas; fixação na mãe; a cor dos cadillacs; as drogas que tomava; as circunstâncias de sua morte - Elvis continua vivo por sua música.

O fato é que Elvis recriou a música popular. Transmitiu sua arte de um modo que ninguém mais soube imitar na época ou agora e, sem pretender fundiu dois gêneros musicais extremamente relevantes: country e blues para criar um tipo híbrido de entretenimento popular, o Rock'n'Roll. Talvez porque muitos não entendessem que assistiam a uma revolução, e não ligassem a figura empevitada de Elvis à música em si, ficaram mais ligados à moralidade do evento. Críticos se recusaram a ver que aquela ginga frenética era o cantor que se movia ao balanço da música; era parte da perfomance. Elvis mudou não apenas sua própria cultura, ele mudou a cultura da América. Elvis foi, desde muito cedo, influenciado por artistas que cantavam nos clubes da histórica Beale Street, em Memphis (Bluesmen como Muddy Waters e Johnny Ace), e pelos gospels negros nas igrejas que lhe deram senso de ritmo. Disse Elvis uma vez à platéia: "Todos sabem que Rock'n'Roll, na base, é apenas a junção de country music e blues". Elvis foi o primeiro cantor branco a se abandonar languidamente e completamente na música e por isso se tornou eterno.

Ao lado do grande artista se formou também um homem torturado pela fama e pela impossibilidade de ser uma pessoa comum. Certa noite, no natal, muito triste Elvis gastou 85 mil dólares em presentes. Outra vez, comprou 14 cadillacs de uma só vez e deu um deles de presente para uma senhora negra que vinha passando na rua. Assistia a três canais de TV ao mesmo tempo e se entediava com todos. Alugava cinemas para sessões fechadas, só com alguns amigos, deu um mercedes ao seu médico particular, comprou dois aviões para suas viagens (apesar de morrer de medo de voar); Tinha tudo que o dinheiro podia comprar mas nunca se sentiu realmente feliz. As drogas foram sua válvula de escape e acabaram o levando à morte. Sua namorada na ocasião, Ginger Alden o encontrou morto de manhã, caído de bruços, no banheiro forrado de pelúcia de Graceland. Elvis Presley foi um grande artista, mas uma pessoa extremamente infeliz na sua vida particular.

Tudo isso agora é passado. Elvis ainda é o artista que mais vende CDs nos Estados Unidos, Seu último lançamento está vendendo assustadoramente. Elvis Presley está morto? é uma questão de ponto de vista. Muito roqueiro já famoso daria a vida para ter tanto sucesso e lucro.

Fonte: Financial Times - Publicado no site EPHP em maio de 2000.

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