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Clambake

Escrever sobre Clambake nem sempre é algo prazeroso. O filme hoje é símbolo de uma das fases mais problemáticas e menos inspiradas da carreira de Elvis Presley. Era a exaustão de uma fórmula que já tinha esgotado completamente a carreira do Rei do Rock. Em 1967 Elvis estava inteiramente absorvido nos estudos de filosofias orientais esotéricas, espiritualistas, tinha seus interesses pessoais em primeiro plano e estava se dedicando a melhorar sua vida interior. Para isso ele ficava horas e horas devorando livros e livros sobre o tema. Ficava dias e dias ao lado de seu guru pessoal tentando decifrar os grandes mistérios do universo em conversas sem fim e altamente enigmáticas. Fora disso não havia mais nada que despertasse seu interesse, sua atenção. Elvis vivia em um eterno torpor messiânico e religioso, indiferente a tudo e a todos. Na sua visão pessoal não havia nada mais importante do que crescer como um ser espiritual elevado. Nem seus amigos e sua namorada Priscilla escaparam de sua indiferença.

Tudo muito interessante e curioso, mas que tinha um outro lado altamente nocivo. A despeito de todo essa busca espiritual Elvis simplesmente negligenciou sua carreira musical, seu talento único foi colocado de lado e esquecido. Sua vida girava em torno de muitos questionamentos, nenhum deles musical. Infelizmente nada disso a que tanto se dedicava de corpo e alma tinha a ver com música! Elvis parecia estar indiferente a tudo que não se referisse a assuntos espiritualistas. Absorvido completamente numa nova mania e paixão, deslumbrado pela filosofia da nova era, Elvis não se interessava mais pelo seu talento musical e artístico, pela sua carreira, pela qualidade decrescente de seus últimos discos, pelas críticas constantes sobre seus filmes mais recentes e suas trilhas sonoras consideradas estúpidas, pela debandada de fãs decepcionados com os rumos de sua carreira.

O grande inovador e revolucionário estava totalmente estagnado. Teria o grande astro de outrora sido apenas um mero modismo? Será que todos os que o criticaram no começo de sua carreira estavam certos e Elvis iria sumir do mapa tão rapidamente como apareceu? A estrela se apagara para sempre? O Coronel estava preocupado. Será que tudo o que ele tinha nas mãos era uma lenda viva ultrapassada? Elvis estava acabado de uma vez? Era esse o quadro vivido pelas organizações Presley em 1967. Elvis não era mais considerado relevante do ponto de vista artístico, seus discos desabavam nas paradas e o pior, ele nem era mais ouvido pelos jovens, pois eles estavam muito mais interessados nos novos sons que vinham do outro lado do Atlântico, da chamada invasão britânica. O pior já começava a acontecer em 1967. Se antes todos criticavam Elvis e suas escolhas no cinema, agora ele começava a ser ignorado pelas revistas especializadas. Criticar mais uma vez Elvis por seu último filme? Até os jornalistas pareciam cansados disso.

Certamente um filme tão sem consistência como Clambake não iria reverter um quadro tão medonho. Era apenas o agravamento de uma situação que já se revelava extremamente desesperadora para os fãs mais fieis, aqueles que ainda acreditavam em uma reviravolta na vida artística do ídolo. Mas como sempre gosto de afirmar, tudo na vida possui o seu valor e Clambake também tem sua importância na carreira de Elvis. Clambake é o fundo do poço, o ponto do qual Elvis não ultrapassaria, onde não desceria mais, depois dele e de outros filmes que viriam, grandes fracassos de bilheteria, ficou claro até mesmo para Elvis que ele tinha que mudar, pois caso contrário seria simplesmente o fim de sua carreira. O cantor mesmo sabia que sua carreira no cinema estava em um impasse e que o velho sonho de se tornar ator em Hollywood não vingara. Depois de tudo isso o cenário estaria pronto para seu renascimento em 1968 no Comeback Special. Mas antes da glória, que só iria acontecer no ano que viria, vamos agora analisar, faixa a faixa, as canções que fizeram parte da trilha sonora de Clambake (O Barco do Amor, no Brasil) Obs: Não incluídas as Bonus Songs.

Clambake (Weisman / Wayne) - Essa canção quebra, de certa forma, uma tradição em trilhas sonoras de Elvis nos anos 1960. Mesmo nos mais mortificantes filmes, as canções títulos costumavam manter um certo nível de qualidade perante o material restante apresentado. Mas “Clambake” é nitidamente abaixo da média, um tanto quanto mal executada, com Elvis até mesmo displicente nos vocais (coisa rara de se ouvir!). O resultado final se mostra confuso, pouco inspirado. Porém temos que reconhecer que mesmo que Elvis se esforçasse, acho que a própria composição não o ajudaria, tendo um refrão muito deslocado em termos de estrutura rítmica. Alguns casos são realmente perdidos. Talvez a pior canção tema dos filmes de Elvis (lado a lado com Paradise, Hawaiian Style e Charro).

Who Needs Money? (Randy Starr) - Uma das maiores ironias da trilha sonora, pois o que mais Elvis precisava nessa época era de Money! Quem precisa de dinheiro? Ora Elvis, você mesmo! Quebrado financeiramente pelos altos custos do rancho Circle G, Elvis foi obrigado a aceitar o que estava à disposição. Ao se deparar com as enormes contas e custas chegando do último capricho de Elvis, seu pai, Vernon, ligou imediatamente ao Coronel Tom Parker para que ele arranjasse logo um trabalho para Elvis em Hollywood, caso contrário ele levaria suas próprias finanças à falência. Parker sondou os estúdios e um roteiro foi escrito às pressas para Elvis. Quando o Rei do Rock leu o conteúdo do que lhe estava sendo oferecido desabafou com Priscilla afirmando que tinha odiado tudo e que Clambake seria mais um filme nojento, ruim, cheio de “biquínis e músicas estúpidas”. Para quem estava totalmente absorvido em assuntos esotéricos como Elvis na época, deve ter sido horrível lidar com toda a superficialidade do material do filme. Mas, devendo até a alma aos bancos, o astro teve que esquecer suas próprias convicções pessoais e encarar as filmagens (Ele inclusive já tinha até mesmo colocado Graceland como garantia de alguns empréstimos pessoais feitos nesse período!). Dueto com o ator Will Hutchins, o que definitivamente não quer dizer grande coisa, pois ele até tinha uma bonita voz, mas não sabia cantar, o que convenhamos, fica constrangedor numa trilha sonora.

A House That Everything (Tepper / Bennet)- Boa balada, que se não se sobressai dentro da carreira de Elvis, pelo menos tem uma certa dignidade, sendo agradável no final das contas. Particularmente gosto de muitas canções escritas por essa dupla de compositores. Claro que algumas tolices foram escritas por eles, mas o foram em número reduzido. “A House That Everything” é a primeira canção da trilha que desperta nossa atenção. Aqui Elvis utiliza uma vocalização bem típica da primeira metade dos anos 60, calma, suave e relaxante. Praticamente todas suas baladas pré 64 apresentam essa característica (vide a linda “There’s Always Me” do disco “Something For Everybody” de 1961, símbolo do estilo que estou citando). Como faz parte dessa trilha sonora, uma das menos conhecidas da carreira de Elvis, foi totalmente esquecida e ofuscada. Merece uma segunda audição.

Confidence (Tepper / Bennet) - Nem com muita boa vontade se consegue gostar dessa música. É uma das piores coisas já cantadas por Elvis Presley em toda a sua carreira. Boba e maçante ao extremo, mais parece uma música de desenho animado infantil dos anos 40. Elvis, como sempre, cumpre o martírio e tenta se mostrar profissional até o final da canção, mas vamos ser sinceros, esse é um dos pontos mais baixos da carreira do cantor. Merecidamente esquecida por todos ao longo dos anos. Sem querer ser sarcástico, ela me lembra muito certas músicas do famoso palhaço televisivo Bozo. Como Elvis não era o Bozo, devia ter passado sem essa. Não disse que Tepper e Bennet também fizeram sua cota de tolices? Pois é...

Hey, Hey, Hey (Joy Byres) - Aqui Byers (na verdade um pseudônimo) me decepcionou. Para quem escreveu C’Moon Everybody fica um gostinho de decepção no ar quando a faixa começa a entrar em nossos ouvidos. Assumidamente descartável a música em nenhum momento se impõe ou chega a nos empolgar. Outra canção sem letra, sem ritmo, sem desenvolvimento rítmico. Se não bastasse ainda conta com uma péssima vocalização de apoio, diga-se de passagem. A cena do filme também é outra bobagem, com Elvis levando todas aquelas garotas anônimas para passar um tipo de "cola especial" em seu barco de corrida. Hey, esqueçam essa também...

You Don’t Know Me (Arnold / Walker) - Agora sim. Depois dos inúmeros enlatados surge finalmente uma canção com alma e coração. Elvis deve ter respirado aliviado ao se deparar com ela no estúdio de gravação. Finalmente uma melodia para se dedicar, que valia a pena. Gravada duas vezes por ele, em momentos distintos de sua carreira, já que acabou não gostando dessa versão da trilha sonora. Lançada também como single nesse mesmo ano, não teve maior repercussão, pois foi lado B de Big Boss Man. Ë uma canção injustiçada que merecia melhor sorte. Talvez tenha sido negligenciada pela simples razão de ser uma regravação de um grande sucesso de Eddy Arnold. A versão de Elvis não foi a primeira a surgir e por essa razão não foi acreditada como um provável sucesso pelos produtores do cantor na época. Uma decisão equivocada, sem sombra de dúvida, pois ela tinha potencial. Poderia ter caído facilmente no gosto do público. A música já era bem conhecida, um clássico cantado pelo antes outrora famoso cantor Arnold, que apesar de aparecer como compositor não a escreveu realmente. Uma coisa parecida com o que aconteceu com várias canções do próprio Elvis nos anos 50, onde ele aparecia como um dos co-autores, sem ter participado das criações das músicas. Infelizmente não foi divulgada e acabou totalmente desperdiçada, uma pena.

The Girl I Never Loved (Randy Starr) - Outra canção que, pegando o embalo de You Don’t Know Me, traz melodia e vocalização acima da média do restante da trilha sonora. Bem arranjado e produzida, a canção é um dos pontos altos do disco. O grupo vocal está muito bem posicionado e o arranjo é extremamente feliz, lembrando inclusive algumas músicas dos filmes havaianos de Elvis. Aliás é bom salientar que o arranjo é praticamente idêntico ao da canção A House That Everything, essa também um bom momento do disco. Outra pérola perdida no meio do oceano de canções sem expressão que assolavam a carreira de Elvis na segunda metade dos anos 60. Outra que merece ser redescoberta.

How Can You Lose What You Never Had (Weisman / Wayne) - Encerrando a trilha Elvis apresenta esse dublê de blues, que se não é uma maravilha, pelo menos nos proporciona uma oportunidade de ouvir Elvis se reencontrando com esse estilo musical que é um dos mais importantes dos Estados Unidos. É bom deixar claro que não estamos nos referindo a um clássico, a uma obra prima genial, nada disso, mas sim a uma canção que serve de alivio numa trilha sonora bem abaixo da média dos demais trabalhos de Elvis pós 65 no cinema (que por si só já não eram grande coisa!). É um aperitivo do que Elvis iria fazer com material de qualidade no ano que viria. Um trailer de muitos de seus compactos relevantes que iriam em breve surgir nas lojas dos EUA. Uma leve brisa de renascimento na obra de Elvis Presley.

Ficha Técnica: Elvis Presley (vocal) / Scotty Moore (guitarra) / Chip Young (guitarra) / Charlie McCoy (harmonica) / Bob Moore (baixo) / Buddy Harman (bateria) / D.J. Fontana (bateria) / Floyd Cramer (piano) / Hoyt Hawkins (piano) Pete Drake (Steel Guitar) / Norm Ray (sax) / The Jordanaires: Gordon Stoker, Hoyt Hawkins, Neal Matthews e Ray Walker (vocais) / Millie Kirkham (vocal) / Gravado no RCA Studio B, Nashville, TN / Data da gravação: 21 a 23 de fevereiro de 1967 / Direção Musical: Jeff Alexander / Produzido por Felton Jarvis / Engenheiro de Som: Jim Malloy. / Lançado em Outubro de 1967 / Melhor posição nas charts: # 40 (EUA) e # 39 (UK).

Escrito por Pablo Aluísio - Março de 2006.

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