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Elvis Presley - Back in Memphis

Elvis Presley - Back in Memphis
Esse disco trazia uma segunda leva de gravações realizadas por Elvis Presley em Memphis, no American Studios. Na verdade o álbum foi um desdobramento do primeiro LP duplo da carreira de Elvis, "From Memphis to Vegas / From Vegas to Memphis". Eram dois LPs. Um dedicado a gravações realizadas ao vivo em Las Vegas - na turnê que marcou o retorno de Elvis aos palcos depois de muitos anos afastado - e o outro recheado de músicas inéditas produzidas por Elvis na sua volta aos estúdios de sua cidade de coração, Memphis. Poderia haver algo mais saboroso para um fã de Elvis na época? Depois de anos e anos precisando aguentar trilhas sonoras infantis era realmente uma mudança e tanto no rumos da carreira do cantor. Eu costumo afirmar que os anos 70 para Elvis começaram bem antes, em 1969. Nesse ano ele realmente mudou tudo e para melhor. As músicas ficaram mais consistentes, lidando com temas mais significativos em arranjos mais bem elaborados, letras falando dos problemas decorrentes de relacionamentos adultos, sem bobagens adolescentes pelo meio do caminho. Finalmente Elvis parecia se comunicar com seu público que também estava em uma faixa etária mais avançada. Não havia mais como bancar o eterno cantor garotão adolescente conquistando corações de meninas bobinhas. Era necessário crescer, sair da adolescência musical, algo que Elvis finalmente conseguiu com seus registros no American.

"Back in Memphis" na realidade não tem nenhum grande hit em sua seleção musical. Isso porém não significava nada no final das contas pois a seleção musical era de uma qualidade maravilhosa, superior a qualquer outra coisa que Elvis havia produzido nos últimos anos. Comparar com trilhas recentes como "Speedway" chegava a soar como covardia até. Colocando as cartas na mesa não existem músicas insignificantes em "Back in Memphis" (afirmação que inclusive pode ser ampliada para praticamente todas as canções gravadas no American Studios). Era um novo artista que nascia das cinzas, não fazendo mais concessões descabidas do ponto de vista comercial. Claro que de uma maneira em geral as sessões foram extremamente bem sucedidas comercialmente falando, como Suspicious Minds, por exemplo, que acabou se tornando a primeira canção a alcançar o número 1 da Billboard depois de longos anos, mas isso nunca foi o foco principal dessas gravações, muito longe disso. Se pudesse escolher apenas uma palavra para descrever "Back In Memphis" eu usaria a expressão elegância. O álbum é muito elegante, tanto em sua proposta como em sua essência. As canções foram escolhidas por Felton Jarvis que parece ter se concentrado naquela nata mais substancial das sessões, procurando a fina flor de todo o material disponível. Como se sabe essas sessões foram realizadas no esquema de maratonas, ou seja, Elvis entrou em estúdio para gravar uma grande quantidade de músicas que depois seriam lançadas de forma gradual pela RCA Victor. Nesse quesito Jarvis foi muito feliz pois realmente acabou compondo duas belas seleções musicais (tanto em relação a esse álbum como no anterior, "From Elvis in Memphis"). Era o começo de novos tempos na carreira do Rei do Rock.

Inherit The Wind (Eddie Rabbit) - Uma bela canção, mostrando a sofisticação das músicas gravadas por Elvis Presley no American Studios. Ouso dizer que algumas dessas músicas se encontram entre as mais sofisticadas de toda a carreira de Elvis, em qualquer época que você queira comparar. Na letra temos quase uma súplica em primeiro pessoa, em que o narrador apela com sinceridade para que a garota não se apaixone por ele de jeito nenhum, pois ele certamente a magoará no futuro. Assim como seu pai sempre fazia com sua mãe, ele também muito provavelmente a decepcionará, indo embora pela manhã, sem dizer adeus ou olhar para trás. Composta por Edward Thomas Rabbitt, um cantor country popular nas décadas de 1960 e 1970, a canção evoca um tema bem comum nesse universo, a do amor que já nasce fadado ao fracasso completo, à desilusão e à decepção completa. Vale a pena amar sabendo que sofrerá bastante lá na frente? A versão de Elvis difere em certo sentido da gravação original por trazer um desalento completo em sua voz, um clima de leve decepção e melancolia que cresce bastante em seu refrão. Aliás o trabalho de Chips Moman com o grupo vocal feminino é um dos grandes destaques da gravação. Um apelo quase desesperado para que não venha a nascer um amor entre ambos, pois a decepção certamente será completa. Excelente música!

This is The Story (Arnold / Morrow / Martin) - Uma letra que poderia muito bem ter sido escrita pelo próprio Elvis. Ele iria vivenciar mais à frente em sua vida essa mesma situação, a do homem abandonado que descobre que sua mulher amada o deixou por amar outro homem. O arranjo é bem intimista, justamente para o ouvinte se sentir no quadro descrito na letra. Uma pessoa que foi abandonada, lendo a carta de despedida (e desculpas) da sua querida que partiu para ir viver outro romance, outro amor, com outro homem. Ao seu redor tudo a lembra, a música que ele ouve, a fotografia dela ao lado de sua cama, os móveis, um livro na prateleira. Seu mundo literalmente cai após ser abandonado. Essa música foi providenciada por Felton Jarvis e gravada originalmente por Elvis no American Studios. É verdade que ela nunca chegou a ser um sucesso em sua carreira, porém se tornou extremamente importante dentro do contexto dos discos "From Memphis to Vegas / From Vegas to Memphis" e seu desdobramento "Back in Memphis". É interessante notar que ela foi a segunda música gravada por Elvis no American, logo após "Long Black Limousine" e ao contrário dessa não deu muito trabalho para se chegar na versão oficial. Em apenas dois takes Elvis matou a gravação, provando que nessa noite ele estava mais do que afiado, pronto para dar o melhor de si (depois de anos desperdiçando seu talento em obras menores como as músicas de filmes de Hollywood). Enfim, "This is Story", apesar da clara tristeza de sua letra depressiva e melancólica, é certamente um dos melhores momentos do disco. Pequena obra prima.

Stranger in My Own Home Town (Mayfield) - E então chegamos no blues "Stranger in My Own Home Town". Certa vez o cantor de blues Howlin' Wolf encontrou Elvis por acaso nos corredores dos estúdios da RCA Victor em Nashville e foi logo dizendo: "Ei garoto, o que você pensa que está fazendo?". Elvis ficou um pouco assustado e Wolf completou: "Sua voz é do blues, você nasceu para cantar blues! Quero ouvir você no blues garoto!". Era pura verdade. Ao longo dos anos Elvis provou que tinha um incrível feeling para o blues, embora tenha interpretado relativamente  poucas canções nesse estilo. Uma pena, tanto talento desperdiçado em canções pop de filmes! Certamente teria sido melhor aproveitado se tivesse se dedicado mais para essas velhas cantorias de escravos à beira do rio Mississippi. Sim, porque o blues nasceu exatamente dentro desse contexto histórico, do lamento do trabalho pesado sob sol a pino nas plantações de algodão do sul. Já que Elvis adorava tanto a cultura musical negra de seu país era óbvio que mais cedo ou mais tarde ele iria também desaguar nas águas do blues sulista. "Stranger in My Own Home Town" vai justamente nessa direção. A versão original é excelente. Gosto muito desse estilo mais sincopado, porém a minha preferida é a versão completamente envenenada que foi lançada pela primeira vez em 1995 no box "Walk a Mile in My Shoes: The Essential '70s Masters". Ali você pode sentir a vibração blueseira que estava rolando dentro do estúdio. O blues é aquele tipo de ritmo musical que você precisa sentir o que está cantando. É um gênero essencialmente sentimental, para se cantar com a alma aberta. Elvis conseguiu atingir esse ponto perfeito. É curioso que a música sequer estava na primeira lista de músicas que seriam gravadas naquela noite, mas Elvis curtiu muito a fita de demonstração que ouviu assim que chegou no American. Praticamente ele usou a gravação para se aquecer, uma forma de entrar no clima ao lado de sua banda. Todas as versões são excelentes, ainda mais pelo fato do produtor Chips Moman ter aceitado a sugestão de Elvis para que sua voz fosse afundada no meio do som do grupo, lá no fundo, quase inaudível. Para Elvis um bom blues tinha que sequer esse tipo de balanceamento. Nada de colocar sua voz em destaque. Isso nunca existiu nos velhos singles clássicos de blues. Elvis sabia disso. Os instrumentos em primeiro plano e o vocal mergulhado bem no meio da sopa sonora. Perfeito. Ele estava novamente certo. Ponto para Mr. Elvis Presley. Ouça e sinta-se como ele, um estranho em sua própria cidade.

A Little Bit Of Green (Arnold / Morrow / Martin) - Essa é uma antiga música lançada pelo cantor country Eddy Arnold. Para quem não sabe a história de Arnold se confunde com a do próprio Elvis pois ele era da mesma região e tinha o mesmo empresário que Presley. Sim, o Coronel Parker também era o manager de Arnold. É curioso porque muito do que aprendeu em termos de negócios no mundo da música, Parker aprendeu justamente dirigindo a carreira de Eddy Arnold, um dos primeiros artistas que empresariou. Depois de um começo modesto em Memphis e Nashville sua vida mudou quando Parker lhe arranjou um acordo com uma das empresas mais poderosas dos Estados Unidos. Em 1944 conseguiu um contrato para ele com a RCA Victor, a mesma que seria a gravadora por toda a carreira de Elvis. Pois bem, deixando isso um pouco de lado vamos tecer alguns comentários sobre a música então. Nunca achei uma grande canção e passa longe de ser um clássico dentro do repertório de Elvis. A letra novamente trata do tema sobre corações partidos. Em primeira pessoa o autor lamenta a perda da mulher amada, que agora está nos braços de outro. É o velho arrependimento que só bate quando você perde um grande amor e só se dá conta de sua importância quando ela resolve finalmente arranjar outro para tocar sua vida para frente. Assim, em termos gerais, a letra não é das mais originais e nem tampouco é tão bem escrita. Analisando bem são apenas três estrofes, nenhum deles excepcionalmente bem escrito. O refrão também não me agrada muito. Falta um pouco mais de conteúdo nessas passagens. A harmonia também não chega a surpreender. É bem gravada e executada, como tudo o que diz respeito ao material que foi gravado no American Studios (a banda que acompanhou Elvis era realmente acima da média), mas realmente novamente não impressiona. Acredito que o fato dela estar no meio de tantas obras primas ajudou a ofuscá-la ainda mais. Ela foi gravada no dia 15 de janeiro de 1969 no mesmo dia em que Elvis também gravou somente outra faixa: Gentle on My Mind. Pelo visto não foi uma das noites mais produtivas de Elvis no American.

And the Grass Won't Pay No Mind (Neil Diamond) - Elvis adorava Neil Diamond. Estava sempre conferindo o trabalho desse cantor e compositor nova-iorquino. O interessante é que tão absorvido ficou com o material que Diamond vinha gravando que ele mesmo resolveu fazer suas próprias versões em estúdio do material composto pelo colega músico. Um exemplo é essa faixa "And the Grass Won't Pay No Mind". Ela foi originalmente lançada como Lado B do single "Soolaimon". Elvis não gostava muito da canção principal, mas adorou seu Lado B. Por isso achou que a canção merecia um melhor destino, um tratamento mais digno. Assim na madrugada do dia 18 de fevereiro, quando o relógio já indicava 1 da manhã, Elvis começou a trabalhar com a canção ao lado de seus músicos. A sessão só chegaria ao fim às quatro hora da madrugada, com um Elvis bem satisfeito por seu resultado. Ele realmente se esforçou para dar um belo tratamento na criação de Neil Diamond. O resultado, como se pode perceber, superou e muito a própria gravação original de Diamond, algo que não era raro acontecer em se tratando de Elvis Presley. A letra de "And the Grass Won't Pay No Mind" é no mínimo interessante. Os primeiros versos que dizem: "Escute, você pode ouvir Deus chamando / Andando descalço na correnteza" pode dar a falsa impressão que você está prestes a ouvir uma música gospel, mas não! O autor logo muda o rumo, entrando em uma mistura de música hippie de amor, com clara conotação até mesmo um pouco esotérica. O melhor da canção como um todo é a sua linda melodia, bem suave, calma e relaxante. Elvis a canta ternamente, algo que nem estava sendo usado muito na época por ele, já que para as sessões do American o cantor tinha optado por uma vocal mais incisivo e marcante. Uma bela faixa que a despeito de todas as suas qualidades acabou não sendo também muito bem trabalhada pela RCA Victor, nunca a transformando numa música de trabalho. Uma pena, uma música tão linda merecia melhor sorte, tanto na voz de Neil Diamond como na de Elvis Presley. De qualquer maneira ela venceu a barreira do tempo por causa de sua beleza ímpar.

Do You Know Who I Am? (Bobby Russell) - Imagine saltar de sessões de trilhas sonoras ruins e fracas como "Charro" e "Speedway" direto para essa fantástica sessão de gravação do American Sound! A diferença de qualidade era algo de absurdo. Aqui Elvis interpreta uma música do cantor e compositor Bobby Russell. Ele foi um artista bem famoso e badalado no meio country de Nashville entre meados dos anos 60 e o começo dos anos 70. Entre 1966 e 1973 Russell conseguiu emplacar cinco grandes discos de sucesso. O curioso é que Elvis podia, em uma mesma sessão, interpretar velhos clássicos country das décadas de 1940 e 1950 e ao mesmo tempo registrar músicas contemporâneas que estavam fazendo sucesso nas rádios sulistas de country na mesma época em que ele as gravava. Era um cantor eclético e atemporal. É o caso de " Do You Know Who I Am?". A versão original de seu autor foi lançada um ano antes de Elvis gravá-la. No single original ela eram bem mais country, com todos aqueles instrumentos e arranjos bem característicos da música rural americana. Elvis e o produtor Felton Jarvis resolveram suavizar um pouco mais esse aspecto, dando-lhe uma roupagem mais moderna e urbana. A letra foi justamente o que atraiu Elvis. O próprio título com a pergunta "Você Sabe Quem Eu Sou?" fez com que Elvis se identificasse imediatamente com a mensagem. Ele já havia dito em entrevistas que o artista e o ser humano costumavam ser coisas bem distintas. E pessoas que viveram ao seu lado, mesmo sua esposa Priscilla, sempre deixaram claro que na verdade conhecer o verdadeiro Elvis Presley era uma das coisas mais complicadas de se fazer. Na poesia da canção o tema central é o reencontro. O autor, em primeira pessoa, indaga, em um casual e inesperado reencontro, se a mulher amada realmente poderia ainda dizer que o conhecia. Haveria ainda a possibilidade de um retorno aos velhos tempos mesmo após tantos anos? O clima é de leve melancolia. Como eu escrevi no começo a diferença entre as bobas canções de filmes e essas novas músicas, com melodias e letras extremamente mais bem elaboradas era realmente algo abissal. Elvis saiu da adolescência inocente da carreira para a maturidade plena em poucos meses. Um feito e tanto.

From a Jack to a King (Ned Miller) - Priscilla Presley adorava essa canção. Era uma de suas preferidas do American. Isso de deve muito ao fato de Elvis ter o single original (lançado em 1957 por Ned Miller, cantor country). Sempre ouvindo a canção em casa a sua melodia acabou sendo quase uma trilha sonora para o namoro de Priscilla, principalmente depois que ela foi morar em Graceland ao lado de Elvis. A canção ainda teve outras versões ao longo dos anos, em especial a de Jim Reeves em 1962, cujo single Elvis também comprou (repare na data, 1962, o mesmo ano em que Priscilla foi morar em Memphis). Como virou uma espécie de standard do country music "From a Jack to a King" ganhou ainda muitas outras gravações depois da de Elvis no American. A mais recente foi gravada em 1988 na voz do cantor Ricky Van Shelton. Particularmente eu não gosto muito desse country, mas essa é meramente minha opinião pessoal. Acho que sua melodia é um pouco estranha, fora do convencional, com um ritmo pouco atraente. Enfim, um ponto de vista bem subjetivo, pessoal. A letra também nunca me agradou muito. O autor fez uma analogia entre jogo de cartas e romance. Algo que soa hoje em dia meio brega. O uso de um anel de casamento nos versos só piora ainda mais a situação. Talvez a Priscilla estivesse obcecada em se casar com Elvis, daí sua identificação com a letra, quem sabe... Mesmo assim, como se trata de Elvis Presley, você sabe que no mínimo terá uma boa interpretação pela frente. O curioso é que o produtor Chips Moman tentou mudar os arranjos, mas Elvis dessa vez preferiu ser mais fiel ao espírito country and western. Para Elvis não havia como mudar o jeito da canção já que ela seria assumidamente muito country, impossível de mudar. Basta imaginar um bando de cowboys ao redor de uma mesa jogando cartas para entender bem isso. Para reforçar então suas origens o músico John Hughey, especialista em Steel Guitar em Nashville (a capital mundial da música caipira e rural americana), foi especialmente contratado para se unir à banda de Elvis. Enfim, uma prévia do que Elvis iria fazer nos anos 70, com muito country em seus álbuns.

The Fair's Moving On (Fletcher / Flett) - Essa canção foi lançada como lado B do single "Clean Up Your Own Back Yard", tema do filme "The Trouble With Girls" (Lindas encrencas, as garotas, 1969). É mais um country. É a tal coisa... Tanto o Coronel Parker como Elvis pensavam principalmente em seu público. E qual era esse público? Certamente não era o internacional. Elvis não gravava seus discos pensando em Londres, Paris ou Madrid. Elvis gravava seus álbuns pensando nos estados do sul dos Estados Unidos, onde ele fazia suas turnês e era adorado por sua faixa de fãs mais fiel e leal. Por essa razão temos um certo excesso de country music em seus discos, principalmente a partir de 1969. É interessante notar que em pouco tempo Elvis estaria de volta às turnês e essas seriam realizadas em sua grande maioria justamente para os sulistas americanos. E essa gente vivia sob a forte influência cultural de Nashville, a capital mundial do country. Por isso tantos discos de Elvis tiveram essa linha. Ele gravava pensando nisso e o repertório mais voltado para esse tipo de música era gravado para que Elvis também o utilizasse em shows. "The Fair's Moving On" é apenas na média. A letra da canção tinha tudo a ver com o enredo de "The Trouble With Girls". No filme Elvis interpretava um gerente de um parque de diversões itinerante. Um tipo de circo de variedades que era muito popular no começo do século XX nos Estados Unidos. Enquanto ele ia de cidade em cidade ia conhecendo novas pessoas, se envolvendo com as garotas locais e a vida seguia em frente, tudo pensando na próxima cidade a se visitar. Veja esses versos: "Todos os caminhos já foram percorridos / É tarde e não sobrou nenhum prêmio a ser ganho / Os caminhos estão fechados, é o fim do dia / Os cavalos estão indo embora / Sim, o parque está indo embora / E logo mais eu também irei". Dá para perceber bem que é aquele tipo de música que só fazia muito sentido dentro da temática do filme. O curioso é que ela não foi gravada nas sessões de gravação da trilha sonora de "The Trouble With Girls", mas bem depois, quando Elvis já estava empenhado nas sessões do American Studios, trabalhando inclusive com outra banda. Uma verdadeira estranha no ninho dentro daquela coleção de músicas.

You'll Think of Me (Mort Shuman) - Essa canção ficou notabilizada dentro da discografia de Elvis por ter sido o lado B do single de grande sucesso comercial "Suspicious Minds". Por isso acabou pegando carona com o hit principal do compacto e acabou se tornando relativamente bem conhecida. Outro fato que chama a atenção é que ela foi composta por Mort Shuman. Ao lado de Doc Pomus ele escreveu dezenas de músicas para Elvis na década de 60. Ele era um talentoso pianista e conseguia sempre escrever temas que caíam no gosto popular. O sucesso que abriu as portas para sua carreira foi a linda "Save The Last Dance For Me", gravada pelo grupo The Drifters, que logo se tornou um imenso hit, chegando ao topo da Billboard. A partir daí vários cantores encomendaram músicas à dupla. Para Elvis, Shuman escreveu entre outras o tema principal do filme "Viva Las Vegas", além de "Little Sister" e "(Marie's the Name) His Latest Flame" que acabaram se transformando em singles premiados com discos de ouro. Essa gravação assim acabou se tornando uma despedida de Shuman da discografia de Elvis, sem parceria dessa vez com Pomus. Um trabalho solo. A letra da música fala em despedida. Na primeira pessoa o autor se despede do grande amor de sua vida. Há um ressentimento em suas palavras, como se ela tivesse feito algo que o magoou. Isso porém fica sempre subentendido, nada é dito de forma muito clara. Para o autor aquela que ficará para trás vai se arrepender do fim desse amor. Isso fica bem claro logo na primeira estrofe: "Desculpa, garota, mas vou te deixar / Há algo profundo em minha alma que me chama / O vento do inverno, garota, não vai te enganar / E na sua cama vazia e fria, você vai pensar em mim...". O curioso é que nos versos o autor também deixa claro que é um caso perdido, que nunca se ligará fortemente com ninguém por ter "um coração perturbado" e uma alma livre. Ecos de um romance que nunca daria realmente certo. O arranjo ficou bem bonito. Há um verdadeiro "diálogo" entre guitarra e baixo ao fundo que funcionou muito bem. Some-se a isso o belo acompanhamento vocal feminino (que era uma novidade nas gravações de Elvis na época) e você terá uma bela faixa, com boa letra e performance bonita de Elvis e seus músicos.

Without Love (There is Nothing) (Danny Small) - Essa é uma velha canção dos anos 50. Ela foi gravada inicialmente por Clyde McPhatter, um cantor negro de R&B e soul em 1957. O single se destacou nas paradas conseguindo uma ótima nona posição entre os mais vendidos na lista Billboard Hot 100, a mais importante da indústria americana. Anos depois o guitarrista Scotty Moore afirmaria que essa música vinha sendo ensaiada por Elvis desde os tempos da Sun Records. Ele tentava gravar, mas por uma razão ou outra isso nunca acontecia. Moore provavelmente se enganou, pois o single original dela só foi lançada em 1957, quando Elvis já estava na RCA Victor. Por essa razão ele nunca chegou a ensaiá-la nos tempos da Sun Records simplesmente porque ela ainda não existia naquela época. É certo que o guitarrista confundiu datas, gravadoras e sessões de gravação, algo esperado de uma pessoa de sua idade. De qualquer forma o mais importante nessa informação é o fato de que Elvis vinha planejando gravá-la há muito tempo, algo que ele conseguiu concretizar no American Studios. Essa canção foi a escolhida para fechar o disco. É uma faixa triste, com acompanhamento melancólico. Sua introdução conta apenas com um dueto entre a voz de Elvis e piano. Depois sutilmente entra o coro vocal feminino, tudo culminando em uma explosão de sentimentos no refrão que é claro em sua mensagem: "Sem Amor (Não existe Nada)". O curioso é que sem saber disso Elvis a gravou em um momento em que dois outros grandes astros a registravam também em estúdio, com suas respectivas versões. A primeira a sair foi a de Ray Charles. Três meses depois outro single com a mesma música chegava nas lojas, dessa vez na voz de Tom Jones. Com isso as chances comerciais da versão de Elvis ficaram nulas. Certamente uma terceira versão em poucos meses não chamaria mais a atenção do público. A RCA prevendo isso a colocou discretamente fechando ambos os álbuns ( Back in Memphis e From Memphis to Vegas – From Vegas to Memphis). Foi uma boa escolha pois o clima da melodia se adequava perfeitamente com a proposta dos discos em questão.

Elvis Presley - Back in Memphis (1969) - Elvis Presley (voz, violão, baixo e piano) / Reggie Young (guitarra) / Tommy Cogbill (baixo) / Mike Leech (baixo) / Gene Chrisman (bateria) / Bobby Wood (piano) / Ronnie Milsap (piano) / Bobby Emons (orgão) / John Hughey (steel guitar) / Ed Kollis (harmonica) / Sonja Montgomery, Mary Green, Mary Holladay, Donna Thatcher, Susan Pilikington & Sandy Bolsey (vocais) / Charlie Hodge (vocais) / The Memphis Horns (metais) / The Memphis Strings (cordas) / Orquestra Sinfônica Municipal de Memphis / Felton Jarvis (produção) / Chips Moman (produção) / Data de gravação: 13 a 22 de janeiro e 17 a 22 de fevereiro de 1969 / Gravado no American Studios, Memphis / Data de lançamento: Novembro de 1969 / Melhor posição nas charts: # 12 (Billboard) e # 3 (UK).

Pablo Aluísio.

5 comentários:

  1. Elvis Presley - Pablo Aluísio
    Elvis - Back in Memphis
    Texto Compilado.
    Todos os direitos reservados.

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  2. Pablo, vou te confessar uma coisa: eu, obviamente, acho muito bom que o Elvis tenha saído da bolha de Hollywood e gravado músicas de qualidade, foi maravilhoso, mas pra te falar a verdade, eu, na época dos filmes, nunca achei musica alguma do Elvis ruim nos filmes, na verdade eu adorava todas e por uma motivo muito simples; eu sou daqueles que adorava qualquer música que o Elvis colocasse a sua voz. Podia ser Old Macdonald Had a Farm ou coisa semelhante, não impostava, a voz e o jeito do Elvis cantar deixa qualquer música insignificante, no mínimo, interessante, ou seja, Atirei o Pau no Gato com o Elvis cantando é melhor que um clássico com outro cantor menos talentoso. Claro que isso é totalmente subjetivo.

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  3. Claro, eu entendo o seu ponto de vista. É uma visão de fã. O problema é que além da visão do fã há uma visão geral, mais ampla. Naquela época Elvis tinha que concorrer com Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan... Não havia como continuar a ser relevante gravando as trilhas sonoras, que até tinham coisas boas, mas que não eram culturalmente importantes.

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  4. Você sabe se o Elvis utilizava os mesmos músicos dos shows de Las Vegas - James Burton (lead guitar), Glen Hardin (piano), Jerry Scheff (bass), Ronnie Tutt (drums) e John Wilkinson (rhythm guitar) - nestas gravações de estúdio?

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  5. A partir das sessões que ficaram conhecidas como "The Nashville Marathon" o Elvis começou a usar sua própria banda de palco para gravar seus discos de estúdio. No American Studios porém o grupo era bem outro, providenciado pelo próprio estúdio.

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