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Elvis Presley - Elvis in Person at the International Hotel, Las Vegas, Nevada

Blue Suede Shoes (Carl Perkins)
A versão de "Blue Suede Shoes" desse álbum foi a terceira a ser lançada na discografia oficial de Elvis. Recordando: a primeira vez que esse clássico rock surgiu na voz de Elvis foi em seu primeiro LP na RCA Victor, logo após ele assinar com a gravadora, em 1956, o grande ano de sua fase como roqueiro. Ela abria o lado A do disco e havia sido gravada nas primeiras sessões do cantor na nova empresa. Essa gravação é considerada uma das melhores já realizadas pelo então chamado Rei do Rock. Quatro anos depois Elvis gravou "Blue Suede Shoes" novamente, dessa vez para a trilha sonora do filme "Saudades de um Pracinha" (GI Blues, 1960). Eu sempre gostei muito dessa segunda versão principalmente pelo fato de ser extremamente bem gravada, com ótimo arranjo. Não tem o mesmo feeling roqueiro da primeira versão, mas supera essa em termos de performance e execução. Não resta dúvida que foi muito bem trabalhada em estúdio. Por isso a considero um verdadeiro primor de Elvis durante os anos 60. Embora "Blue Suede Shoes" seja uma criação de outro astro da Sun Records, o grande Carl Perkins, ela sempre foi muito associada a Elvis e por essa razão era de se esperar que mais cedo ou mais tarde voltasse à sua discografia oficial. E foi o que de fato aconteceu. Em 1969 ela ressurgiu aqui, dessa vez gravada nos palcos de Las Vegas. Devo dizer que é uma excelente gravação, com Elvis e sua TCB Band extremamente empenhados em dar o melhor de si. Há uma introdução musical que fazia parte dos primeiros concertos de Elvis em Vegas, pois na época ele ainda não usava a conhecida "Also Sprach Zarathustra", composição clássica de Richard Strauss. Pois bem, essa abertura que ouvimos nesse álbum foi gravada justamente no concerto do dia 25 de agosto, quando a RCA montou seu equipamento de gravação no showroom do International Hotel justamente para aproveitá-la naquele que seria o primeiro disco ao vivo de Elvis em Las Vegas. Infelizmente temos que reconhecer também que logo Elvis perderia o interesse por "Blue Suede Shoes" nos shows que viriam. Seria notório que a execução desse clássico iria se tornar, com o passar dos anos, mais displicente e negligente por parte de Elvis. Não raro ele a cantava em medíocres versões com menos de um minuto de duração! O que teria acontecido? Penso que o repertório de Elvis ficou tão sofisticado e pessoal a partir de determinado momento de sua carreira ao vivo que "Blue Suede Shoes" acabou ficando ofuscada, diria até mesmo obsoleta. Quando Elvis a gravou pela primeira vez ele era apenas um jovem de vinte e poucos anos. O tempo passou e o velho rock foi perdendo o sentido para o cantor. Algo normal de acontecer. Na maioria das vezes só servia mesmo como um lembrete de que aquele cantor que estava no palco na frente de seu público havia sido um dos nomes mais importantes da história do rock e seu surgimento. Nada muito além disso.

Johnny B. Goode (Chuck Berry)
Outra canção a surgir pela primeira vez na discografia oficial de Elvis nesse álbum foi "Johnny B. Goode", o clássico rock de Chuck Berry. A música foi originalmente lançada em 1958 na gravadora Chess de Chicago. Durante anos a RCA Victor sugeriu a Elvis que gravasse sua versão em estúdio já que esse sempre foi considerado um dos mais celebrados rocks da história, mas Elvis sempre declinava do convite. Para muitos o fato de Elvis nunca ter gravado a música em estúdio nos anos 60 se deveu ao fato dela ser uma verdadeira marca registrada de Chuck Berry, extremamente conhecida e identificada com esse artista. Faz sentido. Se formos analisar bem a carreira de Elvis perceberemos que, com algumas exceções, o cantor preferia gravar canções menos conhecidas, que não fosse hits absolutos de outros cantores. Para isso basta olhar bem o exemplo de Chuck Berry. Ao invés de gravar "Johnny B. Goode" em estúdio Elvis preferiu fazer versões de músicas menos conhecidas dele, como por exemplo, "Memphis Tennessee". Por isso, embora seja um marco da primeira geração de roqueiros americanos, Elvis nunca a tenha gravado oficialmente em estúdio. Já uma versão ao vivo era outra história. Em concertos Elvis se sentia mais livre e solto de amarras. A versão que ouvimos aqui, gravada na primeira temporada em Las Vegas, tem todo o vigor e energia necessários para transformá-la naquela que talvez seja a melhor performance de Elvis da canção. É verdade que outras versões seriam lançadas em discos oficiais, com destaque para a do álbum duplo "Aloha From Hawaii", mas aquela, embora fosse boa, já não tinha mais o pique de antes. Aqui no "In Person" havia aquela vontade de dar certo, de se apresentar bem, isso depois de anos afastado dos palcos. Elvis nessa primeira temporada queria provar a todos que ainda era um grande artista de palco, acima de tudo. Esse foi o diferencial. O destaque em termos de banda, não poderia ser dado a outro músico, pois quem realmente arrasa nessa execução é o guitarrista James Burton. Vindo do grupo de Ricky Nelson, Burton acabou virando um dos principais elementos da TCB Band. Sua atuação aqui foi certamente irrepreensível.

All Shook Up (Otis Blackwell / Elvis Presley)
Embora tenha sido um dos maiores cantores de todos os tempos o fato é que Elvis Presley não levava jeito para compor músicas. Definitivamente ele não era um compositor, fato que ele próprio reconheceu em muitas entrevistas. Na verdade Elvis era um intérprete fenomenal, mas seu talento musical era restrito aos vocais e nada muito além disso. Não há nada de errado nesse aspecto, sendo apenas uma característica sua como artista. Ele não compunha e tocava apenas o básico de certos instrumentos como violão e piano. Dito isso é curioso ver que um de seus maiores sucessos foram creditados a ele. "All Shook Up" ainda hoje é citada como uma composição da dupla Otis Blackwell e Elvis Presley. A verdade foi que Elvis contou a Steve Sholes um estranho sonho que tivera na noite anterior ao de uma sessão de gravação em Nova Iorque. O produtor então ligou para Blackwell para que ele providenciasse um tema em cima disso e assim a canção foi composta. De forma bem divertida e rindo muito Elvis explicaria depois que a inclusão de seu nome na criação dessa música era uma "grosseira tapeação". Pois bem, sendo dele ou não, pouco importa. O fato é que Elvis tinha que voltar com força total aos palcos de Las Vegas após passar vários anos sem realizar shows, se concentrando apenas nos filmes e em suas trilhas sonoras. Por isso era necessário também valorizar seu próprio legado de sucessos. Assim esse novo arranjo foi criado, muito em cima da versão que já havia sido apresentada no NBC TV Special no ano anterior. Como era de praxe nesses antigos rocks Elvis não a levou muito à sério. Era a oportunidade de levantar o público, apresentar algum coreografia agitada e nada muito além disso. É interessante notar que nessa primeira temporada em Vegas Elvis veio com fúria total no palco, porém aos poucos ele foi percebendo que o público da cidade era um pouco diferente daquele que ele encontrara nos anos 50. A maioria era formada de casais na meia idade, todos eles sentados confortavelmente em suas mesas. Algo bem diferente das plateias formadas por jovens adolescentes gritantes de seus anos como roqueiro. Por isso ao longo do tempo Elvis foi colocando seus rocks antigos meio de lado, valorizando canções mais de acordo com aquele público, diria, mais conservador e comportado.

Are You Lonesome Tonight? (Lou Handman / Roy Turk)
Depois que Elvis Presley retornou da Alemanha, onde havia estado por longo tempo para cumprir seu serviço militar, o Coronel Parrker e a RCA Victor decidiram que era o momento dele promover mudanças em sua carreira. A imagem do Elvis roqueiro, rebelde e selvagem, não era mais adequada. Parker tinha planos de transformar Elvis em um astro galã de Hollywood ao velho estilo. Nada de associações com James Dean, Marlon Brando ou com o Rock. O mundo musical havia mudado desde que Elvis fora embora. Os antigos ídolos roqueiros estavam com problemas legais, alguns deles tinham sido presos e não era mais conveniente se associar a esse tipo de coisa. Havia um estigma ruim ligando o rock e a criminalidade, dentro da imprensa e da sociedade americana. Assim Elvis foi remodelado, transformando-se de jovem roqueiro desafiador em um bom moço, cumpridor dos deveres patrióticos, cantando músicas romântica e ternas. Músicas mais agitadas? Apenas se fossem do estilo pop suave. Dentro dessa nova diretriz uma canção como "Are You Lonesome Tonight?" era mais do que adequada. Era o tipo de som que iria imperar nos álbuns e singles do cantor dali para frente. Na verdade "Are You Lonesome Tonight?" era uma regravação de um antigo sucesso da década de 1920, ainda no alvorecer da nascente indústria fonográfica americana. Antes do advento dos gramofones e dos discos de cera (que foram anteriores ao vinil), os compositores ganhavam dinheiro vendendo as partituras de suas músicas em lojas de instrumentos musicais. Como quase toda casa nos Estados Unidos tinha um piano ou alguém que soubesse tocar algum instrumento (a educação musical vinha das escolas públicas) era natural que a venda dessas melodias e letras impressas trouxessem algum retorno financeiro para seus criadores. Esse mundo que já não existe há quase cem anos foi o mesmo em que "Are You Lonesome Tonight?" surgiu. Segundo alguns historiadores a música foi composta por volta de 1910 ou até antes disso. Só depois de alguns anos foi gravada pela primeira vez. Por causa de sua antiguidade a canção trazia um trecho falado, muito popular nos tempos do cinema mudo, que Elvis resolveu manter em sua gravação original no começo dos anos 1960. Curiosamente nos palcos essa parte acabava sendo alvo de brincadeiras por parte de Elvis, o que não deixa de ser uma pena, uma vez que o aspecto histórico dessa composição sempre foi um de seus maiores atrativos.

Hound Dog (Leiber / Stoller)
O que aconteceu com "Blue Suede Shoes" acabou acontecendo também com "Hound Dog". Aliás algo semelhante foi ocorrendo com todos os rocks clássicos de Elvis dos anos 50, ou seja, ele foi perdendo o interesse nessas músicas conforme os anos foram passando. Em determinado momento as execuções de Presley foram ficando medíocres, uma mera sombra de um passado glorioso. Nessa primeira temporada de 1969 o cantor ainda dava energia nas apresentações dessas canções, mas depois realmente a perda de seu interesse foi ficando óbvia. Uma pena porque "Hound Dog" foi um símbolo de uma era. Basta lembrar de suas históricas apresentações na TV americana nos anos 50 para entender bem isso. Claro que em Las Vegas "Hound Dog" não poderia mais surgir no palco como foi gravada nos anos 50. O rock puro, com apenas quatro instrumentos, foi modificado. Havia uma orquestra inteira com Elvis no palco e por essa razão um arranjo com muitos metais foi escrito. Além disso a guitarra foi colocada em primeiro plano, com James Burton em destaque, algo que não existia na versão original com Scotty Moore. É interessante que esse rock de Leiber e Stoller foi também um dos que mais receberam arranjos diferentes ao longo do tempo. Nos anos 70 iríamos ouvir nos concertos de Elvis além daquelas mini versões irrisórias - que duravam menos de um minuto - outras bem diferenciadas, com um certo molejo, outras vezes um pouquinho jazz e até mesmo - pasmem! - uma versão com ritmo de discoteca! Não sei como essa última foi feita pois Elvis simplesmente odiava discoteca. Enfim, muito provavelmente ele estava tão desinteressado por "Hound Dog" que simplesmente deixou pra lá, sem ligar para o que estavam fazendo com ela.

I Can't Stop Loving You (Don Gibson)
O álbum "Elvis in Person at the International Hotel, Las Vegas, Nevada" foi um desdobramento do disco duplo "From Memphis to Vegas / From Vegas to Memphis" e trazia apenas as canções gravadas ao vivo por Elvis em Las Vegas na sua primeira temporada na cidade (realizada em agosto de 1969). Como era de se esperar em um concerto ao vivo Elvis interpretou vários sucessos de sua carreira. O LP aliás abria com uma seleção deles, "Blue Suede Shoes", "All Shook Up", "Are You Lonesome Tonight?" e "Hound Dog". Não vou escrever sobre essas músicas porque já falei sobre elas antes. Vamos nos ater apenas naquelas que surgiam pela primeira vez na discografia oficial de Elvis. Assim a primeira inédita desse disco era o country "I Can't Stop Loving You" de Don Gibson. Essa é uma velha música lançada pela primeira vez em 1957 pelo próprio autor na RCA Victor. Desde que a ouviu pela primeira vez Elvis a adorou, chegando inclusive a cogitar gravá-la ainda naquele ano. Só desistiu por causa do produtor Steve Sholes que o aconselhou a não misturar seu trabalho na época (em sua fase mais roqueira) com o sucesso de outro artista country. Realmente naquela fase não havia espaço para essa música na discografia de Elvis. Já em Las Vegas, 1969, o contexto era outro. Elvis selecionou um repertório que fosse ao mesmo tempo um revival de seus anos de glória - que aconteceram justamente na década de 1950 - com uma nova seleção musical que também fosse de seu gosto pessoal, que lhe agradasse. A despeito disso nunca considerei "I Can't Stop Loving You" uma grande canção. Ela tem todas as matrizes que fazem parte do universo country mais comercial de Nashville - entre eles os arranjos excessivos e a letra piegas e sem novidades. Muito provavelmente Elvis e o Coronel Parker já estivessem de olho nas turnês que realizariam em cidades do sul dos Estados Unidos e a incluíram na lista dos shows, já que ela era considerada naqueles tempos uma das grandes representantes do som rural do Tennessee, um verdadeiro standard. Curiosamente Elvis nunca a gravou em estúdio oficialmente. Em termos de discografia oficial a canção retornaria mais uma vez no LP "Welcome to My World" de 1977. Essa foi uma coletânea com claro sabor country, repleta desse tipo de estilo musical. A capa era excelente, mas o conteúdo era formado apenas por reprises. Em suma, não vejo "I Can't Stop Loving You" como um grande momento musical na carreira de Elvis, embora seja inegável que o cantor a apreciava, sempre a interpretando em inúmeras turnês e concertos realizados nos anos 70. Só indicada mais firmemente para quem aprecia especialmente o lado mais country de sua carreira.

My Babe (Willie Dixon)
A Chess foi uma gravadora muito importante na história da música americana. Ela foi fundada por dois irmãos (Phil e Leonard) que tinham o objetivo de explorar o rico cenário musical negro na Chicago dos anos 1950. A ideia deu extremamente certa e em pouco tempo a Chess estava colecionando sucessos nacionais. Assim como a Sun Records, o segredo vinha da revelação de novos valores, músicos talentosos, mas desconhecidos, que tinham sua primeira oportunidade no selo. Willie Dixon foi um desses cantores e compositores negros que tiveram sua grande oportunidade na Chess. De origem humilde ele ganhava a vida tocando blues em bares e pequenos festivais do sul, onde nasceu. Mais tarde se mudou para Chicago em busca de trabalho. Acabou caindo nas graças dos irmãos Chess e conseguiu finalmente gravar seus primeiros singles. "My Babe" foi lançada como compacto em 1955. Ele apenas adaptou a canção "This Train (Is Bound For Glory)" da cantora gospel Rosetta Tharpe, mudando sua letra original, retirando seu teor religioso, a transformando num típico R&B que a cada dia ia ficando mais popular. Essa ideia seria também aproveitada por Ray Charles na criação de seu hit "I Got a Woman". No lado B Dixon encaixou a instrumental "Thunderbird". O single fez sucesso e chegou a se destacar na parada nacional de blues da Billboard. Elvis, que sempre foi um admirador da música negra americana, logo pensou em "My Babe" para seus shows em Las Vegas. Ela seria apresentada numa versão mais rocker, sem seguir fielmente os arranjos originais. Vinte anos tinham se passado e não havia como resgatar aquela sonoridade clássica mais ao estilo blues. "My Babe" acabou se tornando um dos pontos altos da primeira temporada de Elvis no International Hotel, mas curiosamente não teve vida longa nos palcos. Embora bastante agitada, com refrão pegajoso, ela também se tornava um pouco cansativa para Elvis e banda por causa das repetições de sua letra e melodia. Elvis jamais a gravou em estúdio, nunca tendo sido reaproveitada dentro de sua discografia oficial. Da maneira como foi executada por Elvis e a TCB Band ela realmente só tinha vocação para os concertos ao vivo. Uma canção para levantar o público, nada muito além disso. A letra é básica, se formos extrair mesmo sua essência e conteúdo teremos apenas uma ou duas linhas relevantes. O que vale é a repetição do refrão e a melodia de blues, tudo de acordo com o gênero. O embalo é certamente sua maior qualidade.

Mystery Train / Tiger Man (Parker / Phillips / Hill Louis / Burns)
Há um consenso geral entre analistas sobre música de que Elvis Presley não deu o tratamento merecido e adequado a vários de seus rocks clássicos dos anos 50 quando retornou aos palcos em fins dos anos 60 e depois na sua longa trajetória na estrada pelos anos 70 afora. Todos esses sucessos surgiam em versões preguiçosas, mal executadas, com Elvis pouco empenhado em apresentar uma boa versão ao vivo. Existiram porém algumas exceções. Um exemplo veio, por exemplo, nesse medley "Mystery Train / Tiger Man". A primeira canção é uma verdadeira obra prima gravada originalmente na Sun Records. Sua gravação deu origem a um dos cinco mitológicos acetatos que Elvis gravou e lançou pela pequenina gravadora de Memphis quando era apenas um cantor promissor e praticamente desconhecido fora dos limites de sua cidade. O produtor Sam Phillips certamente não contava com  maiores recursos técnicos na época, porém era mestre em criar sonoridades diferentes em seu pequeno e acanhando estúdio. "Mystery Train" era a prova de seu talento nesse aspecto. Já "Tiger Man" surgiu na carreira de Elvis durante as gravações do NBC TV Special. A letra é bem tolinha para falar a verdade, mas tinha um feeling rocker que há tempos não se via na discografia de Elvis. Era algo que fazia falta naquele momento. Cumpriu seus propósitos. Sozinha ela poderia não ter força suficiente para empolgar o público em um show, mas em medley com o clássico da Sun a coisa poderia ficar muito interessante. Palmas para o maestro Bergen White que foi o responsável pela ideia e pelos arranjos para o grupo orquestral que tocou ao lado de Elvis no palco do International Hotel naquela sua primeira temporada. O medley foi apresentado a Elvis durante os ensaios. Assim que ouviu o arranjou ele disse imediatamente: "É isso aí, vamos usar no concerto de hoje à noite". Na ocasião ficou tão satisfeito com tudo que até mesmo criou uma coreografia própria para o medley, resultando em um dos melhores momentos desse álbum ao vivo. Um exemplo perfeito de como um velho material poderia muito bem render ainda ótimos momentos nessa nova fase de sua carreira.

Words (Robin Gibb / Barry Gibb / Maurice Gibb)
Houve um claro divisor de águas na carreira de Elvis a partir do momento em que ele retornou aos shows ao vivo em 1969. Durante toda a década de 60 Elvis havia se enfurnado dentro do estúdio produzindo um material que lhe era imposto pela gravadora RCA Victor e demais companhias de cinema. Esses álbuns produzidos do tipo Made in Hollywood tinham pouca coisa a ver com o que acontecia lá fora, no mundo real. A maioria das músicas só faziam sentido dentro do contexto das cenas dos filmes. Os arranjos tinham parado no tempo e qualquer polêmica envolvendo as letras era sumariamente eliminada pelos produtores. Elvis vivia em uma espécie de bolha. Não é de se admirar que conforme o tempo foi passando seus discos deixaram de vender bem. Pois bem, quando voltou aos concertos ele precisou se atualizar, cantar um repertório que criasse uma ligação com o gosto popular novamente. Não haveria mais câmeras e nem cenas enlatadas. Elvis tinha que encarar seu público face a face e fazer com que eles voltassem a gostar dele. Por isso o repertório mudou tanto. Elvis tinha que catar os sucessos das paradas para agradar as pessoas que tinham comprado um ingresso para vê-lo ao vivo. "Words" do Bee Gees vai justamente nessa direção. Elvis tinha pouca coisa a ver com musicalidade desse grupo que era muito bom e tudo, mas que não seguia uma linha que pudesse ser associada ao trabalho que ele próprio havia realizado em sua carreira artística em todos aqueles anos. Então por que Elvis resolveu apresentar sua própria versão desse hit do grupo Bee Gees? Simplesmente porque era sucesso nas rádios, tocando o tempo todo. Elvis queria acima de tudo demonstrar que estava novamente se religando ao que estava no topo do gosto popular, mesmo que ele próprio não fosse lá muito fã desse grupo. Em minha concepção penso que a versão de Elvis para "Words" ficou muito boa. Tal como outras canções desse álbum, Elvis também não a gravou oficialmente em estúdio. É uma versão rápida, não muito bem trabalhada, mas que conta com uma boa performance de Elvis, além dos elogios sempre merecidos para a banda de apoio, com ênfase para os tecladistas (Glen Hardin, em especial). Além da boa sonoridade "Words" também é uma raridade já que em pouco tempo Elvis a descartaria do repertório de seus concertos. Pelo visto o cantor não se empolgou muito com a canção como um todo. Ossos do ofício.

In the Ghetto (Mac Davis)
Essa foi a segunda vez que a música "In the Ghetto" apareceu na discografia de Elvis. Antes ela havia feito um belo sucesso de crítica e público quando foi lançada como single em 1968. Essa música foi um raro exemplar de música política dentro da carreira de Elvis Presley. Era fato notório que o Coronel Parker não queria que Elvis desse declarações públicas sobre suas opiniões políticas. Assuntos como guerra do Vietnã, luta pelos direitos civis das minorias e suas preferências partidárias eram proibidos por Tom Parker. Em uma época muito intensa nesse campo, principalmente dentro dos Estados Unidos, toda a imprensa (e o público) queriam saber o que Elvis Presley pensava sobre tudo o que estava acontecendo, mas em entrevistas Elvis era instruído a sempre sair com respostas evasivas. Provavelmente se Elvis tivesse falado o que pensava iria surpreender muita gente. Ele era um conservador na verdade, votava no partido republicano e tinha ideias patrióticas bem definidas sobre a intervenção americana no Vietnã. Elvis, que tinha sido militar no final dos anos 1950, tinha uma postura bem clara sobre o que estava acontecendo dentro da sociedade americana. Ele achava um absurdo que outros artistas, como Jane Fonda ou John Lennon, fossem contra a guerra. Para Elvis o importante era apoiar as tropas americanas no exterior. Ser um patriota, acima de tudo. Já no campo da luta dos direitos dos negros ele tinha uma postura bem mais liberal. Elvis cresceu em Memphis, um dos polos mais racistas do sul americano (que por si só já era uma região absurdamente separatista entre negros e brancos). Por exemplo, Elvis estudou em um colégio onde apenas brancos podiam estudar. Os banheiros, ônibus e até estabelecimentos comerciais de sua cidade eram separados. Havia bairros onde apenas brancos poderiam morar. Aos negros eram destinados os piores lugares da cidade, muitas vezes sem infra estrutura alguma. Até as igrejas evangélicas eram separadas. Mesmo assim, com toda essa segregação, desde muito jovem Elvis criou uma intensa curiosidade sobre a cultura dos negros. Ele ouvia preferencialmente estações de rádio voltados para o público negro e foi dessa convivência que ele tirou grande parte de sua musicalidade. Por isso não foi surpresa que tenha sido acusado no começo de sua carreira de ser "um cantor branco cantando músicas de negros". Assim "In The Guetto" de Mac Davis era um sopro de novidade em sua discografia. Uma letra que tinha muito o que dizer e que em última análise funcionava justamente como uma declaração pública mesmo que indireta do próprio Elvis sobre a situação precária em que vivia o negro norte-americano, sofrendo todos os tipos de preconceitos desde a mais tenra idade.

Suspicious Minds (Mark James)
Foi justamente nesse álbum "Elvis in Person" que pela primeira vez surgiu na discografia de Elvis uma versão ao vivo do grande sucesso "Suspicious Minds". Essa música, gravada maravilhosamente bem nas sessões do American Studios em Memphis, foi um verdadeiro alívio para Elvis Presley. Fazia sete anos que ele não conseguia atingir o primeiro lugar na parada de singles da Billboard. Essa era considerada a mais importante dos Estados Unidos, um verdadeiro termômetro do sucesso de cada artista dentro da indústria fonográfica. Desde "Good Luck Charm" em 1962 Elvis não conseguia chegar lá, bem no topo. Era um reflexo de como Hollywood e suas trilhas sonoras tinham arruinado o lado musical de Elvis. Dentro da indústria da música ele já não tinha mais muito prestigio, justamente pelos vários fracassos comerciais que foi colecionando ao longo dos anos 60. Para quem havia surgido no mercado como um dos maiores vendedores de discos da história era uma situação constrangedora e até mesmo vergonhosa. Assim "Suspicious Minds" serviu para melhorar sua posição dentro do mercado fonográfico, ao mesmo tempo em que passava a relevante mensagem para todos de que, apesar de tudo, Elvis ainda estava vivo musicalmente e ainda podia surpreender. O tema de "Suspicious Minds" é o ciúme. Basicamente é uma mensagem sobre um casal que vê seu relacionamento ruir por causa da desconfiança, das suspeitas. Quando foi lançada e começou a fazer sucesso nas paradas alguns críticos implicaram com suas primeiras linhas escritas, que soavam esquisitas. Ela dizia: "Nós caímos em uma armadilha. E não posso sair dela". A tal armadilha era justamente as mentes desconfiadas, que se suspeitavam mutuamente. Um tipo de relacionamento que ia aos poucos se tornando doentio. Certamente muitos casais se identificaram, inclusive o próprio Elvis. Há tempos ele vinha ouvindo rumores de que sua esposa Priscilla estava tendo um caso extraconjugal. O problema é que o próprio Elvis era um marido infiel e resolveu não ir atrás das fofocas sobre sua mulher (e que iriam se revelar em um futuro próximo como bem verdadeiras). Assim acabou-se criando mais uma irônica coincidência entre uma letra de uma canção e a vida pessoal de Elvis, algo que ele iria propositalmente procurar nas gravações futuras de seus discos. Um reflexo de seus sentimentos em meras notas musicais.

Can't Help Falling In Love (Weiss / Peretti / Creatore)
A canção "Can't Help Falling In Love" fez parte do disco mais vendido da carreira de Elvis Presley, a trilha sonora do filme "Blue Hawaii" (Feitiço Havaiano, no Brasil). Considerado pelo Coronel Tom Parker o "produto perfeito", acabou sendo realmente um marco comercial para Elvis. Já para os críticos em geral, tanto da área musical como cinematográfica, o projeto como um todo não era grande coisa. As canções, com arranjos havaianos, só funcionavam bem em sua maioria dentro do contexto do filme. Fora dele soavam pouco interessantes para DJs e programadores de rádio da época. Uma das poucas exceções era justamente essa canção  Can't Help Falling In Love" que tinha uma bela melodia, extremamente bem escrita, embora com letra sem maiores recursos. Foi a música mais badalada do filme, sendo inclusive vendida como single. Duplamente vitoriosa do ponto de vista comercial, determinou o caminho que Elvis iria seguir nos próximos anos. Na volta aos palcos Elvis trouxe poucas canções de sua fase em Hollywood. A maioria das músicas que gravou para filmes realmente não serviam para apresentações ao vivo. Para não deixar esse longo momento de sua carreira sem representante em seus shows Elvis resolveu levar "Can't Help Falling In Love" para o desfecho de todas as suas apresentações após seu retorno em 1969. Isso levou Elvis a cantá-la literalmente mais de mil vezes ao longo de todos aqueles anos, até sua morte em 1977. Obviamente que a saturação atingiu sua performance em cheio. Por essa razão a versão definitiva em termos de qualidade seguiu sendo a primeira, gravada em estúdio, em 1961. Todas as suas execuções ao vivo deixaram sempre um pouco a desejar. Além disso nunca conseguiram reproduzir o lado mais melódico da gravação do filme. Aquele arranjo ao mesmo tempo lírico e terno deveria ter sido preservado pois era a maior qualidade da composição. De qualquer forma, como símbolo de sua despedida ao público, acabou servindo aos seus propósitos. Assim que dava a sua nota final Elvis corria para os bastidores enquanto Al Dvorin informava aos presentes que ele não se encontrava mais no recinto. "Elvis has left the building".

Elvis Presley - Elvis in Person at the International Hotel, Las Vegas, Nevada (1969) / Data de Gravação: Agosto de 1969 / Local de Gravação: Hotel International, Las Vegas, Nevada / Produção: Felton Jarvis, Glen D. Hardin, Glenn Spreen, Bergen White, Elvis Presley / Músicos: Elvis Presley (vocais, violão), James Burton (guitarra), Jerry Scheff (baixo), John Wilkinson (guitarra), Bob Lanning (bateria), Ronnie Tutt (bateria), Charlie Hodge (violão), Glen Hardin (piano), Larry Muhoberac (Piano, órgão), The Imperials (vocais), The Sweet Inspirations (vocais), Millie Kirkham (vocais), Bobby Morris e Orquestra. / Melhor posição nas paradas: #12 (Billboard USA)  #3 (Inglaterra) / Data de lançamento: Outubro de 1969.

Pablo Aluísio.

5 comentários:

  1. Elvis Presley - Pablo Aluísio
    Elvis in Person (1969)
    Texto Compilado
    Todos os direitos reservados.

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  2. Eu li uma reportagem brasileira de 1969/70, por aí, em que criticam Elvis por ser impossível que um homem com 33 anos não pareça ter envelhecido nada, o que é não é fácil de entender hoje época que em que as pessoas só mostram os sinais dos tempos com idade muito mais avançada que 33 anos, mas é bom lembrar que em 1969 as pessoas entre trinta e quarenta anos já eram quase velhas, tanto que era normal se dizer "o cara e muito velho, já tem mais de 4o anos". O Elvis realmente, para os padrões da época estava fisicamente muito bem, porem, em relação ao rock, arte que ele inventou e a seus fãs da década de "50, ele realmente já era um velho e isso explica o seu desanimo em fazer interpretações furiosas e perfeitas dos seus rocks clássicos, quando seus fás eram velhas e velhos de mais de 30 anos que queriam sons mais calmos e românticos. Era o fim prenunciado.

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  3. A frase "A vida começa aos 40" é recente. Antes quando se chegava aos 40 se dizia que a pessoa já estava velha e acabada - e o Elvis pensava assim! Quando completou 40 anos de idade se escondeu, se isolou em Graceland. Chegou a dizer a um amigo da Máfia de Memphis! "Estou com 40 anos, estou acabado!". Como ídolo jovem ele não soube envelhecer e nem aceitar a idade. Sob esse ponto de vista ele tinha uma mentalidade bem tola!

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  4. É verdade Pablo, mas se pensarmos como são patéticos esses roqueiros velhos que sobrevieram e estão se arrastando por aí, como tirar a razão do Elvis que viu fios de cabelos brancos na sua cabeça um dia e perguntou a um amigo "como um roqueiro pode ser velho?".

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  5. O rock como energia jovem, rebelde, etc, realmente demanda cantores jovens...

    Porém tirando essa imagem de lado podemos lembrar do Pink Floyd, por exemplo...

    Sessentões, ótimos músicos, ainda faziam bonito no palco, mesmo depois de muitos anos...

    O som do Pink Floyd sempre foi mais sofisticado, virtuoso, por isso eles jamais sentiram falta da juventude... É um grupo mais intelectual...

    Já Mick Jagger rebolando, dando uma de jovenzinho, aí já é outra história... é Ridículo de fato...

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