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FTD Out In Hollywood - Parte 1

Falar de Elvis em Hollywood é um assunto polêmico. Isso porque tendemos a cair nos extremos. O primeiro é representado pelos fanáticos fãs de Elvis que o achavam um grande ator e são capazes de escutar a trilha de Paradise Hawaiian Style trezentas vezes e, mesmo assim, achar todas as músicas boas, divertidas e clássicas. Essa corrente extremista é muito perigosa. São pessoas completamente desprovidas de senso crítico e os principais responsáveis pelo próprio enclausuramento de Elvis em Hollywood. Afinal, Paradise... só foi feito porque teve alguém que se deu ao trabalho de assistir a Harum Scarum, não é mesmo? A outra corrente é igualmente perigosa. É representada por radicais de extrema direita, geralmente com algum conhecimento em cinema, seja ele real ou não. Detestam todos os filmes de Elvis da década de 60 e não encontram nenhuma música decente na trilha sonora. Ambas as correntes são equivocadas e devem ser evitadas. Toda essa polêmica pode ser evitada utilizando-se de duas palavras mágicas: bom senso. Iniciaremos nosso texto no ponto onde tudo começou. E esse lugar temporal é o ano de 1956. Elvis Presley estava sacudindo o mundo com uma música nova, revolucionária e alegre que varreu os quatro cantos do mundo e deu origem ao maior movimento de mudanças musicais já registrado. Sua repercussão se deu em todos os setores da sociedade, passando pelo vestuário, costumes, gírias, cinema e até a política.

No auge de seu sucesso, com o mundo nas mãos, Elvis foi atrás de realizar o seu maior sonho: ser um grande ator. Não fazia muitos anos desde que ele, à época um pobre menino sulista, trabalhava de lanterninha nos cinemas locais, só para poder assistir aos filmes de graça, pois não tinha dinheiro para comprar a entrada. Agora, com 21 anos Elvis era o maior nome da música mundial e Hollywood continuava sendo a sua grande menina dos olhos. Com um visual e sex appeal arrebatador, Elvis logo conseguiu sua grande chance de estrear nas grandes telas com o filme Love Me Tender. A atuação de Elvis é claramente de um estreante, porém, surpreendentemente esforçada. A princípio Elvis não queria misturar cinema com música, porém, Hollywood não pensava o mesmo, afinal, não fazia sentido fazer um filme com o cantor mais famoso do mundo sem fazê-lo cantar nenhuma música. O resultado foi quatro canções incluídas, dentre as quais a lendária Love Me Tender. Mas aqui, em um filme simples, com atuações boas, e uma história razoável encontra-se um dos primeiros problemas dos filmes de Elvis: a platéia não queria saber o que Elvis fazia no filme, só queria vê-lo, de preferência cantando alguma coisa. Qualquer coisa. O hino americano, uma marchinha, ciranda cirandinha, qualquer coisa. Porém, a princípio isso não foi problema e os quatro primeiros filmes de Elvis são de uma qualidade muito boa, destacadamente Jailhouse Rock e King Creole. Qualquer crítico de cinema especializado que negar a boa atuação de Elvis nesses dois filmes deveria se aposentar imediatamente. Elvis faz papéis fortes de caras maus e durões, que estão dispostos a arriscar tudo para conseguirem o que querem. Além de roteiros fortes, um excelente elenco de apoio, atuação primorosa de Elvis, músicas simplesmente maravilhosas e seqüências antológicas, os filmes de Elvis da década de 50 não só marcaram época, mas são considerados verdadeiros clássicos atualmente.

Quando Elvis acabou as filmagens de King Creole duas coisas estavam bem claras: Elvis ainda tinha um grande caminho a percorrer e muito que desenvolver-se como ator. O segundo fato notável era de que Elvis estava em franca expansão como ator. Provavelmente, mais 3 ou 4 filmes do nível de King Creole o teriam elevado à categoria de ator de primeiro escala. Isso nos leva à pergunta mais óbvia: era Elvis um bom ator? Nunca saberemos. Ele teve o seu processo de desenvolvimento barrado no início da década de 60. Porém, uma coisa ninguém duvida: Elvis tinha potencial. 1958 marcou a ida de Elvis para o exército e talvez a maior guinada de sua carreira. Coincidentemente, no mesmo ano, Elvis perdeu sua mãe. Essa perda, juntamente com a instantânea retirada de Elvis de sua realidade dos holofotes do mundo, empreenderam mudanças nele. Em um show de 69 ele mesmo afirma que a sensação que sentiu foi de que estava tudo acabado. Uma hora ele tinha tudo e na outra sua carreira artística simplesmente desapareceu.

Quando Elvis voltou do exército ele voltou uma pessoa mais madura, mas ao mesmo tempo mais triste e principalmente desorientada. O próprio Elvis tomou consciência que tinha mudado. Consciência que seus fãs nunca tiveram. Não que isso fosse uma coisa ruim. Pelo contrário. As músicas iniciais de Elvis da década são ainda muito poderosas, clássicas e alegres. São uma espécie de continuação da década de 50, não tão cruas, mais lapidadas, porém, bem menos inocentes e mais contidas. Elvis já havia estado no limite e isso o trouxe problemas, porque ir lá de novo? Elvis agora era mais controlado. Um bom moço, sem dúvida. Essa nova estratégia foi, é verdade, intencionada e planejada pelo coronel, mas será que Elvis queria mesmo ser aquele jovem da década de 50? O Elvis de 1960 queria ser um prolongamento do de 58? Certamente não. Por isso Elvis tomou uma decisão radical: rompeu com os anos 50. Claro que esse rompimento tomou proporções ridículas na década de 70, mas teve seu início em 1960 quando Elvis voltou do exército. A década de 50, definitivamente a melhor de sua vida, agora lhe trazia lembranças de sua mãe e de uma época repleta de vitórias e alegrias. Agora, depois de sua volta do exército, uma nova realidade surgiu. Mudanças também.

E se tinha uma pessoa que era péssima em enfrentar mudanças essa pessoa era Elvis. Mudanças e pessoas. Essa fuga eterna de Elvis de conflitos, sejam eles artísticos ou pessoais afundou seu casamento, arruinou preciosos anos de sua carreira e em última instância o levou a morte. E foi exatamente essa negação de nova realidade que fez Elvis fazer um filme ruim atrás do outro. O que nos leva ao início do problema: um filme chamado G.I Blues. Não me entendam mal. O filme não é ruim, porém, passa longe de ser bom, e sua qualidade comparada com seus antecessores é sofrível. Mas, surpreendentemente, sua trilha sonora chegou ao primeiro lugar nas paradas e lá ficou por dez semanas!! Vejam, aqui está um filme regular, com algumas músicas boas e a maioria apenas mediana. O próprio Elvis não gostou do filme. E o resultado foi esplêndido. Parte do faturamento veio do fato dos fãs estarem há dois anos desejando material cinematográfico do cantor. Provavelmente, se Elvis estrelasse um documentário sobre a vida do bicho preguiça, ele seria um sucesso. Conclusão tirada pelos lacaios de Hollywood e o raposa Parker: Elvis precisa aparecer em filmes leves.

 A lógica filmográfica de Elvis estabeleceria mais uma nova conclusão com a filmagem de Flaming Star. O filme é bem acima da média, com grandes atores e um excelente diretor, além de uma convincente atuação de Elvis. Um novo detalhe na indústria Presley surgiu: o filme conteria poucas canções. Na verdade apenas 4, o mesmo número de seu filme inicial Love Me Tender. Porém, pela primeira vez em um filme de Elvis as canções baixaram muito o nível. Apenas Summer Kisses Winter Tears, que acabou sendo cortada, tem algum mérito. Flaming Star é muito sem sal e Britches e A cane and High Starched Collar, incluída no filme em uma seqüência totalmente desnecessária, são do nível de pérolas trash futuras como He´s Your Uncle not your dad. E o ritmo... Meu Deus que country capenga de mau gosto. Aliás, country nada, é sem classificação essas duas porcarias, que são de longe, as primeiras músicas realmente péssimas da discografia de Elvis. G.I Blues, com uma história meio boboca e muitas canções foi um sucesso financeiro e Flaming Star, sem quase nenhuma música com boa atuação de Elvis e roteiro forte, apesar de ter agradado a críticos, foi um relativo fracasso. Conclusão dois: Elvis tem que estrelar filmes leves sem grandes pretensões cinematográficas. Nada de metê-lo em filmes sérios e sem canções. Financeiramente não compensava.

O filme seguinte de Elvis foi Wild In The Country e foi praticamente boicotado pelo raposa Parker e os estúdios, e o que poderia ter sido um ótimo filme tornou-se uma película confusa, com atuações estranhas por parte de todo o elenco. Foi a última vez que Elvis seria levado a sério em Hollywood. Blue Hawaii veio em seguida e sepultou de uma vez por todas as pretensões de Elvis em ser um grande ator. Ele passaria os sete anos seguintes, metido em filmes com dezenas de garotas, cenários deslumbrantes, roteiros capengas e muitas músicas ruins. Os anos 60 chegaram e com eles mudanças musicais profundas se operaram. Os Beatles e outros roubaram a cena e elevaram o rock a categoria de arte, de uma forma nunca imaginada. Mas Elvis se recolheu em seu canto e só retornaria com força total sob a orientação de Steven Binder em uma noite de junho de 1968. Muito se especula de quem seja a culpa desse verdadeiro desastre na carreira de Elvis chamado Hollywood. Tem-se que culpar o Coronel, que nunca viu a música de Elvis como arte, por ter transformado a carreira de Elvis em um circo, em troca de alguns trocados. Os estúdios da época e seus chefões por terem destruído uma das mais promissoras carreiras cinematográficas que poderia ter existido.

O público que pagou para ver Blue Hawaii e derivados, se deliciando em ver Elvis cantando para crianças pentelhas, garotas bonitas, animais e às vezes até para os próprios caras em quem batia, como ele mesmo enfatizou. E o próprio Elvis que nunca superou seu medo de confrontação pessoal, além de nunca aceitar o fato de que ele é quem deveria ter pulso em sua carreira. Sem contar que Elvis nunca entendeu que em Hollywood para conseguir bons papéis é preciso muito esforço e dedicação, além de uma certa dose de exigência. A FTD fez um grande trabalho em garimpar o que há de menos doloroso nesses anos sombrios. Não que músicas boas não tenham sido feitas, porém, é fato que elas foram exceção. O cd não tem nenhuma canção realmente medíocre, apenas algumas não tão boas como This Is My Heaven. Porém, aqui você vai encontrar verdadeiras pérolas, como Lonely Man, Puppet On A String e King Of The Whole Wide world. Claro, não é indicado para todo mundo, mas para aqueles que desejam entender mais um pouco do processo que levou um dos maiores artistas do século passado a sofrer tamanha humilhação durante tanto tempo. Talvez a resposta esteja naquele ditado: quem muito se abaixa mostra os fundos. Aqui estão as músicas do cd Out In Hollywood analisadas uma por uma.

Continua...

Victor Alves.

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