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FTD The Impossible Dream

Era o dia 16 de janeiro de 1971. Um ansioso e nervoso Elvis andava pra lá e pra cá nos bastidores da premiação anual do Jaycees. Ele já tinha seu discurso preparado, que por sinal, durante o último mês, havia sido escrito e reescrito incontáveis vezes por ele mesmo. Elvis nunca ia receber seus prêmios pessoalmente, mas uma honrosa exceção foi aberta neste caso. O Jaycee premia os 10 jovens que mais se destacaram nos Estados Unidos. E ali estava Elvis ao lado de 9 outros que incluía o biofísico Mario Capecchi, uma das maiores autoridades em câncer na época, o Dr. George Todaro entre outros. Ao longos dos anos, o Jaycee premiou personalidades como John Kennedy, Orson Wells e Howard Hugues. Por aí se tira a magnitude do prêmio.

Nervoso como sempre, Elvis subiu no palanque vestido em um tuxedo preto e proferiu as seguintes palavras: "When I was a child, ladies and gentlemen," disse Elvis para uma multidão de 2000 pessoas, "I was a dreamer... I read comic books, and I was the hero of the comic book. I saw movies, and I was the hero in the movie. So every dream that I've dreamed has come true a hundred times... I'd like to say that I learned very early in life that without a song the day would never end. Without a song a man ain't got a friend. Without a song the road would never bend. Without a song, so I keep singing a song..." Foi um discurso humilde de Elvis, aceitando seu reconhecimento mais querido.

A partir dessa data, Elvis nunca mais viajaria em turnê sem o seu prêmio o acompanhando. Curiosidade: um jovem congressista chamado George Bush atendeu a cerimônia parabenizando pessoalmente Elvis. Era um dos pilares da consagração da fulminante volta por cima de Elvis que começara em 68, e que iria se maximizar com o Aloha em 73, uns dois anos depois. O ano anterior havia sido extremamente proveitoso. Elvis havia dominado Vegas de um jeito que nenhum outro artista havia conseguido. Duas turnês, de setembro e novembro, as primeiras de Elvis desde 57, haviam provado que o Elvis Presley Show funcionava fora dos pequenos auditórios de Las Vegas. Elvis agora era novamente uma das maiores atrações do país, com shows esgotados, recordes sendo quebrados e discos de sucesso.

As sessões de junho de 70 produziram o álbum Elvis Country, considerado seu melhor álbum da década e um dos melhores de sua carreira. Você deve estar pensando, depois de tudo isso o lógico era Elvis fazer uma turnê mundial ou uma mega turnê americana, não é? Aí é que você se engana. Em vez disso o Coronel programou para Elvis, a partir do dia 26 de janeiro, apenas 10 dias após a entrega do Jaycee, a 4ª temporada de Elvis em Vegas em menos de 2 anos!

Poucos shows são disponíveis dessa época, mas os que são, mostram claramente que Elvis estava super mega entediado! Também pudera, o que havia mais para Elvis em Vegas? Sua primeira temporada de 69 foi sua volta aos palcos, a de janeiro de 70 mostrou que ele poderia lotar a casa mesmo na pior estação. A de agosto de 70 foi a filmagem do documentário That´s The Way it is e a sua consolidação na cidade. O que havia mais para conquistar em Vegas? Nada, respondo. E para completar, o tédio, a falta de desafios e a puxada maratona de dois shows por dia, o hotel ainda pediu para Elvis cortar seus Dinner Shows pela metade, para que as pessoas pudessem voltar para os cassinos que, assim, faturariam mais.

O que um artista comum faria quando visse burocratas gananciosos se metendo em sua arte? No mínimo discordaria dessas determinações. Mas não Elvis. Um de seus maiores defeitos era sua completa inabilidade em confrontar pessoas ou situações desfavoráveis. Tal atitude foi a grande responsável pelos maiores males de sua vida, como o fim do casamento, o vício em drogas, a inércia em Hollywood que quase acabou com sua carreira e a falta de atitude de enfrentar e despedir o Coronel Tom Parker que, desde 1960, não tomava uma decisão empresarial que não fosse um desastre. Para completar Elvis era muito acomodado e o tipo de pessoa que vivia de desafios. Quando desafiado Elvis era o melhor em tudo que fazia, porém, quando os desafios não vinham sua primeira reação era uma fúnebre acomodação.

O pior é que sabemos do potencial do Coronel, que se parasse de pensar apenas nos lucros e se concentrasse nas artes teria levado Elvis a um patamar artístico nunca antes visto. Porém, a verdade era que Tom Parker era um homem de outro tempo e musicalmente ignorante, no mínimo. Além de ser um jogador compulsivo. Porque vocês acham que ele marcava tantas temporadas para Elvis em Vegas? Para unir o útil ao agradável! Ganhar dinheiro com os shows de Elvis e manter seu vício de jogar! Em vez de explodir com as pessoas certas, Elvis implodia, e o mais prejudicado nessa temporada foi o público, que testemunhou um Elvis desmotivado, fazendo shows de pouco mais de meio hora, cortando músicas pela metade e errando ou esquecendo as letras de quase todas as músicas do show!

E nessa época, ao contrário de anos que se seguiriam, o problema não eram as drogas, mas a falta de ânimo. Você pode escutar Elvis dizendo no documentário Elvis On Tour, sobre a sua preocupação de sempre entregar o seu melhor em um show, pois toda platéia é diferente. Bom, nessa temporada e em outras, ele parece ter esquecido seu próprio conselho. A FTD foi bastante audaciosa nesse lançamento, pois poderia ter lançado o Midnight show do dia 27, que é muito bom, porém já conhecido no mercado dos bootlegs há algum tempo. Em vez disso, ela lançou um CD meio Frankenstein, com maior parte do seu corpo do inédito, porém fraquíssimo, Dinner show do dia 28, junto com algumas partes de outras datas. De uma certa forma ela acertou, pois contrabalanceou um show ruim e inédito (com alguns raros bons momentos) com as melhores versões de músicas, algumas cantadas só uma vez, porém de outras datas.

O resultado é um lançamento apenas regular, porém com alguns excelentes momentos que valem a pena serem ouvidos. Mas vamos às músicas do CD: Nessa temporada o set de músicas de Elvis era praticamente o mesmo do ano anterior, com algumas exceções. As duas grandes mudanças foram a introdução da música do filme 2001- Uma odisséia no espaço, Also sprach Zarathustra, como a de abertura. A versão presente neste CD é da noite de abertura do dia 26/01, portanto a primeira vez que Elvis a usou como música de abertura de seus shows. Reparem aqui o tom místico que essa música dava aos shows de Elvis, que entrava no palco com seus jumpsuits extravagantes e uma capa ao melhor estilo de famosos super heróis. Eram esses pequenos detalhes que conferiam aos shows de Elvis, entre outros fatores, toda sua grandiosidade.

Logo se segue uma das melhores versões de That´s All Right que eu já ouvi, prejudicada apenas por uma leve microfonia no início. Usada como abertura dos shows desde a temporada passada, Elvis a ataca aqui com uma fúria não vista nem no ano anterior. Você pensa que está para ouvir um grande show, mas não é o que ocorre, até porque a maioria das próximas músicas são do Dinner show do dia 28. Fato é tanto verdade que a faixa seguinte, You Don´t Have To Say You Love Me, sofre uma brusca alteração na qualidade do som. Uma das grandes músicas de Elvis da década de 70 ganha uma versão que é apenas ok, nada de mais. Elvis pelo menos não troca os versos ou algo parecido.

Porém, ela é seguida pela pior versão de Love Me Tender que eu já tive o desprazer de escutar. Elvis além de se esquecer dos versos e trocá-los todos, ainda passa metade da música beijando garotas. Não o culpo, até o invejo, mas isso prejudicou e muito as versões de Elvis dessa canção na década de 70. Pobre Love Me Tender, já havia sido mutilada com um arranjo pomposo equivocado. Como se não bastasse é mal cantada. Se Elvis estava cansado de cantá-la porque ainda a incluía em seus shows? Tamanho clássico merecia bem mais respeito, e se alguma platéia tomasse vergonha e não aplaudisse essa sessão de avacalhação de Elvis, duvido que ele faria isso de novo.

A próxima é Sweet Caroline, sempre uma alegre adição ao repertório (para desespero de Jerry Sheef, que já declarou em entrevistas que odiava essa música!). Cantada desde janeiro de 70, a música começa, porém Elvis pede para parar logo no início e ainda diz: “É assim que nós fazemos as coisas aqui!”. Muito antiprofissional! A versão completa seguinte é excelente e me faz esquecer um pouco de Love Me Tender. É a vez então de You´ve Lost That Loving Feeling, um musicão da década de 60 que desde a temporada passada havia entrado com força total nos shows de Elvis. A versão aqui apresentada é parecida com a do Madison Square garden, com as mesmas entonações, só que mais lenta. Porém, dando continuidade a um show medíocre Elvis corta a música em mais de um minuto. Aqui não está presente a parte: “Baby, baby, I´d get down on my knees for you.....” Uma lástima mesmo.

A seguir chega a hora de uma das melhores músicas da carreira de Elvis e um símbolo seus nos palcos nos anos 70, a super funk rock frenética Polk Sallad Annie. Umas das mais dinâmicas músicas dos shows de Elvis, Polk era usada para Elvis mostrar seu novo estilo de dança, uma mescla de caratê com os rebolados das décadas passadas. A versão aqui apresentada é razoável. Elvis já havia abandonado a parte falada e introduzido no meio um solo de baixo de Jerry Sheff, porém aqui novamente Elvis encurta a música, cortando o solo de Jerry pela metade. Após um rápido começo de introduções Elvis pede para James Burton iniciar Johnny B. Good. Um dos maiores clássicos do rock aqui recebe uma versão curta, mas excelente com a guitarra de James pegando fogo. É do dia 26, noite de estréia, o que explica ela ser tão boa.

Após o fim das introduções Elvis começa o clássico dos Beatles Something, uma música que ele flertava desde agosto do ano anterior e que iria ser incluída uma vez ou outra em seus shows até o Aloha em 73 quando ganhou sua versão oficial. Sinceramente, Elvis nunca a devia ter gravado. O arranjo não ficou bom, a ausência de um solo de guitarra incomoda e Elvis sempre errava a letra, o que no desastroso show do dia 28 não foi diferente. A música simplesmente não decola. O único destaque é para os belíssimos vocais de Kathy Westworland, que acompanhava Elvis desde 16 de agosto do ano anterior. Release Me é executada depois, e se não fosse por Elvis novamente trocar a letra seria uma ótima versão, apesar de aqui não prejudicar o resultado final como em outras. As melhores versões dessa música são de 72, e sua última foi cantada no último show de Elvis em Indianápolis.

Logo depois, Elvis inicia Love Me, mas desiste após apenas um verso!! Como disse anteriormente, muito antiprofissional. Para baixar o nível até onde desse, Elvis executa uma pífia versão de Blue Suedes Shoes que não atinge nem 1 minuto!!! Que falta de respeito com o público! Imagine você ir para um show e escutar um dos grandes clássicos de seu ídolo sendo cantada com a letra incompleta e em menos de 1 minuto! Francamente, se a platéia de Vegas tivesse alguma decência teria se retirado depois dessa! Blue Suedes Shoes junto com Hound Dog, Love Me Tender e All Shook Up formam o quarteto maldito dos shows de Elvis nos anos 70. Essas músicas, todas tendo atingido o primeiro lugar, diga-se de passagem, tinham em comum serem executadas em versões desrespeitosas, curtas, incompletas e que baixavam o nível do show de Elvis. Novamente pergunto, se não agüenta mais cantá-las, por que incluí-las nos shows?

E por falar em Hound Dog olha aqui ela. Vamos analisar com calma. Hound Dog não é uma música difícil de se cantar, possui dois curtos versos. Porém desafio alguém a encontrar mais de 5 versões na década de 70 onde Elvis cante o segundo verso!! Por que Elvis não a cantava direito?? Novamente a indagação acima feita é repetida. Essa versão desse CD não é tão ruim, pois Elvis ainda bota alguma energia nela e o solo de James Burton ainda é executado. Cantada em uma de suas primeiras versões e de improviso vem uma ótima versão de It´s Now or Never. Instrumentalmente falando é melhor do que as de 77, que continham um constrangedor trompete. Elvis a executa muito bem, sendo um dos pontos altos do show. Suspicious Minds é a próxima e também é muito boa, apesar de ser bem mais curta do que as versões de anos anteriores. Segue-se terceiro momento bom do show que.... vai acabar com a próxima música e você se pergunta.. hã????? Pois é amiguinhos, esse era mais ou menos o perfil de um Dinner Show dessa temporada, curto medíocre e desinteressante.

A última música, contudo é uma surpresa e a segunda modificação a qual me referi no início do texto. Elvis pela única vez na década mudou a música final de seu show de Can´t Help Falling In Love para The Impossible Dream. Uma decisão infeliz. Não pela música em si, que é belíssima, mas porque simplesmente não combinava com um fim de show de Elvis. Ele flertou com essa idéia durante essa temporada, para logo depois abandoná-la. A versão aqui apresentada é belíssima, melhor que a oficial.

Com uma introdução no piano mais longa e Elvis fraseando-a diferente. Só perde minha nota 10 pelo vocal de Elvis, que em uma parte da canção foi substituído pelo membro do Imperials, Armond Morales (JD. Summer e os Stamps só entrariam no staff de Elvis em novembro daquele mesmo ano). Mas nada que afete o resultado final. Essencial para sua coleção essa versão! Fim de show, hora das músicas bônus, muito melhores que o material apresentado até aqui, visto que são, em sua maioria do Midnight Show do dia 27.

Começamos com uma das melhores medleys de Elvis ao estilo “bota a casa abaixo”, Mistery Train / Tiger Man. Essa versão é da noite de abertura e é muito boa, porém fica prejudicada por ser curta, tendo Elvis cortando Mistery Train pela metade! Após dar boa noite Elvis se apresenta como Johnny Cash, como fazia com alguma freqüência. There Goes My Everything é a seguinte. Esse ótimo country (apesar de eu não gostar muito) ganhou poucas versões ao vivo, e sua inclusão faz lógica, pois o Elvis Country havia sido recentemente lançado e sua entrada na lista dos shows era uma forma de divulgar o disco, até mesmo porque uma promoçãozinha não mata ninguém. Foi lançada como single no lado B nos EUA, que sabemos não eram contabilizados nas paradas na época. Foi lado A e 6º lugar na Inglaterra. Muito boa versão ao vivo.

Um dos grandes destaques deste CD é a belíssima Make The World Go Away, também do Elvis Country. Uma das melhores músicas da década para Elvis, havia sido cantada pouquíssimas vezes em 1970 e aqui ganha sua versão ao vivo definitiva. Após essa temporada Elvis a abandonaria de seus shows, só a cantando uma vez mais em agosto de 73. Seguindo vem uma das melhores versões de Love Me que já escutei, com os licks de guitarra de James Burton sendo ótimos. O tempo aqui é bem mais próximo do original do que de versões dos anos seguintes. Elvis nunca deveria ter abandonado o tempo original deste grande clássico que aqui é muito bem tratado, como merece.

Only Believe é do disco, ainda na época inédito, Love Letters from Elvis. Vamos aos fatos, esse Gospel não é dos melhores de Elvis e nem sei porque ganhou uma versão ao vivo. Elvis deve ter percebido isso, pois é a única versão conhecida. Junto com Softly as I Leave You são típicas músicas que só funcionavam em Las Vegas. Muito fraquinha, foi erroneamente lançada em single junto com Life em 1971, constituindo um dos piores e mais fracassados singles de Elvis, não tendo nem sido lançado na Inglaterra.

Depois da música Elvis faz uma piada com um dos membros do Imperial sobre um dos momentos em que estavam ensaiando a música. How Great Thou Art é a seguinte. Introduzida na turnê de novembro, ainda não tinha o poder das apocalípticas e fantásticas versões de anos posteriores, mas é sempre uma feliz adição ao show. Porém, aqui Elvis tem que começar a música de novo após a introdução e pede que o palco seja iluminado, dizendo que caso isso não fosse feito ele poderia cair em cima de uma das mesas e ser processado! Depois Elvis avacalha o início da música, só se recuperando no final. Percebendo que passou um pouco dos limites ele depois pede desculpas.

Depois vem uma ultra rara versão da sensacional Snowbird. Elvis pergunta à platéia se eles gostam da música e se quer que ele cante. Após duas tentativas ele entra em uma excelente versão dessa pérola da discografia de Elvis e carro chefe do álbum Elvis Country. Porém, não antes de dizer o seguinte e incomodo comentário: “Eu não vou dar muito duro hoje a noite. Diabos eu acabei de comer!” Realmente aqui Elvis falha feio com seus fãs e não tem versão de Snowbird que dê jeito. Um comentário, novamente muito, mas muito antiprofissional. Depois de comentar com fãs de Atlanta que as pessoas de lá pensam que quando morrem vão para Memphis, Elvis dedica para Hall Wallis que estava na platéia Can´t Help falling In Love da noite de estréia, tendo ela sendo incluída na metade do show, para ceder espaço para The Impossible Dream como música final. Na média, talvez por não ser a última da noite.

Resumindo esse é um CD com grandes momentos, mais com performances medíocres em sua maioria, o que faz dele um lançamento desaconselhável para o fã casual, não pela BMG, mas pelo próprio Elvis. A letargia de 1971 só iria melhorar no fim do ano, com a estupenda turnê de novembro, uma das suas melhores. Coincidentemente foi por essa época que Priscila deixou Graceland. 1972 iria chegar e nos próximos 13 meses a carreira de Elvis iria chegar a um novo auge, talvez algo nem por ele imaginado. As turnês virariam uma loucura, os feitos como o show no Madison Square Garden e o especial de TV Aloha From Hawaii seriam memoráveis. Mas essa seria a última etapa de uma triunfal volta, só manchada, especialmente por essa temporada de Las Vegas de Janeiro / fevereiro de 1971.

Victor Alves

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