quarta-feira, 3 de maio de 2017

Elvis Presley - Elvis Country - Parte 5

Há uma certa dose de exageros nas críticas que são feitas à gravação de Elvis do clássico "Whole Lotta Shakin' Goin' On". Talvez isso venha do fato dessa canção ser muito associada ao roqueiro Jerry Lee Lewis. É fato que a versão de Elvis não tem o pique da versão de Lewis, porém é inegável que esse sabor mais country que Elvis e banda trouxeram para a música também a tornou bem irresistível. Um fato curioso é que após a gravação da música, o produtor Felton Jarvis, sem conhecimento de Elvis, adicionou um exagerado arranjo de metais. Quando a versão foi mostrada para o cantor para sua aprovação final, ele odiou tudo. "Tirem essas cornetas daí" - falou Elvis sem meias palavras. Jarvis era um excelente produtor, porém em determinados momentos podia mesmo exagerar na dose.

Já "Little Cabin On The Hill" cativa pela extrema simplicidade. Essa canção nem estava na lista da RCA Victor para essas sessões. Durante o intervalo em que Elvis aproveitou para beber uma Pepsi-Cola, ele chamou o músico Charlie McCoy para perto de si e perguntou: "Ei Charlie, como era mesmo aquela velha música do Bill Monroe?". Aproveitando a deixa em sua gaita ele tocou as notas e Elvis lembrou-se imediatamente da letra. Bill Monroe havia composto "Blue Moon of Kentucky", uma das primeiras músicas gravadas profissionalmente por Elvis, ainda nos tempos da Sun Records. Por isso havia um certo carinho por parte de Presley em relação à sua obra. Elvis então cantarolou os primeiros versos que diziam "Tonight I’m alone without you my dear..." e ali mesmo decidiu que iria gravar a música. De todas as gravações que fizeram parte desse disco "Elvis Country" essa é seguramente uma das mais originais. Uma volta aos bons e velhos tempos de sua infância e adolescência.

Se a música anterior era caracterizada pela simplicidade e bucolismo, "Tomorrow Never Comes" chamava atenção pela suntuosidade. Seu estilo e ritmo lembram uma marcha dos tempos da guerra civil americana, daquelas que as tropas iam cantando pelas estradas em direção ao front de batalha. Essa canção também era bem antiga. Gravada originalmente na década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, a composição era bem conhecida pelos artistas de Nashville. O cantor e compositor Ernest Tubb, que a tinha gravada no passado, havia trabalhado ao lado do Coronel Tom Parker. Era um velho conhecido. Seu estilo honky tonk não foi seguido por Elvis em sua versão. O cantor preferiu trazer mais dramaticidade e impacto, ignorando suas origens mais simples, para dar consistência à obra. Em minha forma de ver acabou se tornado umas das melhores gravações de Elvis durante a Nashville Marathon. Consistente e extremamente bem arranjada, ainda hoje impressiona.

Depois de tanta densidade, nada melhor do que ouvir algo mais relaxante. Esse parece ter sido a principal proposta de "Funny How Time Slips Away". Elvis adorava essa canção, tanto que a levou para os palcos, para os concertos, por anos a fio. Por essa razão há centenas de versões ao vivo da música em muitos CDs bootlegs, além das que fazem parte da discografia oficial. Willie Nelson a compôs originalmente. Cantor e compositor do universo country americano, Nelson tinha sua própria maneira de interpretar. Um estilo vocal muito distante do barítono Elvis Presley. Sabiamente Elvis resolveu ignorar aquele timbre vocal, adaptando a música para o seu próprio jeito. Ficou obviamente menos country (Nelson evoca demais o estilo mais caipira da country music) e por essa razão mais acessível ao público em geral. Tudo resultando em outro excelente e marcante momento desse álbum.

Pablo Aluísio.

3 comentários:

  1. Elvis Presley - Pablo Aluísio
    Elvis Country - Parte 2
    Todos os direitos reservados.

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  2. Olá, Pablo. Muito bom o texto a respeito desse álbum. Eu comprei Elvis Country em fita cassete, por volta de 1993, se não me engano. Não sei se você se recorda de uma época em que a RCA lançou no mercado cinco discos, fitas do Elvis, entre eles estava Elvis Country, isso, acho que em 1993 mesmo. Em um desse lançamento estava Elvis Essential v.I que tem uma versão de It is so strange que ele dá uma desafinada no começo rsrsrs. Enfim, só recordando as épocas dos discos e fitas. Mas em relação ao Elvis Country, concordo que a faixa do Jerry Lee Lewis tem mais gás, mais energia. E olha que pra fan falar isso deve ser mesmo. Agora uma coisa que me intriga e talvez você saiba responder é o porquê Elvis na década de 70 gravou tantos covers. Ele não encontrava material inédito, era mais difícil contratar compositores? Tá certo que as versões dele são bem melhores. Abraços e até mais.

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  3. Sim, as fitas K7 tinham um charme todo especial. Bons tempos. Em relação aos covers, bom apenas o próprio Elvis poderia responder melhor essa questão. Nos anos 70 ele teve uma ampla liberdade para gravar as músicas que quisesse. Acabou escolhendo bastante canções de outros artistas. Não penso que fosse complicado contratar novos compositores, já que esse mercado sempre existiu. Acredito que foi apenas uma escolha bem pessoal dele, cantando as músicas de que gostava.

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