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O conservador Elvis e os anos 60

Em meados dos anos 1960 o rock começou a mudar. Não era apenas uma mudança de sonoridade mas também de propostas, de ideologia. O novo som que passaria a ser chamado de psicodélico procurava realizar verdadeiras "viagens da mente" para quem os ouvia. Por isso novos instrumentos foram usados em estúdio para tentar recriar as sensações de quem usava drogas pesadas como a LSD. O movimento hippie também começou a ganhar adeptos entre a juventude. Sob o lema "Paz e Amor" os jovens se entregavam a uma vida supostamente livre de amarras, de convenções sociais. O rock como fenômeno cultural procurou acompanhar todas essas mudanças na sociedade e ao mesmo tempo em que era influenciado também influenciava o comportamento das pessoas.

Elvis Presley tinha sido um dos pioneiros do rock lá nos anos 50 e percebeu que algo havia mudado mas diferentemente de praticamente todos os artistas daquela época não quis seguir a tendência. Na verdade Elvis abominava muitas das novas mudanças de mentalidade. Para começo de conversa Elvis achava um absurdo dar um nome de droga a um estilo musical. Para Presley a música deveria sempre trazer mensagens positivas, de amor e alegria. Nada de ficar louvando LSD em enigmáticas letras que ninguém conseguia saber ao certo do que se tratava. Também começou a implicar com algumas ideologias que foram se espalhando entre a juventude. No auge dos protestos contra a guerra do Vietnã, Elvis que havia sido um militar, ficava transtornado ao presenciar jovens queimando a bandeira dos Estados Unidos. Ele sempre se considerara um bom patriota, um homem que sabia seus deveres perante sua pátria. Aquilo que via na TV era a total inversão dos valores pelos quais ele havia sido criado. Um absurdo!

E isso era apenas o começo. Quando o rock ficou ainda mais pesado, com bandas de heavy Metal louvando satã, Elvis ficou desnorteado! Imagine dar o nome de um grupo musical de "Missa Negra"? Esses caras estavam loucos? Satanistas malditos, deveriam ser presos por isso. Se havia algo que Elvis Presley odiava no mundo da música era justamente esses caras mal encarados, cabeludos que ficavam gritando letras louvando o demônio. Ele criou uma verdadeira ojeriza em relação ao Heavy que, não escondia, chamava de "Música de Satã". Para quem havia sido criado dentro da tradição cristã e gravado discos de hinos gospel aquilo era demais para aguentar.

Elvis também não suportava mulheres independentes demais ou com muita opinião. Tinha sempre uma opinião bem negativa sobre o estilo de vida das atrizes com quem contracenava. Talvez por isso seu relacionamento com Ann-Margret não tenha ido para a frente. Ele sempre preferia as submissas, tal como a adolescente Priscilla que nessa época morava escondida em sua casa. Presley também não aguentava aquelas mulheres hippies dos anos 60 andando descalças pelas ruas, sem se depilar e com vários parceiros. Para ele o tal de "amor livre" era um mal que estava se implantando dentro da sociedade. A mulher ideal para Elvis deveria se casar virgem, ser dona de casa, rainha do lar e mãe presente na vida do homem e seus filhos. Nada de modernices demais em sua visão. Também odiava certas modernidades como tatuagens em mulheres. Para Elvis isso era o fim pois as garotas começavam a parecer marinheiros de portos europeus!

O interessante é que durante toda a sua vida Elvis manteve essas opiniões longe do público, jamais falando sobre isso publicamente - ordens do Coronel Parker. Quando confrontado Elvis se recusava a falar sobre Vietnã ou qualquer outro tema polêmico. Ele saía pela tangente. Tudo o que sabemos sobre suas opiniões chegaram até nós através de depoimentos de pessoas que conviviam com ele e documentos oficiais como os da Casa Branca que registrou as opiniões do cantor quando ele se encontrou com o presidente republicano Richard Nixon. Elvis estava particularmente preocupado com o avanço dos pensamentos subversivos entre a juventude, a proliferação da cultura das drogas e as técnicas comunistas de controle da mente. Quando John Lennon o convidou para participar de um grande concerto pela paz, Elvis deu uma desculpa qualquer para não ir. Ele jamais participaria de algum manifesto contra as tropas militares americanas no Vietnã, jamais!

No fundo de tudo, por baixo da roupagem de roqueiro rebelde, se escondia um homem que se considerava um bom cristão, um bom patriota e um verdadeiro cidadão de seu país. No auge da contra-cultura nada parecia mudar esse ponto de vista. Elvis seguiu firme com suas convicções, no fundo um conservador da velha escola que por acaso, no começo da carreira, participou de um movimento chamado Rock ´n´ Roll. Elvis Presley no fundo de sua alma nunca foi um rebelde que queria abalar as estruturas da sociedade mas apenas um bom rapaz que queria preservar o que havia de melhor dentro do espírito americano de ser.

Pablo Aluísio e Erick Steve.

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Elvis foi um paradoxo: todos (principalmente os músicos negros) concordam que a música chamada de Rock and Roll nada mais é que Blues, sincopado e acelerado.

    Quem fez o rock ser o Rock foi o Elvis que, possuído por demônios da irreverência, estabeleceu num período de três anos (1955 a 1958) o paradigma da atitude do ser Rock, e esse padrão foi, e é, imitado ate hoje.

    Quanto ao Elvis, uma vez abandonado pelos demônios da rebeldia, voltou a ser um americano comum, com tudo de bom ou ruim que isso significa. Do artistai genial sobrou o fantástico enterteirner.

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  3. O Elvis "Rebelde" (entre aspas porque de fato ele nunca foi rebelde mesmo) é aquele roqueiro dos anos 50, depois que voltou para o exército isso foi deixado para trás mesmo. Na verdade quanto mais o tempo foi passando mais ele foi se revelando tal como era, inclusive musicalmente, pois nos anos 70 ele finalmente se dedicou a cantar aquilo de que gostava, muitas baladas chorosas, countrys, gospel e muito eventualmente rock - que pra falar a verdade nunca foi muito de seu dia a dia (no final da vida nem emissoras de rock ouvia mais, preferindo sintonizar em estações de música country). Assim no final das contas, o título de rei do rock ficou meio fora de sintonia com o artista que ele realmente foi. Abraços, Pablo Aluísio.

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